
José Luiz Portella, pós-doutor em História Econômica pela USP e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados, identifica uma crise profunda na formulação e implementação de políticas públicas no País. "O principal problema é não ter um projeto de Brasil", afirma o pesquisador, explicando que, sem uma visão de longo prazo, "as políticas públicas confluem para o nada" através de medidas imediatistas que não se articulam em um plano coerente. Portella identifica quatro entraves principais que comprometem as políticas públicas no País. O primeiro é a falta de visão estratégica, exemplificada pela ausência de um projeto nacional de longo prazo: "Quando você não sabe aonde vai, qualquer caminho é caminho e qualquer caminho é perdido". Essa carência de direção resulta em ações desconexas e reativas, como ocorreu recentemente com o tema da adultização infantil, onde problemas conhecidos há anos só receberam atenção após viralizarem nas redes. O segundo obstáculo é a formulação atabalhoada e a implementação imediatista, em que a coleta de dados é feita de maneira improvisada e as soluções buscam apenas impacto imediato: "Todo mundo gosta de estar na foto da largada do evento, mas não tem ninguém na foto da chegada". Como consequência, políticas importantes como a reforma da Previdência são implementadas de forma "atravancada" e precisam ser refeitas periodicamente. Somam-se a esses problemas a polarização política e o viés de confirmação, resultando em grupos que buscam apenas dados que confirmem suas crenças preestabelecidas, inviabilizando análises objetivas e aprofundadas. O pesquisador desfaz um equívoco comum ao esclarecer que políticas públicas não se limitam à ação estatal, definindo-as como "política que alcança a sociedade", independentemente de quem as execute. Ele destaca que ONGs e entidades privadas podem desenvolver iniciativas eficazes, mas a polarização inibe essas contribuições, observando que "os jovens hoje não querem debater política no seu trabalho, eles só pensam na carreira". Como consequência desse cenário, Portella identifica a "fragmentação" como característica marcante do sistema brasileiro, em que cada agente age isoladamente: "Cada um começa a fazer a política pública por si e manda dinheiro para uma cidade, causa um desequilíbrio regional, não pensa no todo".