
Eu já estava no elevador quando entrou um casal com sua filha. Os dois, automaticamente, pegaram o celular. A criança, naqueles segundos de espera, olhava para os pais que, alheios, fitavam a tela. A menina olhou para mim e eu sorri para ela. Chegamos à garagem. Ela seguiu seus pais. Essa é uma cena do cotidiano. No carro, nas refeições, no sofá, na sala de espera ou no restaurante, adultos trocam o olhar único dos filhos pelo feed das redes sociais ou pela manchete do dia. As crianças até que tentam chamar a atenção, quando, na maioria das vezes, recebem em troca um celular para deixá-los em paz. Quando crescidas, essas crianças, desacostumadas com o olhar dos pais, irão igualmente ignorá-los. Seus olhos, muito provavelmente, já terão pousado em outras paradas.