
Há algum tempo eu presenciei uma cena peculiar. Dois ciclistas foram fechados no trânsito por um carro. A motorista do carro ainda começou ofendê-los. A atitude considerada normal, seria xingar de volta, mas um dos ciclistas, ao invés disso, se desculpou, mesmo não tendo feito nada de errado. A motorista, então, ficou desconcertada e eu gosto de acreditar que o desfecho tenha sido ela arrependida do que fez, mas nunca saberemos. Hoje eu sei que a justiça não cabe a nós, pois está escrito que “A Deus pertence a vingança; ele é que retribuirá”. Talvez mesmo sem saber, esse ciclista seguiu o provérbio 15:1, tendo sua resposta branda desviado o furor da motorista. Passando agora para o texto da carta de Paulo, ele diz para que os romanos “não paguem a ninguém mal por mal; procurem fazer o bem diante de todos.” Antes, no capítulo 11, versículo 11, havia sido dito que a transgressão dos israelitas serviu para que a salvação chegasse também aos gentios, para fazer com que os judeus ficassem com ciúmes. Os judeus, vendo os gentios salvos, entenderiam e também seriam transformados. Pois bem, logo de início ele fala para não se pagar o mal com o mal, havendo um complemento na segunda parte do versículo 21, “(...) mas vença o mal com o bem”. A frase que precede a ideia de “não se pagar nenhum mal com outro mal”, é “não ser sábio aos próprios olhos”. Sabemos que a Bíblia tem diversas conexões e jamais deve ser lido um versículo fora de contexto, portanto, podemos extrair daí a ideia de que (i) não somos sábios o suficiente para impor vingança ou penalidades; (ii) portanto, devemos deixar isso com Deus; (iii) ficando a nosso cargo somente praticar o bem. Praticar o bem tem dois resultados, (i) um interno, que vai ao encontro dos primeiros versículos do capítulo, no que diz respeito a ter a mente renovada, ser transformado e discernir o que é a vontade de Deus; e (ii) um externo, que alcança o próximo. Gosto muito de uma frase exclamada por um personagem muito conhecido do público geral, o Seu Madruga: “a vingança nunca é plena, mata a alma e envenena”. No contexto do capítulo estudado, podemos entender que praticar o bem é um comportamento que trará o que em grego é denominado anakainósis, uma renovação mental alcançada pelo poder de Deus, passando de um estágio para outro superior, mais desenvolvido. Ao falar para o povo romano não se vingar, Paulo está distanciando aquele que sofreu a maldade de cair novamente nas graças da maldade. (Continua...)