
A destruição da inocência e do que um dia se compreendeu dos super-heróis de quadrinhos orquestrada em Watchmen é bem mais do que iconoclastia. É um exercício literário de colocar a barra de exigência crítica bem acima do que os subestimados leitores poderiam esperar na longínqua metade dos anos 1980. O desequilíbrio na política global, acarretado com o nascimento do primeiro super ser alude para uma noção da natureza corrompida do poder. À medida que o Deus atômico torna-se menos humano e deliberadamente alheio a tudo ao redor, sentimos que somos meros marionetes executores de tarefas. Como formigas operárias que esperam ser surpreendidas pela bota pesada que esmaga toda comunidade. Alan Moore & Dave Gibbons entregaram um projeto único que perdurará muito tempo como a sombra no abismo que insiste em nos olhar sorridente, mesmo que viremos o rosto. Existe um cheiro de beco sujo no ar, que apodrece a mesa de jantar da novela das 20 horas. E mais de trinta anos depois, estamos aqui, sorridentes esperando o fim do mundo. O convidado da vez é o meu amigo Cleiton Sotte, entusiasta crítico dos quadrinhos, que anualmente faz sua releitura de Watchmen. Vem com a gente e boa audição! 07/maio/2021