Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Existem livros que sĂŁo como cidades antigas: habitados por geraçÔes, percorridos por caminhos Ăłbvios e veredas secretas. E hĂĄ os que sĂŁo como caravelas em oceanos desconhecidos, onde cada leitor Ă© simultaneamente navegante e vento, rasgando rotas que nĂŁo deixam vestĂgios. Dom Quixote Ă© as duas coisas. Uma histĂłria clara e fresca â acessĂvel atĂ© Ă s crianças â e, ao mesmo tempo, inesgotĂĄvel como as grandes criaçÔes humanas. Paradoxalmente, a força de sua mensagem nasce da leveza de sua execução. Nela, se agitam forças contraditĂłrias: a sĂĄtira e o lirismo; o impulso de desconstrução e o desejo de transcendĂȘncia; o sublime e o ridĂculo. Nascido de uma vida temperada por batalhas, cativeiro, sonhos de grandeza e frustraçÔes ainda maiores, o livro absorveu a irreverĂȘncia das novelas picarescas, a observação psicolĂłgica da filosofia humanista e a crĂtica social do teatro para sintetizar a alma do SĂ©culo de Ouro espanhol, suspensa entre a glĂłria imperial e a melancolia da decadĂȘncia, entre o canto de cisne do cavalheirismo medieval e o alvorecer da civilização burguesa. Mas mais do que retrato de seu tempo, Cervantes forjou um espelho da condição humana. Dom Quixote e Sancho Pança nĂŁo encarnam apenas opostos, mas se complementam numa totalidade simbĂłlica â um, a encarnação do idealismo que se choca com o real; o outro, a do realismo que humaniza o ideal. Sua jornada Ă© uma peregrinação Ă s raĂzes da existĂȘncia, o diĂĄlogo interminĂĄvel da alma consigo mesma: a poesia do sonho e a prosa da realidade; a Ăąnsia do absoluto e o peso do corpo; o cĂ©u estrelado e a estrada poeirenta. Cervantes ri da fantasia sem zombar da esperança; critica a vida, mas abraça sua dignidade, mostrando que, quando hĂĄ paixĂŁo moral, mesmo o delĂrio pode esconder verdades profundas, e, quando nĂŁo hĂĄ, a lucidez pode ser a maior das cegueiras. O riso que desmonta ilusĂ”es, Ă© o mesmo que nos liberta para amarmos o mundo. NĂŁo Ă© Ă toa que esta Ă© a ficção mais popular de todos os tempos e o quarto livro mais vendido do planeta, atrĂĄs apenas de obras confessionais â a BĂblia, o CorĂŁo, o Livro Vermelho de Mao TsĂ©-Tung. NĂŁo hĂĄ uma Ășnica vida que se queira humana sem trazer em si algo de uma aventura quixotesca; um sĂł coração que nĂŁo se recuse a reduzir a vida apenas ao que Ă© visĂvel. Com seu Cavaleiro da Triste Figura, Cervantes deu carne ao arquĂ©tipo universal do homem que luta pelo impossĂvel, e cravou no coração da humanidade uma interrogação que jamais serĂĄ calada â o que Ă© mais louco: sonhar um mundo melhor ou se conformar ao mundo como ele Ă©? Convidados Erivelto Carvalho: Professor de Literatura Espanhola da Universidade de BrasĂlia e co-autor de Os IbĂ©ricos: HistĂłria, Liberdade e Literatura. JosĂ© Luis Martinez Amaro: Professor de Literatura Espanhola da Universidade de BrasĂlia e coordenador do grupo de pesquisa âRetĂłrica e historiografia na literatura hispĂąnicaâ. Maria Augusta da Costa Vieira: Professora de Literatura Espanhola da Universidade de SĂŁo Paulo e autora de Dom Quixote: A Letra e os Caminhos. ReferĂȘncias Dom Quixote: A Letra e os Caminhos; Cervantes Plural; e A narrativa Engenhosa de Miguel de Cervantes: Estudos Cervantinos e Recepção do Quixote no Brasil, de Maria Augusta da Costa Vieira. Vida de Dom Quixote e Sancho (Vida de Don Quijote y Sancho), de Miguel de Unamuno. âMiguel de Cervantesâ em O CĂąnone Ocidental (The Western Canon), de Harold Bloom. LiçÔes sobre Dom Quixote (Lectures on Don Quixote), de Vladimir Nabokov. âDulcineia Encantadaâ, em Mimesis de Erich Auerbach. Cervantes em âAntibarrocoâ, CapĂtulo VI, do Volume II da HistĂłria da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux. El Pensamiento de Cervantes, de AmĂ©rico Castro. Don Quichotte, de Paul Hazard. Cervantes o la crĂtica de la lectura, de Carlos Fuentes. The Man Who Invented Fiction: How Cervantes Ushered in the Modern World, de William Egginton. AproximaciĂłn al Quijote, de MartĂn de Riquer. Cervantesâ Don Quixote: A Casebook, ed. por Roberto GonzĂĄlez EchevarrĂa. Cervantes y su Ă©poca, de R. LeĂłn MĂĄinez. Miguel de Cervantes Saavedra, de J. Fitzmaurice-Kelly. Cervantes y su obra, de A. Bonilla y San MartĂn. Don Quijote als Wortkunstwerk, de H. Hatzfeld. Sobre la gĂ©nesis del Don Quijote, de J. MillĂ© JimĂ©nez. La invenciĂłn del Don Quijote em de M. Azaña. Cervantes, de R. Rojas. Cervantes, de A.F.G. Bell. Sentido y forma del Don Quijote, de J. Casalduero. IntenciĂłn y silencio en el Quijote, de R. Aguilera. âDom Quixoteâ. EpisĂłdio do programa Literatura Universal com Maria Augusta da Costa Vieira. âDon Quixoteâ, episĂłdio do programa In Our Time, da Radio BBC 4. Don Quijote y Cervantes em RNE, coleção de produçÔes radiofĂŽnicas da RNE espanhola. âCervantes y la leyenda de Don Quijoteâ, documentĂĄrio da RTVE. âUn Ă©tĂ© avec Don Quichotteâ e âMiguel de CervantĂšsâ, sĂ©ries da Radio France. âCervantesâ Don Quixoteâ, curso de Roberto GonzĂĄlez EchevarrĂa na plataforma Yale Open Courses. âAudios magistrales para entender el Quijoteâ, sĂ©rie de podcasts de JesĂșs G. Maestro. âDon Quixoteâ. EpisĂłdio do podcast The Great of Literature Books. âDon Quixote: The First Modern Novelâ, episĂłdio do podcast The Pillars: Jersualem, Athens, and the Western Mind. âThe Man Behind the Curtain: âDon Quixoteâ by Miguel de Cervantesâ. EpisĂłdio do podcast Close Readings. Ilustração: Esboço de Pablo Picasso (1955. Fonte: Wikimedia Commons) O post Dom Quixote apareceu primeiro em Estado da Arte.