Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Seja qual for a sua espiritualidade, imagine o ritual que mais eleva o seu coração. Pense tambĂ©m na celebração cĂvica que mais excita suas paixĂ”es patriĂłticas. Agora, imagine uma cĂșpula geopolĂtica â com chefes de Estado, embaixadores e suas delegaçÔes. Um festival cultural â com arquitetura monumental, galerias de esculturas, rĂ©citas de poetas e filĂłsofos, mĂșsica, dança, truques de mĂĄgica. Acrescente uma feira de mercadores e inventores. Agora, coloque tudo isso sob o mesmo sol, e, bem no centro, atletas nus em competiçÔes de alta performance. Pronto, agora vocĂȘ tem um vislumbre do que eram os jogos olĂmpicos na GrĂ©cia Antiga. A disputa foi a quintessĂȘncia da vida grega, o combustĂvel de sua cultura. As cidades competiam entre si em leis e instituiçÔes; os poetas, em versos; os filĂłsofos, em argumentos. HesĂodo desafiou Homero. Ăsquilo e SĂłfocles concorriam nos festivais teatrais de DionĂsio. XenĂłfanes contestava os poetas; SĂłcrates, os sofistas; os estoicos, epicuristas e cĂ©ticos contestavam uns aos outros. A historiografia de HerĂłdoto nasceu da guerra contra os persas e a de TucĂdides da guerra entre Esparta e Atenas. A democracia era uma arena onde cidadĂŁos disputavam o poder pela força da palavra. Os espaços de treino e disputas fĂsicas foram sublimados e hoje consagram os nomes de nossas instituiçÔes culturais e educacionais: as palestras, a academia, os liceus, o ginĂĄsio. Mas se o espĂrito agĂŽnico dos helĂȘnicos foi destruição criativa, foi tambĂ©m criação destrutiva, que os impediu de forjarem uma nação, os mergulhou em guerras fratricidas e levou Ă sua capitulação sob potĂȘncias estrangeiras. A polĂtica dividia as cidades gregas, a religiĂŁo fracassou em uni-las â mas o esporte conseguiu. Nos jogos, o conflito se transformava em espetĂĄculo e a rivalidade em celebração. Guerras eram suspensas pela trĂ©gua sacrossanta; caravanas atravessavam mares e montanhas; e a GrĂ©cia, eternamente dilacerada, conhecia por instantes a comunhĂŁo. Sob o calor e a poeira de OlĂmpia, sacrifĂcios e procissĂ”es conviviam com o ruĂdo das corridas, o brilho das armaduras, o sangue e o suor das lutas. Menandro resumiu a cena em cinco palavras: âmultidĂŁo, feira, acrobatas, entretenimento, ladrĂ”esâ. Os jogos foram um microcosmo da cultura helĂȘnica e tambĂ©m sua apoteose; o ponto de fusĂŁo entre arte, polĂtica e fĂ©, onde a GrĂ©cia nĂŁo sĂł reverenciava os deuses, mas celebrava o vigor humano. O atleta grego era uma encarnação do equilĂbrio cĂłsmico, um sacerdote do corpo. A coroa de oliveira, rĂșstica e efĂȘmera, valia mais que qualquer tesouro, porque simbolizava a consagração do indivĂduo diante da eternidade â e a santificação da alegria coletiva. Os gregos humanizaram os deuses para divinizar os homens. E os jogos os treinavam nessa pedagogia da glĂłria, ensinando-os a vencer sem soberba e a perder com dignidade, e os imergiam numa teologia do jĂșbilo, unindo a religiĂŁo e o prazer, a guerra e a dança, o esforço e a graça, a beleza e o bem â o corpo esculpido pelo exercĂcio e a alma disciplinada pela virtude. Convidados Delfim LeĂŁo: Professor de Estudos ClĂĄssicos da Universidade de Coimbra. Gilberto da Silva Francisco: Professor de HistĂłria Antiga na Universidade Federal da SĂŁo Paulo. Nuno SimĂ”es Rodrigues: Professor de Letras ClĂĄssicas da Universidade de Lisboa. ReferĂȘncias O EspĂrito OlĂmpico no Novo MilĂȘnio, coordenação de Francisco Oliveira. A Brief History of the Olympic Games, de David C. Young Olympia. Robin Waterfield. Los Juegos Olimpicos y el Deporte em GreciaI, de Fernando GarcĂa Romero. The Olympic Games. The First Thousand Years, de M.I. Finley e H.W. Pleket. Olympia. The Classical Hellenic City-State Culture, de Thomas Heine Nielsen. âA ascensĂŁo da GrĂ©ciaâ, em A HistĂłria da Civilização. V. II. A Vida da GrĂ©cia, de Will Durant. âAncient Olympicsâ. DocumentĂĄrio do History Channel. âOlimpĂadasâ, no podcast HistĂłria em Meia Hora. âThe Olympic Gamesâ, em The Games Odyssey Podcast. âOrigins of the Olympicsâ, no podcast The Ancients. O post Os Jogos OlĂmpicos na GrĂ©cia Antiga apareceu primeiro em Estado da Arte.