
Bissau acolhe, entre 17 de Novembro e 7 de Dezembro, o Festival Djintis – Festival Internacional de Artes Cénicas de Bissau. Serão apresentados vários espetáculos, oficinas e residências em diferentes espaços da cidade, transformando Bissau num verdadeiro palco XXL. A edição deste ano inspira-se nos elementos Terra e Fogo para orientar a programação, que assume uma dimensão panafricana e internacional, com o objetivo de reforçar os laços comunitários num contexto global marcado pela divisão. Os organizadores do Festival Djintis evocam a afirmação do escritor guineense Abdulai Sila: “há correntes que não se veem, mas movem barcos e pessoas”. Ismael Cassamá, jovem artista guineense, participa numa das oficinas do Festival orientada pelo encenador suíço Patrick Mohr. Reúnem-se diariamente para ensaiar no palco do Centro Cultural Francês de Bissau. Ismael, artista transdisciplinar, dança, escreve, canta e cria performances. “Parar e sentir-me impotente… é um dos meus maiores medos! Quando não faço nada, procuro fazer algo. Se estou sozinho em casa, procuro criar: uma coreografia... um texto, qualquer coisa, para não ficar parado”, explica, sentado no anfiteatro do Centro Cultural. Viver da cultura na Guiné-Bissau não é simples, admite o artista. “Aprendi que em nenhuma parte do mundo é fácil ser artista. Mas na Guiné-Bissau torna-se ainda mais difícil. As pessoas pensam que quem faz teatro faz comédia. És comediante. Mas o teatro também educa, sensibiliza e possui uma força capaz de transformar, tal como a dança. Aqui, quando alguém dança, pode ser visto de várias formas: pode ser considerado uma grande figura, um rei, ou… simplesmente um mendigo.” Em pleno período eleitoral, fala-se muito das divisões étnicas. Ismael, enquanto artista, interroga-se sobre a forma como o teatro enfrenta esta questão e sobre o significado da guineendade. “Não havia divisões étnicas quando conquistámos a independência; só depois começaram a surgir. Agora diz-se ‘sou Papel’ ou ‘sou Balanta’. Eu prefiro pensar que sou guineense, sou africano, sou do mundo. Não esqueço os meus ancestrais e quero tornar isso evidente em cada palco a que subo, em cada canção que canto, em cada palavra que lanço da boca. É isso, apenas isso. Quero transmitir essa força a mais pessoas.” Programação panafricana e internacional Os espetáculos decorrem em vários pontos de Bissau, nomeadamente no espaço Ur-GENTE — um centro de programação e formação em Artes Cénicas Transdisciplinares, que está na origem desta segunda edição do Festival Djintis. Carolina Rodrigues, coordenadora e diretora artística do projeto Ur-GENTE, explica: “Vamos receber companhias de vários países europeus e da América do Sul. Do continente africano, teremos espetáculos ou equipas do Benim, Senegal, Cabo Verde e uma companhia, a ‘Company’, composta por artistas da República do Congo, Burkina Faso e Martinica.” Na fachada colorida do centro Ur-GENTE destaca-se uma serpente multicolorida. Logo à entrada, encontra-se o café-teatro. Celeste Sanhá, responsável pelo espaço, conhece todos os que por ali passam. “Vêm estudantes, vêm curiosos, vêm embaixadores, vêm os moradores do bairro… Muitos chegam aqui a perguntar o que é este espaço. Depois entram, tiram fotografias e acabam a dançar!”, ri-se. Toda a programação do Festival Djintis é gratuita e acessível a todos. O encerramento está marcado para 7 de Dezembro. O DJINTIS – Festival Internacional de Artes Cénicas de Bissau é uma iniciativa integrada no projeto "Ur-GENTE – Centro de Formação em Artes Cénicas Transdisciplinar de Bissau", promovido pela ONGD VIDA, em parceria com o Ministério da Cultura, Juventude e Desportos da Guiné-Bissau. É financiado pelo Camões, I.P., e cofinanciado pela Câmara Municipal de Almada, Organização de Estados Ibero-Americanos (OEI Portugal), Institut Français e PNUD (Guiné-Bissau).