
Deitado no colchão exposto pelo piso gelado observo o caminhar das baratas e já não me levanto num ímpeto assassínio, continuo deitado e as olho com fascínio, admirando a rendição do meu espírito sociopata; a verdade é que eu nunca quis ser diplomata, o meu lugar é aqui com as baratas, onde não me alcança a vaidade de querer mudar o mundo, mas continuo tendo aquele sonho em que eu acordo em Islamabad, as pessoas me falam em língua urdu e eu respondo em francês; não tem aquele tom lúdico de sonho, parece um resquício de sensatez, um pedido que perdeu a vez, o último eco de um clamor, não, eu não vou poder ajudar vocês Uma barata se esconde atrás do armário; eu lembro daquele orgasmo insano, o único instante em que eu a tive lucidez de genuinamente desejar a paz mundial; a loucura é um rebento, um sopro contra o vento que nos permite ver a pureza das coisas