
Em Bissau, os autodenominados "Filhos de Tuga" nasceram há mais de cinquenta anos, fruto de relações entre combatentes portugueses e mulheres guineenses durante a época colonial. Hoje, a maior parte desconhece o pai, apesar de terem tentado procurá-los. Na independência (1973-1974), muitos dos militares portugueses que regressaram a Portugal deixaram na Guiné-Bissau mulher e filhos e nunca mais olharam para trás. Reunidos numa associação, Ivete, Anabela, Victor e os outros "filhos de portugueses" têm hoje apenas uma exigência: que o Estado português lhes atribua a nacionalidade. A colonização portuguesa em terras africanas não pertence apenas ao passado, as suas consequências são por vezes concretas ainda hoje no dia à dia de certas pessoas. Durante décadas, forças coloniais e populações autóctones conviveram no mesmo espaço geográfico, ora coabitando ora lutando em guerras mais ou menos longas. A complexidade da história juntou pessoas de campos opostos, com origem e destinos diferentes, que num certo momento das suas vidas teceram uma conexão (voluntária, ou forçada). O fruto destas conexões perdurou, e por vezes ganhou vida. Na Guiné-Bissau, Victor, Fatima, Ivete e dezenas de outras pessoas nasceram destas relações. O pai: militar português, presente na Guiné-Bissau sob bandeira colonial. A mãe: guineense, geralmente trabalhadora doméstica ou vendedora, em contacto com as tropas coloniais. Mas com a independência e a saída das tropas portuguesas, que libertou a população do jugo colonial, começou para eles, os Filhos de Tuga, um longo caminho de desenraizamento. Em muitos casos, os militares regressaram a Portugal sem que nunca mais houvesse qualquer contacto com a vida de antes. Fidju di Tuga: é o nome que se dá às crianças nascidas destas uniões entre combatentes portugueses e mulheres guineenses. Apelação quase pejorativa, atribuída pelos outros, os que não carregam um passado colonial na sua pele. Decidiram reapropriar-se do nome para vincar a sua luta, que hoje passa pelo reconhecimento das suas raízes portuguesas. Reportagem: