
Desde creches, até recolha do lixo aos esgotos, a cidade de Paris tem 53 mil trabalhadores que ajudam a cidade a funcionar todos os dias. Isto de faz da cidade de Paris um dos maiores empregadores da região, mas também que permite a quem não terminou os estudos secundários ter uma carreira longa com formação ao longo da vida. Muitas vezes, Paris é descrita como o cenário de um filme. Se é verdade que a cidade já serviu literalmente de cenário a inúmeros filmes, séries e documentários, tal como num filme em que há técnicos de luz, guarda-roupa ou guionistas, a cidade de Paris faz-se todos os dias com a ajuda de 53 mil funcionários que se dividem em mais de 330 profissões. Olivia Polski, vereadora da cidade Paris encarregue dos recursos humanos da cidade, explicou em entrevista à RFI porque é que a cidade tem tantos trabalhadores. "A cidade de Paris emprega 53.000 pessoas em mais de 330 profissões diferentes. Podem ser jardineiros, cantoneiros, assistentes de creche, assistentes sociais, médicos, técnicos de administração, temos um grande número de trabalhos muito diferentes. Em Paris somos uma excepção, tanto somos uma câmara municipal como somos uma região administrativa. Portanto, temos uma competência dupla. E isso também explica porque temos tantos funcionários. E, claro, temos muitos habitantes e serviços para oferecer aos parisienses, sendo que temos essa dupla função", disse a responsável. Mesmo com esta dupla função, há críticas em relação ao número de trabalhadores na cidade, já que, em comparação, todas as instituições europeias têm 60 mil funcionários e todas os governos civis de França têm 30 mil funcionários. No entanto, nenhuma destas estruturas tem as mesmas competências de Paris. O número de funcionários e as suas diferentes funções, fazem com que a organização seja imprescindível na gestão quotidiana da cidade. "A maioria dos nossos agentes são agentes no terreno. A maioria deles são agentes de campo, como, por exemplo, os nossos cantoneiros. Os parisienses vêem os trabalhadores da Câmara Municipal a trabalhar um pouco por toda a cidade. Claro que temos um grande número de profissões muito diferentes, portanto, é um verdadeiro desafio organizacional. Para gerir todos estes trabalhadores os nossos serviços estão divididos em cerca de vinte directorias temáticas. Por exemplo, há o departamento da via pública, outro de gestão de resíduos ou ainda a polícia municipal. E, no dia a dia, também descentralizámos bastante a organização nos últimos anos, trabalhando em conjunto com os conselhos municipais de cada bairro", explicou. Paris é assim um dos maiores empregadores da região, no entanto, é também uma possibilidade de quem não acabou os estudos de encontrar uma profissão estável e onde há possibilidade de evolução, garante a vereadora Olivia Polski. "Muitos dos nossos recrutamentos se fazem através de concursos públicos, já que se trata da função pública, mas também temos postos em que não há concursos. Somos, aliás, um dos principais empregadores da região de Ile de France que recruta pessoas mesmo que não tenham completado o ensino secundário. Nos dois casos, por concurso ou sem estudos superiores, praticamos a aprendizagem ao longo da vida. Dizemos que quem trabalha para a autarquia de Paris tem sete vidas como um gato. É possível que alguém entre para os nossos quadros sem ter concluído a escolaridade obrigatória e que termine no topo da carreira. Esta evolução é possível para todos os nossos agentes, mas claro que nem todos querem", detalhou a vereadora de Paris. Se Paris tem actualmente níveis elevados do preenchimento das vagas de emprego, nem sempre foi assim. O recrutamento em França está muito condicionado pelo ambiente económico e muitas pessoas preferem trabalhos precários, mas que possam ter mais liberdade. No entanto, e perante as crises que o país tem enfrentado desde a covid, aos impactos da guerra na Ucrânia e a instabilidade política, a função pública tem sido um refúgio bem vindo para muitos trabalhadores. "A questão da atractividade função pública não diz só respeito a Paris, mas aplica-se também a outros territórios e ao Estado em geral. Em alturas em que as pessoas procuram maior mobilidade e flexibilidade, a administração pública não parece tão atractiva. Nós temos a vantagem de quem trabalha para nós sentir, desde logo, que o seu trabalho faz sentido, ou seja, há uma razão para realizar as suas missões já que se serve o interesse colectivo, mas também são trabalhos com grande estabilidade e segurança. Ora, quando o clima económico muda e há maior imprevisibilidade, as pessoas têm tendência a concorrer mais para a função pública. E, nesta altura, devido ao que se passa na economia francesa, apenas 2% das nossas vagas estão disponíveis. É um óptimo resultado e continuamos a tentar tornar as nossas carreiras atractivas e nalgumas vagas chegamos a pagar bónus. De forma a facilitar o contacto com os nossos candidatos, criámos um site com todas as ofertas de trabalho da cidade de Paris. Isto não impede que haja sectores em que há escassez de pessoal. Vemos muito isso nos cuidados com a pessoa, como médicos ou enfermeiros, mas também temos falta de trabalhadores nas creches", argumentou. Se a beleza de Paris é lendária, a antipatia dos parisienses também o é. A cidade tem cerca de 2 milhões e 100 mil habitantes, o que tendo em conta o número dos funcionários da cidade, dá 1 funcionário para cerca de 40 habitantes e em várias interacções diárias, quer seja nas escolas, nas ruas ou nas obras na via pública, os parisienses cruzam-se constantemente com estes profissionais. No entanto, nem sempre esses encontros são cordiais, com os parisienses a ignorarem ou desrespeitarem o trabalho dos agentes da autarquia. Por isso, a cidade de Paris criou escolas especiais em que os seus funcionários aprendem a lidar com críticas e a evitar os conflitos. "Hoje temos vários canais em que os parisienses podem contactar directamente com a administração da Câmara de Paris. Criámos um centro de contacto, o 3975, um número para o qual os parisienses podem ligar e dizer tudo que vêem de mal na cidade. Logo, aí temos logo os nossos funcionários que estão em contacto telefónico directo com os habitantes. Criámos também uma equipa de apoio interno que ajudam todos os nossos trabalhadores que possam ter vivido experiências traumatizantes com habitantes, mas tenho a dizer que isso é muito pouco comum e quase não acontece. Claro que como empregador, isso nos preocupa e continuamos a dar formação aos nossos agentes. Há certas profissões mais expostas, como as escolas ou os nossos cantoneiros e, nesses casos, criámos escolas específicas para estes dois sectores específicos. Por exemplo, um dos modelos de treino que aplicamos actualmente é a utilização da realidade virtual, ou seja, colocar o trabalhador numa situação real, mas num ambiente controlado. Claro que se houver ofensas muito graves, acompanhamos sempre os nossos trabalhadores para apresentarem queixa na polícia e damos todo o apoio possível", concluiu. Ouvimos Olivia Polski, vereadora da cidade Paris encarregue dos recursos humanos da capital francesa.