
Projeto Ouvindo Literatura, da Biblioteca Pública Municipal Mário, de Alegrete-RS. Hoje o conto Bocejo, da escritora gaúcha Natalia Borges Polesso, no livro Amora; voz da alegretense Aliriane F. Texto na íntegra: "Amanhã eu quero te encontrar e, ao contrário do que se possa pensar, não será tarde. Será, na verdade, perfeito. Amanhã tudo estará mais calmo e eu vou ter almoçado direito. Tu terás dormido até tarde e estarás com aquela cara de sono, de sono bem dormido e sonhado. Nós estamos bem. Tu vais estar com aquele tênis sujo e eu vou vestir uma calça jeans velha e uma camiseta meio rasgada que eu adoro e tu vais mexer comigo, dizendo com um olhar malandro que eu devia me vestir melhor agora que estou com trinta. Eu vou apertar meus lábios e te olhar de canto de olho até tu começares a rir e a dizer que eu deveria te dar a camiseta. Um bocejo preguiçoso vai quebrar todas as ironias e qualquer pensamento não espontâneo. O teu vinho será branco e eu tomarei um suco de melão. Tenho certeza de que haverá uma risada, porque suco de melão não é tão comum e também não tem muito gosto. Eu vou te dizer que desde aquela vez que eu fiquei doente passei um mês comendo melão e fiquei viciada. Tu dirás que eu devia estar intoxicada de melão. Eu vou pensar que pode ser verdade e sentirei uma dor no lado esquerdo, logo abaixo das costelas, depois eu vou esquecer. Tu te preocuparás um pouco e depois me dirás que tudo bem, porque vais cuidar de mim. Eu vou suspirar e tu vais tomar um bom e grande gole de vinho e logo vais lamber os lábios e o resto das gotas que ali ficaram penduradas, mas, antes que elas terminem, eu terei coberto teus lábios com os meus e de olhos fechados nós pensaremos que a vida é boa. Porque amanhã ainda será verão.