
As eleições autárquicas em França, nos dias 15 e 22 de Março, são o último grande escrutínio antes das muito antecipadas eleições presidenciais de 2027, às quais Emmanuel Macron não se vai poder candidatar. Estas eleições locais ganham assim uma importância nacional, mostrando muitas das tendências políticas no país, assim como as preocupações dos franceses e as soluções locais possíveis face aos desafios globais. A RFI esteve no Sul da França para perceber como as eleições se vão desenrolar em duas cidades diferentes. A primeira paragem da RFI foi Perpinhã, uma cidade junto à fronteira com a Espanha, no Sul da França, onde desde 2020 é o partido de extrema-direita, a União Nacional, que detém a Câmara Muncipal, fazendo desta cidade de 120 mil habitantes, a maior metrópole controlada pelas forças de Marine Le Pen. No entanto, segundo o politólogo Dominique Sistach, autor do livro “Perpignan, déclassement et droitisation”, algo como desclassificação e alinhamento à direita em português, esta adesão da cidade às ideias de direita começou há mais de 60 anos, aquando o fim da guerra na Argélia e acentuou-se mais tarde com o fim das indústrias locais e a falta de emprego qualificado. “Perpinhã foi uma cidade da Resistência, uma cidade comunista, uma cidade de esquerda até 1958, até ao início da descolonização na Argélia. É por isso que falar sobre o movimento de direita não é apenas uma palavra vazia, é um facto real. Passámos de uma sociedade de classe trabalhadora, uma sociedade radical, socialista e comunista, para uma sociedade que gradualmente se tornou de direita e centro-direita e agora extrema direita”, explicou Dominique Sistach. Apesar de uma posição geográfica privilegiada, a poucos minutos de algumas das mais belas praias de França e o pico do Canigó, uma montanha com quase 3 mil metros de altitude, Perpinhã está entre as cidades mais pobres do país e o Observatório das Desigualdades classificou em 2024 três bairros da cidade, Bas-Vernet Ancien, Rois De Majorque e Champs De Mars, como os mais pobres de França. Estima-se que 33% da população desta cidade do Sul viva abaixo do limiar da pobreza. Esta é uma realidade bem conhecida pelas associações solidárias da cidade, como a Entrai’des Roussillon, uma associação criada há 30 anos e que detém duas lojas solidárias onde roupas e objectos usados são vendidos a preços simbólicos, contribuindo para a criação de postos de trabalho e inserção social, mas também para a inter-ajuda entre os que mais precisam. A presidente da associação, Magalie Grand, diz que as necessidades na cidade são grandes. “Infelizmente, o empobrecimento da população é óbvia, já que somos o segundo distrito mais pobre de França. Temos uma taxa de desemprego bastante alta. Podemos ver que as necessidades são realmente grandes. A habitação em Perpinhã é um grande problema, há filas de espera para ter um alojamento social, e pode demorar entre dois a três anos. Muitas casas são insalubres, portanto também há essa questão que, claro, leva a problemas de saúde, porque não se pode viver de forma digna numa casa com humidade. Felizmente há associações como a nossa que estão presentes, mas podemos ver que com a redução das ajudas públicas, algumas pequenas associações estão a fechar portas e muitas delas têm utilidade social para a população. Nós resistimos porque estamos quase a completar 30 anos de existência, o que não é pouca coisa, mas sentimos um aperto no peito, já que a nossa associação tem funcionários, temos de pagar os salários e as contribuições sociais ao Estado, pagamos rendas. Temos muitas despesas”, explicou a líder associativa. A taxa de desemprego em Perpinhã chega quase aos 22%, o que torna difícil mesmo para os jovens que estudam na cidade - há cerca de 10 mil estudantes na universidade de Perpinhã - de se fixarem. Hidad Ashraf tem 21 anos, está no terceiro ano de Sociologia, e tal como muitos dos seus colegas pensa deixar a cidade assim que terminar a sua licenciatura. “Francamente, Perpinhã é uma cidade muito virada para as pessoas que já estão na reforma. Eu, como jovem estudante, sei que não há realmente nenhuma perspectiva de futuro em Perpinhã, a não ser para as pessoas que querem ir para a agricultura e outros sectores muito específicos. Tanto eu, como os meus colegas, como inquéritos que levei a cabo durante os meus estudos mostram que os estudantes estão só à espera de poderem terminar os estudos para deixar a cidade. E esse é o meu caso. Quem quer ficar é porque vem de famílias onde há negócios ou heranças que permitem uma certa estabilidade. Para quem quer ter um futuro aqui é complicado”, detalhou o estudante. Aos poucos, e devido às escolhas políticas dos últimos 30 anos, com presidentes da Câmara que permaneceram no poder durante vários anos enquanto acumulavam cargos de poder nacionais como deputados ou senadores - algo actualmente proibido pela lei -, as zonas comerciais, tal como noutras cidades médias em França, foram saindo do centro da cidade e os comércios foram sofrendo. Uma tendência alimentada pelo esvaziamento da cidade, como constata Dominique Sistach. “A cidade foi esvaziada de lojas e habitantes. E, como sempre, quando uma cidade perde a sua diversidade social, tudo o que resta são os moradores mais pobres, aqueles com menos recursos para se locomover. E a cidade é visivelmente mais pobre hoje do que era em 2020. Por outro lado, esta cidade também precisa de uma identidade colectiva que seria algo ligado a uma maior actividade industrial, ao turismo, mas não há uma actividade dominante. Não há nenhuma atividade dominante. Assim, para aqueles que vivem aqui, além da pobreza que é consensual, não há nada de positivo para a dar à cidade. E acredito que esse seja um dos principais problemas do mandato de Aliot, mas também do mandato do anterior, Jean-Marc Pujol”, detalhou o académico. A RFI deslocou-se ao bairro de Saint-Jacques, um bairro muito próximo do centro da cidade, mas conhecido por albergar pessoas com dificuldades sociais e marcado pela insegurança. Os comerciantes preferiram não fazer quaisquer declarações gravadas, mas garantem que há décadas sentem uma diferença de tratamento por servirem comunidades maioritariamente magrebinas, lamentando a falta de policiamento, o desinteresse e a pouca presença das autoridades locais. As desigualdades acentuam-se ainda mais consoante as origens da população, sendo uma cidade onde 13% da população não é francesa. Entre as principais origens está a Argélia e também Portugal. Para Hidad Ashraf, que veio da Bélgica e tem origens marroquinas e paquistanesas, a desigualdade da cidade chocou-o profundamente. “Na verdade, estas desigualdades doem porque não estamos à espera. Sei que quando cheguei a Perpihã, a primeira coisa que notei foi a enorme quantidade de diáspora que há na cidade. Temos todos os tipos de pessoas: espanhóis, ciganos, norte-africanos, todos os tipos de pessoas do continente africano, e foi surpreendente ver isso. Eu achava que seria uma cidade feita para, entre aspas, acolher os imigrantes. E, de facto, no final, deparei-me com muitas desigualdades, em termos de acesso à educação, não necessariamente para mim, mas noutros casos. Discriminaçõa em relação a outros colegas de curso também, ou dos seus pais que tiveram de lidar com discriminação racial. Então, na verdade, tudo se resume a desigualdades. Então, são coisas com as quais temos que lidar todos os dias. E até mesmo nos discursos de alguns políticos de Perpignan, que, por exemplo, dizem que o povo de Perpignan não sofre discriminação. É extremamente violento dizer coisas desse tipo, quando nós mesmos que somos discriminados, não conseguimos entender isso. E generalizar essa frase deslegitima as desigualdades e as pessoas que são discriminadas”, disse o estudante. Para Dominique Sistach foi o quadro de empobrecimento e de desigualdade da cidade que permitiu a subida da União Nacional e a vitória de Louis Aliot nas eleições municipais de 2020. “Uma das chaves para entender a relação entre o extremismo de direita é o empobrecimento generalizado, ou seja, a União Nacional só pode estabelecer-se se o nível de pobreza for constante. Assim que o nível de riqueza se torna muito alto, a União Nacional torna-se um partido muito menos apelativo”, concluiu.