
Quando chegaram, Luba Petrivna e Vasyli Pawlovych estavam assustados. Os cabelos brancos dele e os cabelos brancos dela, revelam que já são, pelo menos, sexagenários. Pouco depois da guerra ter começado na Ucrânia, em Fevereiro de 2022, com a invasão das tropas russas, milhares de pessoas viram, de um dia para o outro, as suas casas serem bombardeadas, serem destruídas. De um dia para o outro, a artilharia russa desfez vidas, desfez sonhos, reduziu a escombros tudo o que muitas famílias possuíam. De um dia para o outro, milhares de pessoas como Luba e Vasyli tiveram de se fazer à estrada à procura de abrigo. Passaram a ser deslocados dentro do próprio país. Quando a guerra começou, as notícias dos ataques dos bombardeamentos, das cidades sitiadas, deixaram revoltadas as Irmãs Beneditinas de Solonka. E elas decidiram que tinham de fazer alguma coisa. Então, estas religiosas contemplativas optaram por algo radical: abrir as portas do mosteiro, privando-se do silêncio e da solidão, para acolherem pessoas que fugiam por causa dos combates, da violência, da guerra. Desde que começou a invasão das tropas russas, a 24 de Fevereiro de 2022, já dezenas de famílias passaram pelos claustros das Irmãs de Solonka, na região de Lviv. Entretanto, já passaram muitos meses, mas nada mudou nessa vontade, nessa decisão radical das irmãs. Acolher os que chegam, recebê-los de braços abertos, dar abrigo a estas famílias em sofrimento, confortá-las… passaram a ser palavras comuns nos pensamentos destas mulheres consagradas a Deus. Ao longo de todo este tempo, as irmãs escutaram já muitas histórias, viram o horror estampado nos olhares de quem presenciou a violência da guerra no seu estado mais puro, comoveram-se com as lágrimas dos refugiados. Os claustros do mosteiro são, agora, o sinal de que por ali vivem outras pessoas que não apenas as irmãs. Há roupa estendida, ouvem-se risos e brincadeiras de crianças, e no refeitório há pessoas comuns, casais, homens e mulheres. São todos hóspedes. Luba e Vasyli fazem parte deste grupo. Neste momento, a guerra continua e não há perspectivas de qualquer acordo que leve ao fim dos combates. Para Luba e Vasyli o regresso também é improvável. Vieram de Kramatorsk, na região de Donetsk, uma das mais bombardeadas. O mais certo é a sua casa ter sido já destruída. Tanto para eles como para todos os que vivem no mosteiro, não vale a pena fazer grandes planos. Para as irmãs, o mais importante é poderem continuar a acolher os que perderam tudo o que tinham, os que precisam até de refazer as próprias vidas. Para as irmãs, o mais importante é terem transformado o silêncio do mosteiro numa grande casa de Deus.