
O livro “50 anos de independências africanas vistos pelos seus cidadãos” apresentado esta sexta-feira, 9 de Janeiro, analisa o percurso das independências, o legado político e cultural, as transições democráticas e os actuais desafios económicos e sociais. Coordenada por Rui Verde e Eugénio da Costa Almeida, a obra reúne visões diversas sobre os caminhos seguidos até hoje. A RFI entrevistou Eugénio da Costa Almeida, em Lisboa. RFI: Olhando para esta publicação, qual é o grande contributo para a análise destes 50 anos de independências? Eugénio da Costa Almeida: Falando do livro, falando desta obra, há muitos bons contributos. Há aqueles que sinteticamente escreveram muito e uma pessoa faz uma análise, digamos quase que é uma escrita biográfica curta; e há aqueles que fizeram autênticos ensaios que são espetaculares. Há os que dão a sua visão, e é a visão de cada um que acho que faz esta obra, que são 440 páginas, que tornam isto, na minha opinião, apelativo. Há os contributos de políticos, há contributos de chefes de Estado, dois chefes de governo. Há contributos de várias áreas culturais, contributos do jornalismo, áreas técnicas, tudo isso ajuda a compreender aquilo que foi os 50 anos das independências dos países. Uma ressalva que eu devo fazer é que Guiné-Bissau não fez 50, faz 52 anos, mas está dentro disto, até porque Portugal só reconheceu a independência quase um ano depois e, portanto, era da nossa intenção que a Guiné-Bissau também fizesse parte desta obra. Uma parte considerável dos textos faz uma leitura crítica daquilo que foram os 50 anos de independência. Ainda bem, ainda bem. Assim vê-se que as pessoas não estão paradas, têm expectativas muito maiores. Portanto, algumas fazem críticas, talvez políticas, por razões políticas, passe a redundância, outras, por razões sociais, outras por expectativas que ficaram aquém do que desejavam, mas outras fazem no sentido, para mim, de que esperam que os 50 anos que vêm agora sejam sempre melhores. Como nós todos esperamos, na própria vida, que os 50 anos que vêm agora sejam sempre muito melhores. Pelo menos, que o pior dessa parte seja o melhor dos anos anteriores. E, portanto, acho que sim, é bom que tenha havido essas críticas. Porque também era a nossa intenção, era essa, não era termos, digamos, textos, se me é permitido, bajuladores ou textos de “isto é um paraíso” em que ninguém conhece o paraíso. Portanto, cada vez menos a Terra é um paraíso e é bom que todos eles tenham tido a sua análise crítica. Há crítica negativa e há crítica positiva. Esta publicação pode ser encarada como um elemento inspirador para uma auto-crítica a realizar futuramente pelos governos dos PALOP? Não acredito. Não acredito que façam isso, até porque, como sabe, os nossos governantes não são muito dados à auto-crítica e, por isso, é um bocadinho difícil que isso aconteça. Haverá talvez, quer dizer, não diria que são todos nesse sentido, mas haverá alguns que são mais auto-críticos, até porque os seus sistemas políticos a isso o exigem. Há outros que serão menos auto-críticos porque a crítica interna não é suficientemente forte para levá-los a ter essa própria autocrítica. Ainda que cada um, para si, faça a respectiva auto-crítica. Provavelmente, essa auto-crítica é sempre abaixo das nossas expectativas. Mas eu espero que o livro possa ajudá-los, aqueles que não puderam participar ou que não quiseram participar, possa ajudar a rever algumas situações que aqui são colocadas, porque há aqui, dos próprios partidos cujos líderes não participaram, mas que estão cá, possam ver que, e alguns até, com alguma força política ou intelectual dentro dos partidos, que possam ter algum aproveitamento, é a nossa esperança. Na análise que é feita nos diferentes textos sobre os 50 anos de independências, há aqueles que lançam uma ponte para o futuro. Que ponte, enquanto coordenador, encontrou aqui? Muito difícil dizer, com toda sinceridade. A ponte vem na sequência da resposta anterior. É a chamada “crítica positiva” que nos possa levar a que aquilo que possa ter sido bem seja melhorado. E agora vou utilizar uma frase de 2017 da tomada de posse de João Lourenço: "fazer bem o que estava a ser bem e fazer melhor o que estava a fazer mal". - É isto que aqui, mais ou menos foram estas palavras. A nossa vontade é sempre que o melhor dos 50 anos que houve seja o pior dos próximos 50 anos. E a ponte é essa mesmo. É servir de passagem, que eu considero que deve ser mesmo feita, levemente. Por vezes as passagens abruptas, depois provocam quedas abruptas. No sentido de melhorar o que não está bem e, se possível, mais do que melhorar, fazer bem. E continuar a fazer bem ou fazer ainda mais bem, passe a imagem, não direi melhor, mas mais bem, aquilo que foi feito bem. Mas que fica sempre aquém das nossas expectativas ou daquilo que nós próprios gostávamos. Evidentemente, estou satisfeito com isto, mas gostaria de ter mais do que foi isto. Gostaria que, em vez de 400 páginas, tivesse 500. Não sei se o nosso editor iria gostar muito disso, mas enfim. E também os defensores de que não se deve utilizar o papel eram capazes de não gostarem, mas era a nossa expectativa. É esse o sentido. Eu acho que sim, deve haver essa ponte, no sentido de melhorar sempre. Irmos atravessar a ponte à procura de algo sempre mais e melhor. Qual é que acha que pode ser o contributo, ou como é que este livro pode ser agarrado pelas gerações futuras para dar mais força aos alicerces dos PALOP? Por um lado, pode servir para verem o que é que estava nos 50 anos anteriores, o que é que estava menos bem e o que estava mal. As duas situações são bem descritas nos referidos contributos de cada um dos autores. Por um lado, serve em termos históricos. Por outro, serve também para não se por aquilo que um certo autor, um certo autor que diz que a história não se repete. Para mim é mentira. A História repete-se, pode-se é melhorá-la, no sentido de evitar cair nos mesmos lapsos, nos mesmos erros, nos mesmos absurdos que houveram anteriormente. Esta é a nossa expectativa. Dos 40 autores que estão aqui, há alguns textos que possam vir a ser desenvolvidos e dar azo a um trabalho ainda mais aprofundado? Isso caberá a cada autor. Honestamente, nem vou dar palpites. No caso dos ensaios, há dois ou três autores, não vou nomeá-los, as pessoas que leiam o livro, que de certa forma dão pistas excelentes para futuras gerações. Apresentam críticas, dão as suas críticas e apresentam conclusões e soluções. Nos casos dos textos em geral, alguns são mini-ensaios onde essa situação também está prevista. Acho que devem ser os leitores a lerem o livro, tirarem as suas conclusões, e dos próprios autores, aqueles que tiverem a ouvir esta entrevista, ou que possam vir a ouvir, que terem essas relações, que devem ou não avançar para projectos, para trabalhos, ou para textos mais desenvolvidos, em termos científicos, ou em termos de jornais, e em termos de revistas, porque há revistas que também têm conteúdos que, de certa forma, são alguns ensaios. Houve surpresas? Sim, não em termos de qualidade, que essa estava à espera, mas em termos de conteúdo. Alguns foram além do que eu estava à espera, e por isso mesmo é que eu acho que é uma das razões para lerem o livro, a obra. Porque há análises críticas, nomeadamente, que pessoalmente esperava que elas ocorressem, mas que fossem discretas ou subtis. Alguns não usaram subtileza. Foram diretos, foram crús, e foram objetivos. Por isso é que eu acho que as pessoas devem ler, e a comunidade política dos cinco países deveriam ler. Há pouco eu falei que eram, erradamente, dois antigos chefes de governo, mas não, foram três, um dos quais infelizmente está detido, que é o Domingos Simões Pereira, que além de ter sido chefe de governo da Guiné-Bissau, também foi secretário-geral da CPLP. Portanto, foi Carlos Veiga, antigo chefe de governo e o primeiro chefe de governo de Cabo Verde democrático. Foi o Joaquim Rafael Branco, que foi chefe de governo em São Tomé e Príncipe, e Domingos Simões Pereira, que foi chefe de governo da Guiné-Bissau. Foi um dos que, logo à partida disse que iria escrever e escreveu. Infelizmente não sei quando é que o livro poderá chegar às mãos dele, um exemplar, porque continua detido em situações que a própria comunidade internacional parece não estar a se preocupar muito em querer saber como é que ele está a sua detenção.