
A Casa dos Mundos Africanos, MansA, em Paris, abriu esta sexta-feira, 16 de Outubro, uma exposição dedicada a Amílcar Cabral. Nove artistas revisitam o legado do líder independentista da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, 53 anos depois do seu assassínio. Entre a memória colonial e os desafios do presente, Amílcar Cabral: Por um Humanismo Radical interroga o papel da cultura, da identidade e do conhecimento na construção da liberdade. Há 53 anos, Amílcar Cabral foi assassinado em Conacri, antes de ver a independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. O seu pensamento continua a atravessar gerações e fronteiras. É esse legado que a exposição Amílcar Cabral: Por um Humanismo Radical, inaugurada esta sexta-feira, 16 de Outubro, na Casa dos Mundos Africanos (MansA), em Paris, procura revisitar. A exposição foi criada pelas duas comissárias Armelle Dakouo e Ângela Benoliel Coutinho, a partir de uma ideia original de Paula Nascimento, e reúne trabalhos de nove artistas que estabelecem um diálogo entre a história das lutas anticoloniais e as questões contemporâneas da soberania, da identidade e da emancipação. "Cabral já não pertence aos guineenses, Cabral não pertence aos cabo-verdianos, Cabral pertence à esfera universal", afirma o artista plástico guineense Nú Barreto. Na obra Nha história, o artista questiona as fronteiras da identidade de Cabral, filho de pai cabo-verdiano e mãe guineense, cuja trajectória esteve ligada ao destino dos dois países. "É a ideia de falar de um homem com um pé de um lado, outro pé do outro, mas que, no fundo, está preso dentro de uma história comum da Guiné e de Cabo Verde." Para Nú Barreto, essa herança ultrapassa a dimensão política. A arte pode também intervir onde a política falha, absorvendo as contradições de uma sociedade e encontrando outras formas de as interpretar. Mas quem era Cabral para além do revolucionário? Ângela Benoliel Coutinho, historiadora e co-comissária da exposição, encontra uma resposta nos testemunhos de quem o conheceu. "Uma marca que está quase sempre presente nesses relatos é a sensibilidade do homem, o humanismo, o respeito pelo ser humano." Para Amílcar Cabral, a libertação nacional não significava apenas a conquista da independência política, mas a dignificação das populações. A historiadora recorda que o dirigente fazia questão de explicar aos combatentes que a luta não era contra o povo português, mas contra um sistema colonial que oprimia também os portugueses. "Pôs o ser humano, as comunidades humanas, no centro da sua acção, da sua reflexão, da sua análise", descreve. Essa dimensão cultural e política atravessa a série fotográfica Cabral ka morre, de Diogo Bento. Desenvolvido entre 2010 e 2012, o projecto nasceu de uma reflexão sobre o lugar de Cabral na memória portuguesa e sobre o contributo das lutas de libertação africanas para o 25 de Abril. O fotógrafo procurou vestígios dessa presença nos arquivos de Lisboa, nas comunidades cabo-verdianas e, posteriormente, em Cabo Verde e na Guiné-Bissau. Encontrou-os na arquitectura, na paisagem, na música e nas pessoas. "Não queria trazer respostas, queria trazer mais perguntas, mais questionamentos", explica. Para Diogo Bento, uma das funções da exposição é precisamente "manter o pensamento de Cabral actual e trazer esse debate para a sociedade contemporânea". A relação entre cultura, identidade e liberdade ocupa também o trabalho do artista cabo-verdiano Yuran Henrique, que procura questionar as formas dominantes de produção de conhecimento. "Criar arte contemporânea em Cabo Verde é criar no deserto", afirma, referindo-se à escassez de estruturas de formação e apoio à criação artística no arquipélago. Para o artista, revisitar Cabral significa recuperar a capacidade de uma sociedade reconhecer os seus próprios saberes e construir o futuro a partir deles. Às novas gerações, considera que o pensamento de Cabral deixa uma mensagem: "Acreditar na engenhosidade, acreditar na cultura, na tua identidade e no conhecimento, mas próprio, próprio teu, que é teu." As obras de Nú Barreto, Diogo Bento, Filipa César, Mónica de Miranda, Bento Oliveira, Hamedine Kane, Yuran Henrique, Sónia Vaz Borges e Sarah Maldoror compõem um percurso que cruza fotografia, desenho, vídeo, instalações e trabalhos têxteis. A exposição não procura apenas ilustrar o pensamento de Cabral, mas confrontá-lo com novas leituras sobre pertença, resistência cultural e memória colectiva. O percurso inclui ainda filmes de Sarah Maldoror, cineasta ligada aos movimentos de libertação africanos, e uma paisagem sonora concebida pelo músico Rocé, com arquivos e composições associados às lutas pela independência. A proposta é mostrar como a cultura pode preservar a memória, mas também questionar as narrativas estabelecidas. Para Liz Gomis, directora-geral da Casa dos Mundos Africanos, MansA, a actualidade de Cabral revela-se nas questões da educação, da emancipação das mulheres e da capacidade de cada pessoa decidir o próprio destino. Mas há uma dimensão menos conhecida do dirigente que considera essencial recuperar: a do homem que escrevia cartas e poesia. "É preciso ler a poesia de Cabral nas suas cartas. Nessa poesia, há uma forma de amor e de emoção pelo seu povo. Sentia-se que era genuíno. Não fingia, nem na luta armada, nem no seu humanismo". A coerência entre pensamento e acção ajuda, na sua perspectiva, a compreender a dimensão humanista de uma figura frequentemente reduzida ao papel de estratega político e militar. Amílcar Cabral: Por um Humanismo Radical está patente na Casa dos Mundos Africanos, em Paris, até 13 de Dezembro de 2026. Porque, para Cabral, libertar um território não bastava. Era preciso criar condições para que as pessoas pudessem decidir o próprio futuro.