
O Museu Nacional da Marinha, em Paris, acolhe a exposição "Magalhães, uma viagem que mudou o Mundo" até Março e leva os visitante numa visita imersiva pelo périplo da circum-navegação, explicando as dificuldades da primeira travessia do Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico e desvendando mais sobre a figura mítica de Fernão de Magalhães. Mais de 500 anos após a sua morte, Fernão de Magalhães e a sua viagem de circum-navegação, a primeira registada na história da Humanidade, continua a suscitar interesse. Embora hoje seja difícil imaginar viagens que duram anos no mar por lugares nunca antes explorados, o Museu da Marinha, em Paris, quis colocar os seus visitantes na pele dos mais de 200 homens que em 1519 partiram de Sevilha com a missão de chegar às ilhas Molucas, que hoje integram a Indonésia, e que então era o único sítio no Mundo onde havia cravinho, uma especiaria tão rara que valia ouro. Para assegurar a veracidade histórica desta aventura museológica, e até porque a organização dos diversos espaços é baseada nos relatos de Antonio Pigafetta, cronista, explorador e geógrafo que integrou esta viagem, o historiador Michel Chandeigne é o conselheiro científico desta exposição e explicou em entrevista à RFI que esta é uma experiência que quer tocar o máximo de visitantes. "Claro que uma experiência imersiva tem o hábito de tocar um público maior, um público de jovens e também um público que não está habituado a descobrir a história das viagens nos livros, é uma coisa diferente. Um pouco lúdico, mas feito de uma maneira muito estética. Há uma beleza da cenografia que é simples", explicou. O Museu da Marinha, recorreu a imagens desta aventura criadas para o documentário de François de Riberolles, que pode ser visto no canal ARTE, assim como a imagens reais dos sítios percorridos por Magalhães, mas também sons e projecções numa cenografia de Brigitte Poupart, que criam a exposição imersiva "Magellan, un voyage qui changea le monde", ou em português "Magalhães, uma viagem que mudou o Mundo". O percurso começa no porto de Sevilha, em que se ouvem homens apressados de um lado para o outro, sons de navios e de mar. Aqui conhecemos as personagens principais desta viagem: Fernão de Magalhães, navegador português que vai apresentar os seus serviços ao então rei de Espanha, Carlos I, mas também Henrique, o escravo de Fernão de Magalhães que lhe vai servir de intérprete no Pacífico, o próprio Pagafetta ou ainda Juan Sebastián Elcano, que começa esta viagem como marinheiro experimentado e terminará como capitão-geral, já que será ele que regressará a Espanha em 1522, já que Magalhães morreu nas Filipinas. Nas paredes das exposição vemos o número de homens, os cinco barcos e ainda o tipo de objectos que se levava nestas viagens como 100 toneladas de biscoitos duros, 600 quilos de mel, mas também 35 bussúlas, 4 mil flechas e duas toneladas de pólvora. O grande desafio desta viagem era encontrar uma passagem através do Oceano Atlântico para as ilhas repletas de especiarias, contornando assim o Tratado de Tordesilhas. Nisso, e apesar dos percalços e dos meses de espera, Fernão de Magalhães foi bem sucedido, sendo o primeiro descobridor a atravessar o estreito que depois haveria de ficar com o seu próprio nome entre o Oceano Atlântico e o Oceano Pacífico. Passou pelo Rio de Janeiro e pelo Chile, onde teve contacto com os nativos. No entanto, após uma longa expedição, e chegando às Filipinas, acabou por se envolver em querelas locais e foi morto por Lapu Lapu, um chefe tribal. Esta morte, considerada por muitos como "um suicídio", acabou por afastar Fernão de Magalhães das glórias do seu tempo, mas hoje é considerado como um dos maiores navegadores de sempre. "Magalhães perdeu tudo, perdeu a vida. E também se enganou. As Molucas não eram do domínio espanhol. Magalhães não é um herói, é um perdedor magnífico. E tudo isso faz com que a lenda do Magalhães não tenha sido tratada pelos historiadores durante séculos. Para os espanhóis, era um homem que perdeu os espanhóis numa empresa devastadora e cara. E para os portugueses era um traidor. Para o historiador, porque Magalhães não serve nenhuma causa nacional", detalhou Michel Chandeigne. Esta exposição termina com uma explicação de historiadores portugueses, espanhóis e franceses, mas também chilenos e argentinos, das interacções de Magalhães e dos seus marinheiros com os povos indígenas, sendo que houve vários episódios de violência, de detenções forçadas e violência sexual. Para acompanhar esta exposição, as edições Chandeigne e Lima, fundadas por Michel Chandeigne, vão lançar a terceira edição de "Le Voyage de Magellan (1519-1522). La relation d'Antonio Pigafetta et autres témoignages". Esta é uma recolha que foi começado por Michel Chandeigne em 2007 e que esta semana foi relançada com várias actualizações.