
QUERIA TER MÚSCULOS Não aqueles dos moços toscos construídos com movimentos inúteis nos ferros da barulhenta academia. Queria os músculos das costas de dona Ondina torcendo o trapo grosso a beira do tanque já escurecido do uso... ...ou os músculos das panturrilhas de mestre Acácio na subida ligeira do coqueiro morgado que balança, mas jamais cede. O antebraço teso de Julião do Cravo, travando seco o arreio parando rápido, num só grito o baio arisco por nome chicote. Ou as pedras mornas de rio roliças da bunda de Naná na subida do açude com a lata d'agua no lombo que lhe alivia no balanço o calor derramando. A blusa rota molhada explicita-lhe a mocidade aguda. Queria mesmo era ter o pescoço de Niceto torcido no seu sorriso de lado, elegante quando ganha o bom olhado das donas casadas nas voltas de domingo no passeio. Queria... Mas sou eu só um flácido escritor, enfiado no fundo de uma cadeira, mole e minguado. Protuberantes por aqui só as articulações das mãos secas e cansadas. Sou como todo velho, caminhando de costas, olhando o presente e vivendo no passado, tropeçando. Sou isso, só isso, vício travestido de vontade, roubando imagens e guardando nos livros. FBarella