
“Nas últimas semanas há um silêncio assustador.” Esta frase, esta constatação, de um padre de Cabo Delgado, chegou ao meu telemóvel um destes dias. É uma frase simples mas que diz muito sobre o medo que há na região norte de Moçambique. O medo de que o terror regresse. O terror dos homens armados, dos grupos jihadistas, dos que têm semeado morte e destruição, dos que lançaram, desde o final do ano passado, uma nova ofensiva com dezenas de aldeias atacadas onde, por exemplo, só no distrito de Chiúre, todas as capelas e igrejas cristãs foram incendiadas. O silêncio assustador de que fala o sacerdote refere-se ao tempo do Ramadão, que começou a 10 de Março e terminou a 9 de Abril e é um tempo sagrado para os muçulmanos. Este silêncio assustador parece lembrar a calma estranha que antecede sempre as tempestades. Em Cabo Delgado ninguém está à espera de outra coisa que não seja o regresso em força dos terroristas. A situação humanitária na região é deveras preocupante. É preciso nunca esquecer que desde Outubro de 2017, quando ocorreu o primeiro ataque, até hoje, Abril de 2024, já morreram mais de cinco mil pessoas e houve mais de 1 milhão de deslocados. No início deste ano, por causa da nova onda de violência, pelo menos mais 100 mil pessoas abandonaram tudo o que tinham, deixaram as suas casas, as suas machambas, os terrenos onde cultivam o que comem no dia a dia e fugiram. Fugiram levando numa trouxa na cabeça tudo o que conseguiram juntar. Às vezes, nem isso. São mais cem mil homens, mulheres e crianças, principalmente mulheres e crianças que engrossam o número dos que a Igreja tenta socorrer. Uma Igreja que está também praticamente de mãos vazias, sem recursos, sem forma de apoiar tantas pessoas, tantos deslocados internos. É uma catástrofe humanitária o que está a acontecer em Cabo Delgado, em Moçambique. A Fundação AIS acaba de lançar aqui em Portugal mais uma campanha. Uma campanha em que se dá voz ao Bispo de Pemba que nos pede ajuda. Uma campanha em que se dá voz aos sacerdotes locais, que nos falam de fome, do povo que precisa de comida, do povo que precisa de cobertores, que precisa de abrigo. Todos pedem ajuda. São pedidos de socorro que não podem ficar sem resposta. Não podemos fingir que não sabemos, que não vimos, que não ouvimos estes gritos de socorro. Agora, é connosco. PA www.fundacao-ais.pt