
O cineasta português Vier trouxe a curta metragem "Lúcido" à competição imersiva do Festival de cinema de Cannes. Uma viagem em realidade virtural ao sonho lúcido protagonizada por um casal gay. Boa tarde Vier. Bem-vindo ao Festival de Cinema de Cannes. É um prazer acolhê-lo. Vamos falar, nomeadamente da terceira edição de Cannes Imersivo, uma competição de nove experiências inéditas. E começaria mesmo por perguntar como é que é esta competição imersiva ? Nós sabemos que ela decorre num célebre hotel de Cannes, que implica frequentemente recurso a óculos especiais. Como é que está a viver isto e como é que isto se materializa? Esta nova competição imersiva começou em 2024. Tenta introduzir novas abordagens. relativamente ao cinema, que utiliza a realidade virtual, que utiliza projecção de vídeo que de alguma forma tentam incluir o participante ou o espectador dentro da própria experiência cinematográfica. Portanto, é uma obra inovadora... Não há nada da inteligência artificial, realidade virtual, inteligência artificial são coisas completamente distintas. Quando falamos em realidade virtual, falamos de tecnologia que permite a uma pessoa entrar dentro do mundo digital e habitar este mundo em 360 graus, que ocupa toda a visão do espectador. As imagens são completamente criadas por mim. Aliás, são uma extensão do meu trabalho visual como pessoa que pinta, como pessoa que desenha. Vamos falar disso precisamente. É uma colaboração entre seis estúdios, incluindo o português Cola Animation. Mas também há estúdios do Brasil, Colômbia, Espanha, Itália e Dinamarca. Como é que surgiu "Lúcido"? Isto surgiu de um programa chamado Ibermedia Next, que é um fundo de apoio a colaborações entre países mediterrânicos e a América Latina. E a estrutura deste fundo fez-nos pensar em criarmos uma antologia de colaboração entre vários estudos, de forma a partilharmos o conhecimento que temos, nomeadamente no que diz respeito a realidade virtual. E a tentarmos, de alguma forma, criar uma estrutura na qual cada uma das experiências se inseriria. E ao mesmo tempo permitir muita liberdade no que diz respeito ao processo criativo. A antologia enquadra seis experiências de realidade virtual, todas muito distintas umas das outras, com estilos e realizadores diferentes. O que as une é precisamente essa colaboração na partilha de conhecimento e, de alguma forma, de todas as experiências estão relacionadas com a temática do sonho. Interpreta de formas muito distintas, mas há esse ponto de ligação. Vamos falar da forma. Você falava da realidade virtual e isto estamos a falar da 3D. De que é que estamos a falar exactamente? Uma experiência a três dimensões. Difere dos filmes 3D precisamente pelo facto de estarmos dentro dele. Há relevo ! Há relevo. Há noção de perspectiva e a liberdade de movimento. No "Lúcido", a pessoa participante tem a capacidade de voar pelos ambientes oníricos onde a narrativa se passa. Interpretam ou não a personagem consoante ela está lúcida no sonho, naquele momento? Ou seja, eu uso o facto de a pessoa conseguir encarnar a personagem como uma ferramenta narrativa. Faz parte da história. Falando ainda um pouco da forma. Portanto, o projecto tem banda sonora do músico Filipe Raposo e vozes, nomeadamente na versão portuguesa dos actores Tadeu Faustino e Rafael Gomes. Como é que foi implicar esta gente toda? E depois há outros nomes para a versão em inglês para fazer "Lúcido" ? Foi bastante interessante. O Filipe Raposo foi-me muito recomendado pelo Bruno Caetano e a nossa colaboração numa banda sonora foi uma experiência bastante feliz. No caso dos actores, foi uma busca interessante. Nós abrimos um casting para actores e quando eu ouvi o Tadeu e o Rafael interpretarem o texto pela primeira vez, foi imediata a decisão. Eu percebi logo que sim. Nem preciso quase de dirigir estas pessoas, elas já sabem a voz, a intenção destas personagens. O Tadeu tem uma voz deliciosamente simpática e querida e acolhe o participante na experiência, que é precisamente aquilo que eu queria com a personagem do namorado do Gil. E o Rafael tem esta doçura e profundidade na voz dele, que se traduz perfeitamente na personagem. Fiquei mesmo muito contente. Sinto que eles pegaram naquilo que era um texto que eu escrevi com 22 anos, já há quase mais de seis anos e dei-lhe uma profundidade que eu não imaginava que pudesse ter. Fez-me mesmo muito feliz. Acho que o nosso trabalho se expande muito pelas pessoas com quem trabalhamos. E faz-me sempre muito feliz pensar e ficar surpreendido com o que as outras pessoas conseguem trazer para os nossos projectos. Obviamente, porquê "Lúcido" ?, Porque estamos aqui também numa espécie de limbo entre o estar acordado, o estar adormecido e a sonhar. Quando se está acordado está-se lúcido, por norma. Era aí que você queria chegar ? Sim, a narrativa enquadra-se dentro de um sonho lúcido, que é um fenómeno peculiar da percepção humana, que é o fenómeno de percebermos que estamos a sonhar durante um sonho. Ou seja, ter essa realização que se chama o "sonho lúcido". Esta realização pode- nos dar poder sobre o sonho. Podemos de alguma forma conseguir controlar elementos do ambiente onírico ou não. Muitas vezes estamos lúcidos e não conseguimos controlar na mesma o que se passa à nossa volta. Mas essa dinâmica entre conseguir controlar ou não controlar o ambiente à nossa volta inspira-me. Tem um potencial narrativo muito forte. Este espectro de controlo relacionado diretamente com o que sabemos ou não sabemos. E fez-me perguntar quando é que queremos estar lúcido? Quais são estes momentos em que queremos realmente estar lúcidos? Mas também quais são os momentos em que preferimos estar a sonhar? Quais são os momentos em que preferimos acreditar naquilo que sabemos que não é real? Quando é que isso acontece? Quais são essas situações? Isso levou-me a pensar em luto, nos sonhos em que pessoas que perdemos nos visitam e como isso pode ser extremamente feliz e ao mesmo tempo cruel, porque lembra nos que as perdemos e, ao mesmo tempo, voltamos a esta memória feliz anterior. Daí nasceu a história do Lúcido. Desse sentimento específico, contraditório, da lucidez no sonho. Então, fala-se aqui da família escolhida. Já fez referência ao Gil e ao namorado. Portanto, estamos a falar de um casal gay. O que é que lhes acontece a eles, grosso modo, para quem ainda não viu o filme ? Vou já "spoilar" a história toda ? Posso dar a premissa. O Gil acorda de um sonho estranho, peculiar, misterioso, que o deixa de alguma forma incomodado com ele. Não percebemos bem até ao final, mas vou deixar isso em aberto. E o Briso, o namorado, do Gil, propõe-lhe aprender a ter sonhos lúcidos. Propõe-lhe aprender a controlar o sonho porque, de alguma forma, conseguir navegar aquilo que está a incomodar no sonho, no pesadelo que teve. E daí cria-se esta viagem que o Briso entra nos sonhos do Gil para o guiar, para o ensinar a controlá-los. * E o espectador encarna o Gil e vai, nesta viagem de progressivo acumular de poder. Mas esta viagem não é perfeita. O Gil vai perdendo o controlo sobre o sonho, vai perdendo lucidez. E nesses momentos em que perde lucidez, nós conseguimos ter estas vinhetas, estes pedacinhos da vivência do Briso, do Gil e também da outra personagem. Percebemos melhor a dinâmica da relação entre estas três pessoas. Então, Lúcido, vais estar a competir com outros filmes provenientes do Reino Unido, da França, de Taiwan, da Itália, de Espanha, da Coreia do Sul, das Filipinas. Eu perguntar-lhe-ia qual o seu interesse pelas outras propostas que vão estar a competir com o seu filme ? Já as viu? Vai tentar ver ? O que é que pretende viabilizar durante a sua estada aqui em Cannes ? Gostava de vê-los todos, está a ser muito difícil conseguir arranjar bilhetes. Tem esgotado com uma rapidez fascinante em poucos segundos, deixa de haver. E a competição imersiva tem o desafio adicional de serem relativamente poucos locais quando comparado com o cinema. São muitos lugares para uma competição de VR comum, é um pavilhão de quase 100 lugares, mas 100 lugares num festival como Canne não é quase nada. O Lúcido vai estar exibido de três em três dias, por isso, em princípio, 300 pessoas vão ter a oportunidade de experimentar durante o festival. E eu gostava de conseguir experienciar as outras. Ainda não consegui bilhete para nenhuma. Vou ver se consigo mexer umas cordas para alguns dos participantes me cederem um bilhete, porque estou obviamente muito curioso para saber em que consiste o resto da competição. E ao fim ao cabo, para quem não conhece a sua trajectória, você assina aqui então o "Lúcido". O que é que fez anteriormente? E, se calhar, sobretudo, o que é que pretendo fazer no futuro? O meu primeiro filme, lancei em 2019, chama se "A Mãe de Sangue" e é uma animação experimental que também utiliza as imagens duplas que tem dominado grande parte do meu trabalho visual. Neste momento estou a realizar a minha próxima curta metragem. Chama-se "A Dança dos fanchonhos" e é uma narrativa que segue várias personagens queer durante a ditadura do Estado Novo, conta com a banda sonora das Fado Bicha. E é esta curta, experimental histórica, que mistura vivência real de pessoas durante o Estado Novo com fantasia, com lendas queer portuguesas mais antigas nesta dança que de alguma forma, e era o que eu gostava que acontecesse, mostrasse parte daquilo que foi a resistência queer durante a história de Portugal. E em termos de referências cinematográficas que podem ser as suas. Sendo que vem de Portugal, o país, por exemplo, de onde vem também Pedro Rodrigues, que já esteve tantas vezes aqui em Cannes. É um cinema do qual se sente próximo ? Quais são as suas referências que lhe são muito caras e que têm deixado um, se calhar um vínculo indelével na sua obra? Tento, no meu trabalho, misturar elementos de várias expressões artísticas. Penso que tanto este projecto... Este projecto acho que vai beber muito pronto para o movimento da arte surrealista. Vai beber muito daquilo que são os grafismos associados ao sonho. Mas também tem outra abordagem. Eu gosto de projectos com escala que escalam, que vão crescendo. Implicam muito de psicanálise para este filme em específico. Não teve que andar aí a entrar no freudiano ? Talvez, talvez um bocadinho. Interessam-me projectos que tentam explorar uma premissa até ao máximo. Mas os trabalhos que eu tento revisitar tendem a ser projectos que de alguma forma não têm medo de explorar as consequências de uma premissa às vezes absurda. Revi várias vezes mesmo a banda desenhada do Uzumaki, de terror do Junji Ito. Projectos que têm muitas vezes uma premissa absurda ou de horror cósmico expandem, expandem, expandem até chegarem a um ponto de irreconhecível. Mas que me deixa, acho que me eleva, me deixa entusiasmado. Esse tipo de projecto que eu gostava de alguma forma, tipo de tentar construir, Mas também ao mesmo tempo também gosto de obras assim, mas que se focam numa numa abordagem mais, mais pequena. Os filmes da Lynne Ramsay, às vezes retratos de uma pessoa, retratos cinematográficos também. O facto de estar a explorar uma curta que é uma curta de período, uma outra que se foca mais em pessoas específicas num período específico, é uma vivência, elemento e momento específico da vida delas. Há espaço para tudo. Acho que há espaço para tudo.