
O que realmente se escondia por trás do brilho imponente da chamada Era Dourada americana? No novo episódio do podcast Hora Americana, recebemos o professor Lucas Kolln, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), para explorar os bastidores e as contradições dos EUA no final do século XIX. Frequentemente lembrado romantizado como um período de extraordinário crescimento econômico, esse foi também um tempo marcado por corrupção, concentração de riqueza e profundas desigualdades sociais. Inspirada na sátira de Mark Twain e Charles Dudley Warner, a expressão Gilded Age — ou Era Dourada — denunciava justamente essa contradição: uma sociedade aparentemente reluzente, mas cuja superfície dourada escondia a ganância, a especulação desenfreada e a corrupção generalizada. Ao longo da conversa, questionamos a tese de que o colossal salto industrial pós-Guerra Civil teria nascido unicamente da livre iniciativa. O episódio aponta que o Estado federal operou como indutor decisivo do desenvolvimento econômico, operando por meio de pesadas tarifas protecionistas, concessões territoriais e estímulo à infraestrutura ferroviária. Também revisitamos o controverso mito do self-made man, investigando se figuras como John D. Rockefeller, Andrew Carnegie e Cornelius Vanderbilt eram heróis do pioneirismo moderno ou magnatas forjados nos contratos da guerra que sufocaram a concorrência e ergueram monopólios avassaladores. A discussão aborda também a vida cotidiana e as profundas fraturas da classe trabalhadora, que vivenciou a transição de uma república de produtores rurais independentes para uma sociedade cada vez mais urbana e marcada pelo trabalho assalariado. Esse processo foi acompanhado por grandes ondas migratórias, pelo deslocamento de populações afro-americanas após o fim da escravidão e por conflitos entre trabalhadores e empresários, como a Grande Greve Ferroviária de 1877. Nesse cenário, examinamos o papel do jornalismo investigativo de denúncia e o surgimento de novas formas de organização e resistência dos trabalhadores. Entre o impacto do jornalismo investigativo de denúncia e as primeiras resistências sindicais organizadas, o ouvinte é confrontado com a questão que já inquietava os contemporâneos e que foi formulada por pensadores como Henry George: afinal, como um país que atingiu índices recordes de progresso e riqueza pôde gerar, em paralelo, tamanha escala de desigualdade e pobreza? Não perca essa imersão fascinante em um dos momentos mais decisivos das Américas, cujos ecos e dilemas sobre riqueza, poder e democracia dialogam diretamente com o nosso próprio presente.