
Projeto Ouvindo Literatura, da Biblioteca Pública Municipal Mário, de Alegrete-RS. Hoje, a parábola "A violeta ambiciosa", de Gibran Khalil Gibran, na voz da alegretense Aline Almeida. Texto na íntegra: "Havia num bosque isolado uma bonita violeta que vivia satisfeita entre suas companheiras. Certa manhã, levantou a cabeça, e viu uma rosa que se balançava acima dela, radiante e orgulhosa. Gemeu a violeta, dizendo: "Pouca sorte tenho eu entre as flores! Humilde é meu destino! Vivo pegada à terra, e não posso levantar a face para o sol, como fazem as rosas..." A Natureza ouviu e disse: "Que te aconteceu, filhinha? As vãs ambições apoderaram-se de ti?" "Suplico-te, ó mãe poderosa, disse a violeta, transforma-me em rosa, por um só dia que seja." "Tu não sabes o que estás pedindo, retrucou a Natureza. Ignoras o que se esconde de infortúnios atrás das aparentes grandezas." "Transforma-me em rosa, esbelta e alta, insistiu a violeta, e tudo o que me acontecer, será consequência de meus próprios desejos e aspirações." A Natureza estendeu sua mão mágica, e a violeta tornou-se uma rosa suntuosa. Na tarde daquele dia, o céu escureceu-se, e o vento e a chuva devastaram o bosque. As árvores e as rosas foram abatidas. Só as humildes violetas escaparam ao massacre. E uma delas, olhando em volta de si, gritou às companheiras: "Vejam o que a tempestade fez das grandes plantas que se elevam com orgulho e impertinência!" Disse outra: "Nós nos apegamos à terra, mas escapamos à fúria dos furacões." Disse uma terceira : "Somos pequenas e humildes; mas as tempestades nada podem contra nós." Então, a rainha das violetas viu a rosa que tinha sido violeta, estendida no chão como morta. E disse: "Vejam e meditem, minhas filhas, sobre a sorte da violeta que as ambições iludiram. Que seu infortúnio lhes sirva-lhe de exemplo." Ouvindo estas palavras, a rosa agonizante estremeceu e, apelando para todas as suas forças, disse, com voz entrecortada: "Ouvi vós, ignorantes, satisfeitas, covardes. Ontem, eu era como vós, humilde e segura. Mas a satisfação que me protegia, também me limitava. Podia continuar a viver como vós, pegada à terra, até que o inverno me envolvesse na sua neve e me levasse para o silêncio eterno, sem que conhecesse dos segredos e glórias da vida mais do que as inúmeras gerações de violetas, desde que houve violetas. Mas escutei no silêncio da noite, e ouvi o mundo superior dizer a este mundo: O objetivo da vida é alcançar o que há além da vida. Pedi, então, à Natureza - que nada é do que exteriorização de nossos sonhos invisíveis - transforma-me em rosa. E a Natureza atendeu ao meu desejo. Vivi uma hora como rosa. Vivi uma hora como rainha. Vi o mundo com os olhos das rosas. Ouvi a melodia de éter com os ouvidos das rosas. Acariciei a luz com as pétalas das rosas. Pode alguma de vós vangloriar-se de tal honra? Morro, agora, levando na alma o que nenhuma alma de violeta jamais experimentou. Morro, sabendo o que há por trás dos horizontes estreitos onde nasci. É este o objetivo da vida."