
O Festival Internacional de Cinema DocLisboa encerra este Domingo 26 de Outubro a sua 23ª edição. O festival que arrancou a 16 de Outubro na capital portuguesa com a exibição do filme With Hasan in Gaza, de Kamal Aljafari, e vai encerrar com A Árvore do Conhecimento, de Eugène Green, tem sido rico em momentos para ver, pensar, discutir e até mesmo criar filmes. A programação, que inclui a exibição de 211 filmes de 54 países, faculta um olhar atento e enriquecedor sobre temas complexos e aflitivos da actualidade. Destaque para a competição internacional, a competição portuguesa, os filmes com realização africana ou filmados em África e a retrospectiva dedicada a William Greaves. A RFI falou com a realizadora e antropóloga Catarina Alves Costa, com o realizador Carlos Conceição, que apresentou em competição nacional o filme Baia dos Tigres, rodado em Angola, e com o director do DocLisboa, Hélder Beja. Quais as grandes linhas definidoras da programação? Hélder Beja, director do Festival Internacional de Cinema DocLisboa: A programação tem algumas linhas que são definidoras. Uma delas é o facto de, num mundo em que correria a toda hora aos gritos, muitos destes filmes são momentos de pausa. Servem para pensar, sente-se de facto que há uma reflexão nestes objectos artísticos por parte de quem os fez e uma necessidade mesmo de, de alguma maneira, acalmar e respirar, pensar sobre a nossa presença no mundo. Então, acho que desde logo há isso que atravessa muito o cinema que o Doc Lisboa mostra este ano. Em segundo lugar, apesar de não fugirmos do conflito, temos filmes que abordam esta absoluta chacina na Palestina, temos filmes que abordam a guerra na Ucrânia, filmes que tratam outros conflitos e outras realidades muito duras à volta do globo. Mas são filmes que não são necessariamente gráficos, ou demasiado gráficos, e isso não foi uma preocupação, simplesmente foi acontecendo naturalmente. Os filmes que fomos seleccionando e aqueles que nos tocavam não eram os filmes mais óbvios do ponto de vista daquilo que todos os dias vemos através da televisão, etc. Então, foi muito interessante passar por essa experiência de não termos de ir à procura do mais óbvio para que conseguíssemos chegar às pessoas. Temos a sensação de que, de facto, com histórias de maior empatia, filmes que tocam o humanismo e não a desumanização, a empatia e não a indiferença, são capazes, neste momento, de chegar mais ao público, tocar mais as pessoas e de deixar essa centelha lá, essa pequena fagulha acesa e estimular o pensamento crítico. Parece-nos que esses filmes são mais capazes de fazer isto do que filmes que simplesmente nos choquem pelas imagens que nos trazem. Essas duas linhas são bastante claras quando olho para a programação. Finalmente, o DocLisboa também é um festival que gosta de correr riscos e, portanto, também vamos sempre um bocadinho à procura da singularidade do gesto e de uma espécie de cinema do futuro. Qual o lugar das competições Internacional e Nacional na programação? A competição internacional do festival é o ponto mais importante da programação porque apenas aposta em filmes que vêm com estreia mundial ou internacional. Ou seja, filmes que estão agora a começar a encontrar o seu público e filmes que o festival defende desde a primeira hora. Por vezes há uma excepção. Este ano tivemos um filme que vem com estreia portuguesa, mas apenas isso. Todos os outros filmes da competição internacional têm esse estatuto de premier . Isso é importante porque, de facto, é um risco, por um lado, que o festival corre em procurar novos filmes que queiram estrear connosco, mas ao mesmo tempo é a coisa mais bonita de fazer esta grande empreitada que é a programação do festival, ou uma das coisas mais bonitas, que é ir à procura desses filmes e desses filmes procurarem-nos a nós também. Estamos muito, muito felizes com a programação internacional deste ano. Achamos que é extremamente forte, diversa, rica, original. A competição portuguesa este ano tem sete estreias mundiais, o que é muito representativo também do desejo que os cineastas portugueses, ou da produção portuguesa, que querem que os filmes estreiem no DocLisboa, quando nós sabemos, obviamente, que é bastante fácil, ou relativamente fácil, para o cinema português internacionalizar-se e, portanto, poder ter a sua estreia mundial lá fora e depois regressar ao país para estrear nacionalmente. É uma grande responsabilidade porque nós temos de apoiar os filmes, temos de ter a certeza que também os filmes conseguem circular depois de passarem aqui no nosso festival. Por isso também fizemos o esforço importante de ter ainda mais convidados internacionais presentes nesta edição. Convidados de todos os espectros, desde produtores, programadores, distribuidores, directores e directoras de festivais. A competição portuguesa é uma competição também, ela, este ano, diversa. Temos cineastas consagrados e consagradas e depois também há alguns mais jovens que estão a começar a sua carreira. Temos cinema experimental, temos filme-ensaio, temos ficção. O DocLisboa também já quebrou há muito tempo esse estigma da barreira entre documentário e ficção. Portanto, eu diria que a competição portuguesa, pelos vistos e ainda bem, continua a ser importante para nós, para as produtoras portuguesas, para os directores portugueses e fico muito feliz com isso. Carlos Conceição, para que serve o cinema? Carlos Conceição, realizador: Eu acho que o cinema pode servir para tudo. Há uma certa obrigação antropológica em algum cinema, há uma responsabilidade histórica que o cinema deve atentar, mas eu não creio que o cinema deva ser uma arte utilitária exclusivamente. Acho que o cinema é mais interessante quanto mais livre for e se calhar quanto mais fútil for. Eu vejo o cinema como uma espécie daqueles discos que se gravam e se mandam para o espaço. E acredito que daqui a uns anos, quando nós já cá não estivermos, vai aparecer uma espécie alienígena qualquer, ou uma espécie mais inteligente que nós, que tem estado aí escondida, que não aparece por nossa causa. E que vai descobrir uma carrada de filmes e vai dizer olha que interessante que era esta espécie que se autodestruiu. E é isso que eu acho que o cinema serve. Eu vejo cada filme que faço como uma espécie de filho, até porque fazer um filme é uma espécie de gestação, dura o tempo de uma gestação, alguns mais, alguns trazem as mesmas dores de cabeça comparáveis e às vezes nós perguntamos para quê. Para mim essa é a resposta, para deixar uma marca. Qualquer coisa que ajude a perceber como é que as coisas eram, como é que deviam ter sido, como é que não foram. Baia dos Tigres está na competição nacional do DocLisboa, podemos dizer que é um documentário? O Godard dizia que todos os filmes são documentários sobre a sua rodagem, sobre o seu processo de serem feitos. O Baia dos Tigres é uma ficção filmada segundo alguns credos de documentário. Por ser o realizador do filme e o argumentista do filme, talvez não seja a pessoa mais indicada para o definir nesse sentido. Uma ideia que eu costumo tentar vender é que os filmes não são como são por acidente ou por ingenuidade ou porque a pessoa que os fez não soube fazer melhor. Os filmes são, normalmente, resultado de um período de deliberação que é longo, ardo, obsessivo e desgastante para o seu realizador. Portanto, não há filme nenhum que seja como é porque o realizador não sabia fazer melhor. Isso quer dizer que, de certa forma, cada filme medita a sua própria gramática. E eu acho que é muito interessante que possa haver fusões entre os sistemas clássicos narrativos, as formas do documentário, o cinema mais contemplativo, que eu considero que quebram todas as gaiolas e acho importante, se calhar, para lutar contra o mainstream. Eu acho o mainstream um bocadinho o inimigo principal do crescimento da arte. A Catarina Alves Costa participou num debate que o DocLisboa organizou sobre a utilização de arquivos em filmes, como é que correu? Catarina Alves Costa, realizadora e antropóloga: Foi interessante porque foi uma apresentação do que é que se pode fazer com arquivos e um questionar também dos próprios arquivos. O que é que é o arquivo? Como é que ele pode ser usado? Éramos três realizadoras que mostramos alguns excertos de trabalho feito e houve bastante conversa com o público e, no fundo, as questões são um bocado as questões de sempre que é o que é que os arquivos, nomeadamente os arquivos coloniais, carregam? Como trabalhar com estes arquivos? E desenvolvemos várias estratégias, por exemplo, a coisa da devolução dos arquivos às pessoas, de as levar para as comunidades originais, de as transformar em novas coisas. E falou-se também um pouco da linguagem cinematográfica associada ao arquivo, possibilidades de trabalhar esses arquivos de formas mais experimentais, mais criativas, etc. E, portanto, acho que foi uma conversa interessante. Estava muita gente e eu acho que as pessoas precisam um pouco disto, ou seja, precisam de se juntar para falar sobre estas questões. O seu mais recente trabalho é a longa-metragem sobre o músico Orlando Pantera. Confirma que o filme vai estar brevemente em Cabo Verde? O filme vai passar no Festival Djarfogo (Djarfogo International Film Festival (DIFF)). É um festival internacional de cinema com uma programação vasta, com sessões que vão acontecer na Praia e na Ilha do Fogo. O filme vai ser visto na Praia no dia 4 de Novembro e no dia 7 na Ilha do Fogo. A ideia, de facto, é nós voltarmos a mostrar o filme em Cabo Verde para o grande público e nós temos o plano, de facto, de fazer sessões na Cidade da Praia, na Assumada, no Mindelo. E, portanto, vamos fazer uma espécie de tour do filme em Cabo Verde, provavelmente em Março. E em Portugal, quando é que pode ser visto? Vai passar em Coimbra; dia 27 de Novembro, no Festival Caminhos do Cinema Português. 28 e 29 no Porto/Post/Doc, no Cinema Passos Manuel. Depois, no dia 9 de Dezembro, vamos fazer uma sessão na Cinemateca. A partir do dia 11 de Dezembro estará em sala em vários locais.