
O Presidente da República de Angola João Lourenço fará no próximo dia 15 de Outubro, o último discurso sobre o Estado da Nação. João Lourenço está prestes a deixar o poder depois dos dois mandatos autorizados pela Constituição. Acerca do MPLA, partido que governa o país desde a independência, foi publicada uma tese, em Lisboa, sobre a evolução da sua legitimidade. O seu autor, o sociólogo e investigador David Boio obteve a classificação máxima de 20 valores. Este trabalho elaborado pelo sociólogo David Boio, intitulado "O processo do declínio da legitimidade política do poder autoritário do MPLA em Angola", foi distinguido com 20 valores pelo Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa. Neste documento, o investigador analisa, através de dados oficiais e entrevistas, a forma como o poder do MPLA tem vindo a ser percecionado pelas diferentes gerações angolanas. Os eleitores que viveram a luta pela independência, os que conheceram a guerra e o que nasceram em período de paz têm comportamentos políticos e expectativas diferentes. RFI: Quando fala em declínio da legitimidade do MPLA, o que está exactamente a declinar? David Boio: No caso de Angola, estamos a falar de um regime que tem 50 anos desde a proclamação da independência. Durante um tempo, a questão da independência foi apresentada pelo regime como justificação da sua existência e legitimidade. No fundo, o regime dizia que eles deviam governar porque são eles os responsáveis pela independência. Após a independência, veio a questão do conflito e da guerra civil. Houve uma mutação dessa legitimidade para o argumento sgeundo o qual o regime é garante da paz e da prosperidade. "Paz e desenvolvimento", era o slogan. A partir de 2013 e 2014, o país entrou em graves dificuldades económicas e o regime passou a ter dificuldade de se justificar. RFI: A legitimidade política do MPLA passou por várias fases. Durante a guerra civil, por exemplo, não era a mesma que agora. David Boio: Houve alterações profundas na sociedade angolana e por isso é que a tese introduz a variável de gerações. A tese tenta ver se existem encontros ou desencontros entre os argumentos de legitimidade do regime. Analisamos a maneira como as diferentes gerações encaram essas fontes de legitimidade. Criámos três categorias de gerações. A primeira, é a geração da independência. Depois vem a geração da guerra, socializada em contexto de conflito. A terceira geração, aquela que a tese analisa com maior profundidade, é a geração da paz. Essa geração tem pouca memória deste passado, da luta pela independência e da guerra. Cada uma dessas gerações adere a diferentes fontes de legitimidade. E o comportamento político de cada uma dessas gerações é influenciado por isso. RFI: Então, por exemplo, qual é a legitimidade do MPLA para um jovem que hoje tem 20, 25 anos? David Boio: Para um jovem que tenha 20 anos, neste momento, o MPLA não tem legitimidade. Primeiro, porque tem sido incapaz de ir ao encontro das expectativas mais materiais, da empregabilidade, etc. Em segundo lugar, e este é o ponto mais importante, para essa geração o Estado, curiosamente, não existe. Há uma rejeição que se cria. Essa geração ambiciona ser mais cidadã, quer que haja democracia, etc. De certa forma, a geração da guerra lida melhor com o facto de o país não ser uma democracia. Porquê? Porque tem a memória. Pensa: "Não somos uma democracia, mas somos independentes", ou "Não somos uma democracia, mas não temos guerra, estamos em paz". RFI: O declínio da hegemonia do MPLA deve ser interpretado como o crescimento da UNITA e dos outros partidos da oposição ou nem por isso? David Boio: Os dados oficiais da CNE mostram o MPLA a decrescer e a UNITA a crescer. Mas ao mesmo tempo, parece que não existe uma adesão dessa geração com a UNITA. A inclinação para UNITA é uma questão meramente instrumental. No fundo, esta geração sanciona o MPLA votando UNITA. RFI: Com base nos dados recolhidos na sua tese, considera ser possível que haja uma alternância política com as eleições em 2027? David Boio: Penso que será muito difícil. Tal como disse, acho que não há grande expectativa relativamente à oposição. A Frente Patriótica Unida, em 2022, teve um grande impacto. Mas desta vez, parece que os partidos na oposição não vão formar aliança. Penso que, para chegar ao poder, é necessário funcionar em bloco. Se estivéssemos num contexto de democracia, acho que nem em 2022 o MPLA teria ganho as eleições. Porquê? Porque os níveis de reprovação das pessoas são enormes. Mais de 80% da população angolana considera que o MPLA governa mal. Os níveis de desconfiança são muito elevados. Em contexto autoritário, que é o nosso caso, o MPLA ganha as eleições porque basta dizer que ganhou. Julgo eu que em 2027 o MPLA voltará a dizer que ganhou. A possibilidade de não ganhar é a oposição demonstrar que o MPLA não ganhou as eleições.