
O grupo hoteleiro sul-africano HBD anunciou nestes últimos dias a sua intenção de pôr fim aos seus investimentos turísticos no Príncipe, alegando não se "sentir mais bem-vindo" na ilha. Esta decisão levou o governo local e o executivo nacional a procurar um entendimento com aquele que é o principal investidor daquele território, com centenas de empregos em jogo. De referir que este anúncio surge poucos meses depois de vozes locais, nomeadamente o Movimento Verde para o Desenvolvimento do Príncipe (MVDP), denunciarem em Junho a decisão da HBD de cobrar uma taxa para o acesso à praia do ilhéu Bombom, justificando tratar-se de custear a limpeza e segurança do local. Perante a dimensão da controvérsia, com um deputado de oposição a acusar a HBD de "Apartheid", a taxa acabou por ser rapidamente retirada. O mal-estar que surgiu durante esse período não estará, contudo, na origem da decisão do grupo dirigido pelo sul-africano Mark Shuttleworth de sair do Príncipe. Quem o diz é Nestor Umbelina, líder do MVDP, que ao dar conta sua preocupação perante esta situação, remete as culpas para o actual governo local que acusa de não envolver a oposição nas suas decisões. RFI: Como encara a decisão da HBD de pôr fim aos seus investimentos na ilha do Príncipe? Nestor Umbelina: Obviamente, como cidadão residente no Príncipe e como líder político, reajo com preocupação. A HBD é o maior investidor privado, o maior contribuinte regional, empregando cerca de 800 trabalhadores. Se multiplicar por três ou quatro, então vai ter noção de qual é a grandeza em termos económicos que a HBD representa para a região, numa população de 9000 habitantes. Portanto, nós encaramos a carta que recebemos com muita preocupação e agimos de imediato no sentido de perceber e saber qual é a razão objectiva que levou o empresário a tomar essa decisão. RFI: Esta decisão surge depois de uma polémica desencadeada em Junho, após denúncias feitas pelo MVDP de que a unidade hoteleira da HBD estava a exigir o pagamento de uma taxa à população para ir à praia do Ilhéu Bombom, que depois motivou a retirada dessa taxa. Mas no meio de toda esta polémica, a HBD refere "não se sentir bem-vinda" na ilha do Príncipe. Nestor Umbelina: Temos que recordar que HBD já está a investir na região há cerca de 14 anos. Portanto, este pequeno acontecimento isolado não levou, com certeza, à tomada dessa decisão. E na carta que o empresário escreve, ele diz que de algum tempo que vem sentindo estes 'inputs' vindos da governação, não é por causa desse incidente. Depois, diz, nomeadamente que, mais recentemente, aconteceram essas situações. Mas pronto, tomando em consideração essas situações que fomos nós que realmente intervimos, porque nós achámos que havia realmente uma violação de direitos. Primeiro, demos tempo ao governo para resolver. Quando percebemos que o governo não iria resolver e não estava a resolver, então recorremos às instituições da República com competência para dirimir esses conflitos. Em nenhum momento é para pôr em causa a capacidade ou a importância dos investimentos da HBD. Eu sempre fui um defensor dos investimentos da HBD, mas não pode ser contra a lei ou contra os costumes. Tem que ser enquadrado nessa perspectiva dos nossos interesses e o interesse do investidor. Portanto, não acredito. E eu recebi o enviado do investidor do Mark Shuttleworth e ele garantiu-me que não tem a ver com a questão da nossa reivindicação por causa da praia, muito embora ele reconheça que houve exageros. E nós também reconhecemos que possa haver exageros na linguagem, nomeadamente naquela que fala do 'Apartheid', mas tudo também provocado pelo director que ele tem aqui, que é uma pessoa também muito impulsiva e que, de vez em quando, uma acção tem tendência de gerar reacção. E foi nesse sentido que as coisas também tomaram um sentido um bocadinho exagerado em termos de linguagem. Mas não pode ser o facto de nós reivindicarmos os direitos que a população do Príncipe tem de ir para à praia, que os visitantes têm de ir para a praia sem pagar uma taxa, que o Mark (Shuttleworth) quer ir embora. Isto de certeza que não é verdade. RFI: E a seu ver, o que é que poderá então ter motivado a decisão da HBD de deixar a Ilha do Príncipe? Nestor Umbelina: Conhecendo um bocadinho o Mark (Shuttleworth) como eu conheço e lendo a carta dele, eu percebi logo que o que o Mark (Shuttleworth) quer é renovar a confiança, uma vez que já passaram 14 anos, renovar a confiança no seu investimento. Portanto, Mark (Shuttleworth) tem uma visão para a ilha e anda a investir muito dinheiro. Quem investe muito dinheiro, quer ter certeza de que estão todos alinhados. E ultimamente, nessa governação do Filipe Nascimento, deixou de haver aquela conexão que havia no passado. Porque é preciso que os políticos percebam que o facto de haver um governo eleito, é verdade, a maioria em democracia, a maioria que venceu, sim senhora, governa. Mas tem que ver a outra parte, que também teve votos e legitimação da população, para fazer o contraditório. E essa parte tem que ser respeitada. Essa parte tem que ser ouvida e tem que ser incluída na governação no seu momento. Só que após o ex-presidente afastar-se, o novo presidente não enveredou por estes caminhos. Foi fazendo as coisas sozinho e não envolvendo a oposição. E pronto, Mark (Shuttleworth) começou a sentir que realmente está a faltar um bocadinho de legitimação que ele gosta para garantir os investimentos dele. Eu acho que nós somos chamados muito poucos para intervir com essa nova governação. Então, não conhecemos exactamente o que é que se passa, o que é que está realmente na origem dessa decisão que Mark (Shuttleworth) quer tomar. RFI: Esta decisão da HBD sair do Príncipe motivou algumas tomadas de posição tanto do governo do Príncipe como do próprio governo nacional. Há uma tentativa de negociação. O que é que se espera dessas discussões? Nestor Umbelina: As movimentações foram feitas connosco. Nós tomamos a iniciativa de pedir ao presidente do Governo Regional para fazer o que é correcto, uma vez que ele não o fez quando recebeu a carta. Devia ter convidado a oposição, que também é mencionada na carta, para sentar e para nós discutirmos qual seria o passo a seguir. Não o fez. Pelo contrário, emitiu um comunicado incitando a população contra os líderes da oposição, que seria a culpa da oposição que o investidor estaria a sair. Portanto, isto é de reprovar. Mas eu depois intervim e pedi que o presidente fizesse aquilo que era correcto. Vamos reunir e vamos enviar uma mensagem ao empresário para que ele perceba que em nenhum momento nós deixamos de confiar nele. O facto de a oposição estar a manifestar-se contra alguns actos de gestão da HBD não quer dizer que estamos contra, mas ele também tem que ver que há que respeitar as leis e os costumes. Ou então teríamos que ter reunido e encontrado uma outra forma de ultrapassar essa situação. Não aconteceu. E nós emitimos um documento junto ao emissário que ele mandou trazer. Há negociações. Há bom feedback. Eu acredito que o empresário vai voltar à mesa de negociação e todos nós esperamos que venha, porque ele é bem-vindo e em nenhum momento nenhum dos cidadãos do Príncipe entendeu ou disse que o empresário não está a fazer aquilo que o Príncipe ou que os seus habitantes desejam, que é investir naquilo que é correcto, que é no turismo que nós achamos e pensamos que é amigo do ambiente, baseado em sustentabilidade, em benefícios directos para a população. RFI: Já que está em cima da mesa o investimento da HBD no Príncipe, o que é que espera da HBD no caso de essa empresa permanecer no Príncipe? Que outras críticas ou eventualmente chamadas de atenção faz à HBD relativamente à sua forma de estar na ilha? Nestor Umbelina: Como eu já disse, relativamente à questão da praia, para nós, é uma questão ultrapassada e nós fizemos a nossa parte. Entregamos isso às autoridades. Daqui para frente, será com as autoridades. Em nenhum momento se porá em causa a continuidade do HBD, porque nós só pedimos que fosse retirada a cláusula que fala do acesso à praia. Portanto, relativamente aos outros projectos, nós não tínhamos conhecimento. Mas de acordo com informações da própria HBD, agora o governo tem em cima da mesa uma série de projectos que o Mark (Shuttleworth) se predispõe a fazer, nomeadamente a construção do Porto da Pedreira, água, habitação social, energia solar que basicamente é aquilo que este governo não tem feito, porque são investimentos públicos e aquilo que é preciso fazer para que a ilha realmente comece a caminhar no caminho do desenvolvimento. E a HBD predispõe-se a fazer isso. O governo tem isso em cima da mesa, nós somos oposição e não conhecíamos. Mas também a HBD quererá alguma coisa em troca, daquilo que disse o enviado especial do Mark (Shuttleworth). A HBD simplesmente quer que seja respeitado o plano de desenvolvimento que propõe para a ilha e que o governo também tem e que nós também não conhecemos. Então, isto fica um bocadinho complicado nós emitirmos opinião porque não conhecemos. E ele quando percebe que realmente este governo não envolve a sociedade civil através dos partidos, dos movimentos que representam o Príncipe, eu acho que ele reage com a carta nesse sentido. E eu espero que agora ele venha. Porque nós nos reunimos e criámos uma plataforma de diálogo com o governo e pedimos que seja pedido com urgência que o Mark (Shuttleworth) venha sentar à mesa com o Governo e posteriormente connosco, para vermos tudo aquilo que realmente é preciso fazer para voltar a conquistar a confiança do investidor. O que nós já dissemos aqui é que é um investidor que o Príncipe precisa e que o Príncipe mantém muita confiança, porque realmente tem dado provas daquilo que têm prometido. Têm feito não a 100%, mas têm feito. E nós respeitamos bastante.