
Bem-vindas ao terceiro podcast de Ficção Brasileira I. Nele, apresento uma leitura da crônica-folhetim (= crônica publicada no rodapé da primeira página de um jornal) de Francisco Otaviano, importante nome da vida cultural brasileira no Segundo Reinado. A crônica-folhetim trata das transformações na paisagem e na vida urbana do Rio de Janeiro, então a cabeça urbana do país. Tais transformações (distribuição de água, iluminação pública, presença da polícia municipal, trem de ferro etc) são tratadas pelo cronista, que percebe o impacto que elas podem ter sobre as relações de convívio. É anunciada a aposentadoria dos lampiões de azeite de baleia e dos cavalos, burros etc. A crônica-folhetim é datada de um momento histórico em que tem início o ingresso do país na modernidade urbana -- com todas as contradições implicadas, uma vez que movido por uma economia escravocrata de base rural. O "Irineu" a que o cronista se refere é Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, banqueiro e empresário, responsável por notáveis implementos nas áreas de fundição, estaleiro e transportes -- a última referida também pelo cronista, ao aludir ao trecho de linha ferroviária que seria inaugurado em breve. Há diversos termos que necessitam busca em dicionário para se entender o significado: "torcida" (o pavio dos lampiões de azeite), "tamina" (recipiente para transportar água) etc. Diversas práticas sociais ou profissionais que desapareceriam ao longo do tempo são registradas: os acendedores de lampião de azeite, a fila pelos barris de água no Largo da Carioca, o entrudo (espécie de ancestral do carnaval, de origem galaico-portuguesa) etc. O cronista fixa o momento de transição de uma sociedade dada, o que é sintetizado nas imagens ao término da crônica-folhetim articuladas a partir dos pares dialéticos campo x cidade; trem x animais (a tração dos bondes era animal ainda nessa época, passando a ser elétrica só muitos anos mais tarde, como veremos em outro podcast, que tratará de uma crônica de Machado também sobre a aposentadoria dos burros); arcaico x moderno. Até o próximo podcast, que será focalizado nas duas crônicas-folhetins (= crônica publicada no rodapé da primeira página de um jornal) de José de Alencar incluídas na apostila. Abraço geral e fiquem bem!