
“Desenhar o Lugar: Percursos de Permanência e Trânsito” é a exposição que Emerson Quinda, emergente artista são-tomense, apresenta em Lisboa. O trabalho resulta de uma residência artística em Loulé onde, com a curadoria de João Serrão e Ricardo Vicente, Emerson Quinda se lançou em novas explorações sobre questões de identidade, deslocamento e memória. É do cruzamento entre as práticas tradicionais e a arte contemporânea que avança na direcção de processos de criação partilhada. A RFI falou com o artista são-tomense na capital portuguesa, Emerson Quinda começa por contar como nasceu a exposição que tem patente no Instituto Camões, em Lisboa “Desenhar o Lugar: Percursos de Permanência e Trânsito”. Emerson Quinda, artista plástico são-tomense: Essa exposição nasceu de um projecto de uma residência que foi proposto por Ricardo Vicente e João Serão em Loulé. Até agora, o Emerson tinha desenvolvido um trabalho essencialmente de pintura. Durante esta residência houve a hipótese de trabalhar em outros suportes, inclusive utilizando o barro e a madeira. Como é que foi esse processo? Foi um processo de desafio muito bom, tive a oportunidade de experimentar outras técnicas. Foi a primeira vez que experimentei técnicas sobre argila, mas já tinha tido a oportunidade de experimentar técnicas em superfície de madeira na residência de Paris. O que é que o trabalhar com argila permitiu ao Emerson que até agora ainda não tinha realizado? A argila permitiu ter uma oportunidade de ter contato com barro, que é uma coisa fantástica. Tive a oportunidade de construir e desconstruir sobre argila. Foi uma oportunidade única e também tive a oportunidade de pegar essa argila e transformar em faces caras de máscara africana, umas pintadas, outras não pintadas. Foi uma coisa fantástica. Foi uma argila que ficou cingida ao processo da criação da máscara? Não só fiz máscara com argila, mas também trabalhei com essa argila no processo da pintura na tela. Quando construí o castelo de Loulé, que é um castelo simbólico, tive a oportunidade de envelhecer a parede do castelo no desenho na tela, e usei a técnica da argila, foi uma coisa fantástica. Também utilizei a técnica da argila na madeira, na escultura da madeira, como um processo fantástico, porque colei a argila na madeira, que me deu a oportunidade fantástica de ter esse contato argila-madeira e desenho. O trabalho do Emerson apresenta uma forte componente pictórica, com cores intensas, fortes. O meu trabalho, em toda exposição, é carregado de cor. A cor traz muita emoção e muita liberdade. Eu acho que a cor simboliza já a minha identidade ao nível de pintura. Quando se olha o meu trabalho, é carregado de muita cor. Vai-se identificar com a pintura de Emerson Quinda. Então, a cor simboliza muito essa coisa de paz, tranquilidade e alegria. É um pouco de África, um pouco de São Tomé e Príncipe, que o Emerson Quinda traz com essa cor? Sim, porque quando subo no avião, para fazer a viagem até Loulé, no Algarve. Quando eu olho para baixo do avião, em São Tomé ainda, eu vejo aquela paisagem de São Tomé toda verde. Não vejo nenhuma casa, eu vejo tudo verde no país. Então, trago também esse percurso desse verde para a tela. Esse verde carrega muita cor forte na tela e também traz um pouco dessa identidade da cultura de São Tomé. São Tomé foi considerado biosfera mundial da UNESCO, todo o país. Trago essa cor como património cultural, não só de São Tomé e Príncipe, porque África também é carregada muito de cor. Traz também para a escultura, algumas esculturas pintadas com a cor quente e chamativa. O Emerson Quinda teve uma residência de três semanas em Loulé. O que é que agarrou de Loulé? - já falou do castelo - O que mais é que agarrou de Lolé que tem reflexo agora nesta exposição? É o banho islâmico. Foi o que me tocou quando tive uma visita guiada em Loulé. O banho islâmico é uma coisa histórica para Loulé. E tive a oportunidade de transmitir esse banho islâmico para a tela e vai estar representado na exposição. O traço, a maneira do Emerson Quinda manifestar o seu sentido artístico, está muito próximo da pintura naive? Sim, a minha forma de pintar nunca foge. Eu tenho a minha forma já bem definida, eu já tenho a minha própria linha, o meu próprio estilo. Basicamente tento transmitir isso para a minha exposição. Também tento inovar de uma forma muito prática, como inovo com uma escultura e argila para essa exposição. Um dos elementos que representa essa inovação é um painel formado por seis placas, com as quais o Emerson Quinda desenvolveu uma espécie de jogo, um puzzle. Sim, são peças de quebra-cabeça. Foi uma experiência também fantástica. Eu já tinha desenvolvido a madeira na residência em Paris. Em Loulé, tive uma conversa curatorial com o João Serão sobre a minha forma de trabalho. E o João Serão me propôs: há aqui alguns platex, vou trazer para ti, vamos ver se podes trabalhar neles. E foi uma coisa fantástica, porque com o platex não só se desenvolve a pintura, como se desenvolve o desenho e também a técnica de argila, tudo nesse painel. É uma experiência fantástica, porque o painel carrega todo esse tipo de técnica apresentada na exposição. A exposição, para já, está em Lisboa. E depois, qual é o futuro desta exposição? Por onde é que vai andar? Sim, para já em Lisboa, no (Instituto) Camões. Depois, vai para Loulé. Depois, vai para São Tomé e Príncipe em 2027 para a Bienal de São Tomé. O João Serrão foi co-curador da exposição e é director das galerias municipais de Loulé. João Serrão, como surge esta residência artística que o Emerson Quinda realizou em Loulé? Como entende o resultado deste projecto? A residência do artista Emerson Quinda, que decorreu em Loulé durante as três semanas de dezembro, nasce de uma afinidade muito clara com o modo como eu entendo o trabalho das galerias municipais de Loulé, ou seja, com espaços de tempo, de escuta e de criação para a arte contemporânea. Desde o início que esta residência teve como ponto de partida o desejo de reforçar as redes culturais no espaço lusófono e ao mesmo tempo de criar um diálogo real entre práticas artísticas contemporâneas e os saberes tradicionais do território louletano, em particular ligados a questões de cerâmica e do desenho. Mais do que uma ideia fechada no início desta residência, interessava-me criar as condições para que o trabalho pudesse surgir do contacto directo do artista com o lugar. Durante as três semanas que o Emerson desenvolveu (o trabalho em residência), desenvolveu um processo muito intenso de investigação sobre o território louletano, cruzou a sua prática no estúdio, no atelier, com o património histórico e etnográfico de Loulé. Essa relação e esse exercício de escuta foi muito importante para que o território deixasse de ser apenas um contexto onde a residência estava a decorrer e a passasse a integrar, de forma muito concreta, o resultado que daí saía. Então, esse resultado acabou por superar as expectativas iniciais. O território foi apropriado, não apenas como tema, mas como matéria. A incorporação do barro e da pintura introduziu uma nova camada no trabalho do artista, onde a terra e o pigmento se fundem, criando texturas quase imateriais e narrativas que convocam memória, identidade, deslocamento. No fundo, este projecto de residência-exposição afirma a arte contemporânea como um espaço de escuta, um espaço de relação e de criação partilhada, e também demonstra que existe uma vontade e uma disponibilidade concreta, seja institucional ou curatorial, de trabalhar, através da arte, as relações e as memórias comuns entre os diversos países de língua portuguesa.