
A febre dos Tubarões Azuis chegou aos quatro cantos do Mundo e França, onde Cabo Verde tem uma das suas maiores diasporas, não ficou de fora. Agora que o Mundial de Futebol terminou, a diáspora reuniu-se para discutir as possibilidades reais de investimento no país, aproveitando a popularidade de Cabo Verde e imaginar mesmo um regresso ao arquipélago. Para Cabo Verde, o Mundial de 2026 vai ficar inscrito na história como um momento de apoteose colectiva e também de exposição global, já que milhões de pessoas de diferentes países torceram, sofreram e vibraram com a participação dos Tubarões Azuis na competição. Mas e depois? O que fica desses momentos de euforia para transformar o país? É possível aproveitar este instante de glória para desenvolver Cabo Verde e dar melhores condições de vida aos seus habitantes? A diáspora cabo-verdiana em França acredita que sim e reuniu-se no fim de semana no encontro “Cabo Verde na Copa. Et après?”, onde membros da diáspora vieram partilhar as suas experiências nos domínios do desporto, empreendedorismo e oportunidades para aproveitar a recém-adquirida fama de Cabo Verde em investimentos viáveis. O encontro foi promovido por três associações da diáspora, 2Vision, Nos é Kriolas e Part’Ilhas, que não quiseram deixar passar este momento e desejam continuar a mobilizar os cabo-verdianos em França. Izilda de Brito Robalo, da Nos é Kriola, fala sobre a motivação para organizar este evento. “Como aconteceram muitos eventos durante a Copa do Mundo, justamente nas fanzones, pudemos assistir aos jogos, todo o mundo estava com essa euforia. Mas, depois da Copa do Mundo, parece que o entusiasmo esfriou. Aí pensámos: “Não existe mais este espaço de discussão, e fica a pergunta ‘E agora, o que podemos fazer?’, quais são as oportunidades a serem aproveitadas e, também, simplesmente fazer uma reflexão sobre o que se passou na Copa.” Depois daquela loucura que vivemos, não parámos para pensar e agora o que fazemos?”. Para muita gente, esta copa colocou Cabo Verde no mapa.E permite mesmo localizar-nos culturalmente, quem são os cabo-verdianos? Então, começamos a ter muito conteúdo sobre a cultura cabo-verdiana e a música cabo-verdiana nas redes sociais. Agora, quando estamos com a camisola de Cabo Verde na rua, imediatamente as pessoas vêm até nós e dizem: “Que bom, vocês são cabo-verdianos, muitos parabéns”. E, na verdade, acho que é justamente esse orgulho que as pessoas sentem por nós. Nós realmente sentimos que o olhar das pessoas mudou, porque elas abordaram-nos na rua, vinham parabenizar-nos pela trajectória, pela coragem. E eu tive a sorte de ir aos Estados Unidos para assistir ao Mundial. Isso foi realmente incrível. E lá também foi a mesma coisa. Os brasileiros, os mexicanos, toda a gente nos veio ver. E aí percebemos esta nova atractividade que temos. Ou seja, o Mundo está a olhar para nós, toda a gente se interessa por Cabo Verde — e nós, a diáspora, também”, explicou Izilda de Brito Robalo. O evento reuniu 80 pessoas num hotel nos arredores de Paris e abordou várias formas de participar no desenvolvimento de Cabo Verde e transformar o soft power do país, reforçado com a performance da equipa nacional neste Verão, em investimentos seguros para a diáspora, assim como a divulgação do arquipélago em França. A antiga ministra francesa da Igualdade e alto quadro de grandes empresas, Elisabeth Moreno, marcou presença neste encontro e explicou que Cabo Verde é hoje sinónimo de valores como a resiliência, a coragem ou a capacidade de adaptação e isso, em si, é já uma grande mais valia para Cabo Verde. “Acho que a primeira coisa que mudou foi que a maioria das pessoas que conhecia Cabo Verde — e que não eram cabo-verdianos nem faziam parte da diáspora cabo-verdiana - aqui em França, na maioria conheciam Cabo Verde através da Cesária Évora, ou seja, por através da cultura. E acho que, desde o Mundial de Futebol, Cabo Verde é conhecido pelo Desporto. E um dos aspectos interessantes do desporto é que ele transmite valores extremamente fortes, como a resiliência, a coragem, a capacidade de adaptação. Acho que, se Cabo Verde teve tanto sucesso mesmo sem ter vencido o Mundial, porque transmitiu valores universais. Então, acredito que o olhar dos franceses sobre Cabo Verde mudou e o que mudou para a diáspora, da qual faço parte porque saí de Cabo Verde aos sete anos e tenho uma dupla cultura, é que tínhamos um orgulho modesto. É maravilhoso ter uma dupla cultura. Alguns veem isso como um fardo; nós carregamo-la como uma bandeira. E hoje, podemos afirmar com orgulho quem somos, sem que as pessoas precisem de nos perguntar “mas onde fica Cabo Verde?”, já é algo extraordinário”, detalhou a antiga ministra. Para explicar como o desporto é em si um negócios que pode congregar outros investimentos, Maria Tavares Malfoy, agente desportiva e fundadora da agência AGFM, Africa's Global Football Management, detalhou como Mundial trouxe visibilidade para o futebol africano, assim como a primeira participação de Cabo Verde no CAN feminino. Duas competições que colocaram os holofotes nos atletas africanos, como explica Maria Tavares Malfoy, que é a primeira cabo-verdiana a conseguir a licença FIFA Match Agent, mas também que chama a atenção para a importância do investimento em centros de estágio e academias. "[O Mundial colocou] Não só o holofote nos jogadores africanos, mas também afrodescendentes, que jogam também aqui no Campeonato francês e nos campeonatos europeus. Nós sabemos que os campeonatos europeus são dotados de 80% dos grandes talentos africanos, então já sabemos o peso que os atletas africanos têm. E, obviamente, esse Mundial trouxe visibilidade e os clubes souberam aproveitar. Do outro lado tivemos também o CAN feminino, que aconteceu agora há pouco em Marrocos, com a equipa feminina de Cabo Verde a participar pela primeira vez. E esteve bem porque até empatou com a equipa que ganhou o título. E até tivemos o MVP do jogo. Então, para Cabo Verde foi um primeiro passo e vai continuar a evoluir ainda mais. Uma das atletas que chegou até à final e que ganhou à selecção de Camarões acabou de assinar um contrato de três anos nos Estados Unidos. É uma consequência do trabalho dela e também da evolução do futebol feminino [...] E com isto trazem-se as ideias das infraestruturas, as academias, a boa governação das entidades públicas e das autoridades públicas, tanto em Cabo Verde como nos outros países africanos”. Para quem quer investir a partir da Europa, as barreiras são ainda significativas, especialmente tendo em conta a distância, o facto de Cabo Verde ser um arquipélago e alguns entraves administrativos. Mas mais do que isso, Sidaline Lefebvre Gomes Semedo, da associação Part’ilhas, explica que há também que ajustar expectativas, especialmente quando se nasce em França e se regressa não propriamente ao país onde se nasceu, mas ao país dos nossos pais e dos nossos avós. “Os desafios são de natureza administrativa, é claro, com a alfândega, com a administração, nem que seja só para tratar da documentação do passaporte. Até muito recentemente, era necessário um visto para poder entrar no território, porque, em geral, temos a nacionalidade francesa ou, muitas vezes, temos o passaporte cabo-verdiano que já não está em dia. Então, sim, tudo isso atrasa um pouco as coisas. No que diz respeito à alfândega, é a mesma coisa: enviamos um veículo e com muita frequência, é muito complicado conseguir retirar o veículo da alfândega e simplesmente poder usá-lo. Hoje, na verdade, o desafio é também a nossa própria identidade. Temos de conseguir combinar as duas identidades, já que nascemos em França e muitas pessoas na diáspora cabo-verdiana são só francesas, e precisamos fazer coincidir a forma como resolvemos problemas aqui em França, os nossos hábitos na França, o nosso acesso ao digital aqui e as dificuldades que podem surgir em Cabo Verde. Acho mesmo que há um desafio real no âmbito digital que nos pode facilitar a vida para avançar com possíveis investimentos: desenvolver certas ferramentas que possam melhorar a vida tanto para o país, como para a diáspora quanto para os cabo-verdianos que lá vivem” Após a euforia do Mundial, a diáspora procura agora formas concretas de continuar a participar na construção de Cabo Verde a partir de França.