
Qual é o lugar e o papel dos corpos na pólis? É certo que a resposta varia de acordo com as proposições de classe, de gênero e de raça. No segundo momento da entrevista com a socióloga e bailarina Chari Nobre, a desigualdade representada na destituição dos corpos é posta em questão. Chari propõe uma subversão da lógica cartesiana na relação com o mundo, para que o corpo possa deixar de ser um depositário passivo nos processos de aprendizagem, e para que abstração e materialismo possam compor um conjunto na percepção através da ampliação dos sentidos. Um trabalho tão rico produz efeitos nas subjetividades: narrativas biográficas culminam na construção de identidades e de símbolos, na autonomia e no prazer de habitar um corpo próprio, em constante dialética com o corpo do outro, com a cultura e com as artes, tendo a dança como destaque. Ainda na atmosfera da dança como uma poética, o programa continua com o entrevistado Marcelo Ariel, poeta, ensaísta e filósofo. Marcelo conta como nasce um poema na costura de linguagem, de língua e de corpo. Para ele, nossos corpos produzem poesia para além e através dos processos fisiológicos: nos ritmos, sons, gestos e movimentos da natureza; ou seja, a poesia é uma "pedagogia dos limites da linguagem", como ele nomeia. Marcelo questiona o condicionamento dos corpos produzido pela lógica capitalista, que empobrece os processos intuitivos, diminuindo a disposição à transcendência. Transcendência que seria possível pelo atravessamento das crises, o que demandaria respostas subjetivas que vão em desencontro aos interesses do mercado e da massificação. Assim como a psicanálise, a poesia é uma fala livre. E, para finalizar, Priscila Frehse* faz uma sensível homenagem ao psicanalista Contardo Calligaris, enodada com a proposta da segunda temporada do Movimenta Psicanálise. *Psicanalista, doutora em psicologia clínica pela USP, mestra em letras pela UFPR. Bailaora nas horas vagas, escritas na vida e aventureira no rádio.