
Liberto-me dum sono claustrofóbico, sentindo as gotas de suor que se secam num colchão velho, ao fundo, o bafo sonoro de sons distorcidos, é o ritmo da favela que arde, o alarde duma solidão coletiva, de quem celebra a modo pagão um feriado cristão; nem tão bem, nem tão mal, abandonei uma rodoviária para ouvir fogos na noite de natal; são os retrocessos da evolução urbana e pessoal na favela do Pavão ou no Vidigal Com a cabeça pesada desço as escadas do beliche e me rebato sonolento pelas paredes do meu cubículo, na cozinha mato a sede duma noite de calor, na sala contemplo o esplendor, duma tela de muitos matizes e pouca cor, o morro é feito de mata, reboco, janelas e lâmpadas, luzes que alugam brilho à escuridão matutina, constelação de formiguinhas lampejantes, a amanhecer becos e vielas a mística noturna de todas as favelas