
Quem decide o destino de um país? E o que acontece quando um povo tenta decidir seu próprio futuro? O assassinato de Patrice Lumumba, primeiro-ministro da República Democrática do Congo, é um dos episódios mais brutais da história da descolonização africana. Mas sua morte não pode ser compreendida apenas como o fim de uma trajetória política. Ela revela os interesses que se moviam em torno da independência do Congo, a disputa por suas riquezas e os limites impostos à soberania de países que ousaram desafiar a ordem colonial. Neste episódio do Obra Fechada, parto de Trilha Sonora para um Golpe de Estado, documentário de Johan Grimonprez, para investigar as relações entre imperialismo, Guerra Fria, colonialismo e cultura. A partir da independência congolesa e da intervenção das potências estrangeiras, acompanhamos como a música, a diplomacia e a política se cruzaram em uma disputa que ultrapassava as fronteiras africanas. O jazz ocupa um lugar central nessa história. Enquanto músicos como Louis Armstrong eram enviados ao exterior pelo governo dos Estados Unidos como representantes de uma imagem de liberdade e democracia, artistas e intelectuais também encontravam na cultura um instrumento de contestação. A música, nesse contexto, não é apenas trilha sonora dos acontecimentos: ela participa da disputa pela narrativa da história. Passamos também pelos discursos de Patrice Lumumba e Kwame Nkrumah, pela luta anticolonial de Amílcar Cabral, pelas críticas de Malcolm X e Walter Rodney e pelos protestos que levaram artistas e militantes a denunciar a violência política no Congo. São trajetórias diferentes, atravessadas por uma questão comum: quem controla os recursos, as instituições e as possibilidades de futuro de uma sociedade? A história de Lumumba, mais de seis décadas depois de seu assassinato, continua a provocar perguntas incômodas sobre a relação entre independência formal e autonomia real. E nos lembra que a memória também é um campo de disputa: os projetos políticos podem ser derrotados, seus líderes assassinados, mas os sentidos de suas lutas não desaparecem necessariamente com eles. Ao recuperar essas histórias, o episódio também olha para o presente. Como reconhecer os instrumentos de poder que atravessam a política internacional? Como enfrentar a influência dos impérios sem idealizar o passado ou transformar seus protagonistas em heróis infalíveis? E como construir formas de solidariedade capazes de ultrapassar fronteiras? Este episódio é uma reflexão sobre a história do colonialismo e suas continuidades, mas também sobre cultura, resistência e esperança — não como espera passiva por dias melhores, mas como prática coletiva de construção de outros futuros possíveis. O episódio tem roteiro, montagem, edição e desenho de som de Marcelo Fonseca. Referências CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. GRIMONPREZ, Johan. Soundtrack to a Coup d’État [Trilha sonora para um golpe de Estado]. 2024. HOBSBAWM, Eric J. História social do jazz. Tradução de Angela Noronha. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990. RODNEY, Walter. Como a Europa subdesenvolveu a África. Tradução de Heci Regina Candiani. Apresentação de Angela Y. Davis. São Paulo: Boitempo, 2022. Capítulos 00:00:00 – Abertura 00:07:12 – Parte 1 | Ler o passado e temer o futuro 00:22:52 – Parte 2 | A África se levanta 00:44:32 – Parte 3 | A música, a ONU e o espetáculo do poder 01:07:02 – Parte 4 | O assassinato de uma esperança 01:21:50 – Parte 5 | Como enfrentar impérios? 01:31:04 – Encerramento