Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Algumas escolas filosĂłficas gregas exprimiram recortes tĂŁo profundos da existĂȘncia humana que em nossos dias se generalizaram em adjetivos. Quando dizemos que um sujeito Ă© âcĂnicoâ ou âcĂ©ticoâ esquecemos que estas sĂŁo reduçÔes simplistas de doutrinas complexas fermentadas em longas tradiçÔes. âEstoicoâ Ă© popularmente um sujeito rĂgido no cumprimento do dever e imperturbĂĄvel na desgraça. HĂĄ alguma verdade nisso, mas Ă© sĂł a superfĂcie de um universo de ideias. Como todos os descendentes de SĂłcrates, os estoicos buscaram obstinadamente responder uma Ășnica questĂŁo necessĂĄria: como viver uma vida digna de ser vivida? A resposta cĂ©tica levava a um quietismo paralisante; a cĂnica, ao desprezo pela sociedade; a epicurista, ao individualismo hedonista, e nenhuma era compatĂvel com o autocontrole e os sacrifĂcios necessĂĄrios Ă vida coletiva. As religiĂ”es ancestrais jĂĄ nĂŁo cumpriam essa função; as velhas cidades-estado jĂĄ nĂŁo elevavam o ser humano Ă abnegação. Os gregos educados buscaram os consolos para as crises da vida na filosofia e pediram a ela uma visĂŁo de mundo que desse sentido Ă existĂȘncia e uma esperança alĂ©m da morte. O estoicismo foi a Ășltima tentativa da antiguidade de encontrar uma Ă©tica natural, e antecipando nĂŁo sĂł a Ă©tica, mas a teologia do cristianismo, os estoicos conceberam o mundo, a lei, a vida, a alma e o destino em termos de Deus, e definiram a moralidade como um desejo de se render Ă vontade divina. âViver de acordo com a razĂŁoâ, âviver de acordo com a virtudeâ, âviver de acordo com a Naturezaâ e âviver de acordo com Deusâ sĂŁo uma sĂł e mesma coisa. Deus Ă©, como o ser humano, uma matĂ©ria viva; o mundo Ă© seu corpo, a ordem e a lei do mundo sĂŁo sua mente e sua vontade; o universo Ă© um organismo colossal do qual Deus Ă© a alma, o sopro que anima, a razĂŁo que ilumina. O ser humano Ă© para o universo como um microcosmo para um macrocosmo. A felicidade Ă© sĂł o ajuste racional de nossas vontades Ă s leis do universo. O estoico se satisfaz com pouco, aceita sem reclamar as agruras da vida, Ă© indiferente a tudo â a doença e ao prazer; ao oprĂłbrio e Ă fama; Ă liberdade e Ă servidĂŁo; Ă vida e Ă morte â exceto Ă busca pela virtude e Ă aversĂŁo ao vĂcio. Em tese, era uma doutrina monstruosa de uma perfeição isolada, severa, prepotente e implacĂĄvel. Na prĂĄtica, forjou homens de coragem, santidade e boa vontade. Foi a filosofia mais popular do mundo antigo, e a mais versĂĄtil, encarnando-se em figuras tĂŁo dĂspares como, na GrĂ©cia, o fundador ZenĂŁo, um semi-semita rico que trocou a fortuna pela simplicidade, ou o pugilista asiĂĄtico Cleantes; e, em Roma, o estadista CatĂŁo; o escritor SĂȘneca; o escravo Epicteto; ou o imperador Marco AurĂ©lio. Os estoicos fizeram um esforço honesto para erguer uma ponte entre a religiĂŁo e a filosofia; sua doutrina manteve a sociedade antiga Ăntegra atĂ© que uma nova fĂ© viesse animĂĄ-la. ApĂłs a Idade MĂ©dia, influenciaria o cristianismo protestante, especialmente calvinistas e o puritanos, mas tambĂ©m os iluministas, e de todas as escolas antigas, Ă© em nossos dias, mesmo quando no anonimato, a mais influente, seja qualificando manuais de autoajuda, seja instruindo tĂ©cnicas psicoterapĂȘuticas, e nĂŁo hĂĄ por que duvidar que seres humanos de todos os tipos, em todo o mundo, continuarĂŁo a buscar no estoicismo a disciplina e a inspiração para viver a vida digna de ser vivida, atĂ© o final dos tempos. Convidados Aldo Dinucci: professor de filosofia antiga da Universidade Federal do EspĂrito Santo. Eduardo Wolf: professor de filosofia antiga da Universidade de BrasĂlia. Renata Cazarini: professora de letras clĂĄssicas da Universidade Federal Fluminense. ReferĂȘncias Manual de Estoicismo, de Aldo Dinucci. Estoicismo, Ceticismo e Ecletismo. HistĂłria da Filosofia Grega e Romana Vol. VI (Storia dela Filosofia Greca e Romana), de Giovanni Reale. A Vida Estoica (The Stoic Life), de Tad Brennan. Estoicismo (Stoicism), de John Sellars. O Estoicismo (Stoicism), de George Stock. âO compromisso estoicoâ, em HistĂłria da Civilização. Vol. II. A Vida na GrĂ©cia (The Story of Civilization), de Will Durant. âStoicismoâ e outros verbetes na Enciclopedia Filosofica Bompiani. âStoicismâ e outros verbetes na Stanford Encyclopedia of Philosophy. âStoicismâ, entrevista com Angie Hobbs, Jonathan RĂ©e e David Sedley para o programa In Our Time da Radio BBC 4. âStoic Ethicsâ, de Brad Inwood, em The Cambridge History of Hellenistic Philosophy, ed. por K. Algra, J. Barnes et. al. The Cambridge Companion to The Stoics, ed. Brad Inwood Handbook of Greek Philosophy: From Thales to the Stoics. Analysis and Fragments, de Nikolaos Bakalis. A New Stoicism, de Lawrence C. Becker The mutual influence of Christianity and the Stoic school, de James Henry Bryant. Stoic Studies, de A.A. Long. Stoicism: Traditions and Transformations de Steven Strange. The Stoics, Epicureans and Sceptics, de Oswald J. Reichel. Ilustração: Self made man. Escultura de Bobbie Carlyle. Douglas County Library (Parker, Colorado, EUA). Foto (em preto e branco) de Joel A. Rogers (www.coastergallery.com). O post Estoicismo apareceu primeiro em Estado da Arte.