Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Responda rĂĄpido: qual peça de Shakespeare lhe vem primeiro Ă cabeça? Ou qual citação: âSer ou nĂŁo serâ? âHĂĄ mais coisas entre o cĂ©u e a terra do que sonha a nossa vĂŁ filosofiaâ? âO resto Ă© silĂȘncioâ? Ou qual a primeira cena: um jovem de preto interpelando uma caveira? SerĂĄ coincidĂȘncia que por trĂĄs de tudo isso repouse um Ășnico nome? Hamlet Ă©, de todas as obras do teatro moderno, a que exerce o fascĂnio mais persistente â e implacĂĄvel. A tragĂ©dia do prĂncipe dilacerado entre a reflexĂŁo e a ação atravessa os sĂ©culos como um espelho oblĂquo, turvo, fissurado da condição humana, onde cada Ă©poca descobre suas prĂłprias inquietaçÔes e conjura seus prĂłprios fantasmas. A peça desafia toda classificação. Ă, a um tempo, drama familiar, meditação existencial, thriller polĂtico, crĂtica social e uma reflexĂŁo sobre o teatro e o prĂłprio ato de representar. Ă intriga de corte, mas tambĂ©m metafĂsica do ser. Ă paralisia excruciante numa espiral de choques e rupturas. No coração do drama pulsa nĂŁo sĂł um vingador hesitante, mas um palco povoado por mĂĄscaras, danças macabras, jogos de aparĂȘncia e silĂȘncios perturbadores. Entre o espectro do pai assassinado, a mĂŁe desposada pelo assassino, um amor despedaçado, amizades fraudulentas e uma carnificina apoteĂłtica, o prĂncipe da Dinamarca â soturno, sardĂŽnico, sagaz â se move num labirinto de espelhos como um ator de si mesmo â ensaiando açÔes, testando palavras, pensando alto diante do abismo e transmutando a dĂșvida em imagens lĂricas de alta voltagem. Com sua tapeçaria de temas â a loucura e a razĂŁo, a justiça e o crime, a fantasia e a verdade, a corrupção do poder e a fragilidade da vida â, nenhum outro drama entrelaça com tanta densidade a inquietação filosĂłfica e a paixĂŁo poĂ©tica. Entre os solilĂłquios torturantes e o sarcasmo dos bobos, nĂŁo sĂł transbordam os dilemas do herĂłi, mas a consciĂȘncia moderna em ebulição. De Montaigne a Nietzsche, de Freud a Camus, Hamlet antecipa temas arquetĂpicos de nossa cultura: o âgĂȘnio melancĂłlicoâ do romantismo, a âangĂșstia da escolhaâ existencialista, os âcomplexos neurĂłticosâ da psicanĂĄlise. Se Hamlet Ă© um enigma, Ă© tambĂ©m um espelho â e uma ferida. O que nele hesita, pensa. O que nele pensa, sangra. E o que sangra, pergunta. Pergunta como sĂł a poesia sabe perguntar: sem esperar resposta â mas com a estranha esperança de que o ato de falar ainda possa nos redimir. Convidados JosĂ© Francisco Hillal Botelho: escritor, poeta, crĂtico e tradutor de Shakespeare. Fernanda Medeiros: professora de Literatura Inglesa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e co-organizadora de O que vocĂȘ precisa saber sobre Shakespeare antes que o mundo acabe. Liana LeĂŁo: professora de Literatura Inglesa da Universidade Federal do ParanĂĄ e co-organizadora de O que vocĂȘ precisa saber sobre Shakespeare antes que o mundo acabe. ReferĂȘncias O que vocĂȘ precisa saber sobre Shakespeare antes que o mundo acabe, org. F. Medeiros e L. LeĂŁo. Shakespearean Tragedy (TragĂ©dia Shakespeariana), de A.C. Bradley Hamlet in Purgatory, de Stephen Greenblatt. Shakespeare: The Invention of the Human (Shakespeare: A Invenção do Humano) e Hamlet: Poem Unlimited (Hamlet: Poema Ilimitado), de Harold Bloom. Shakespeare Our Contemporary (Shakespeare, Nosso ContemporĂąneo), de Jan Kott Methuen. Hamlet and Oedipus (Hamlet e o Complexo de Ădipo), de Ernest Jones. What Happens in Hamlet, de J. Dover Wilson. âHamlet and His Problemsâ, em The Sacred Wood, de T.S. Eliot. The Cambridge Companion to Shakespeare (Guia Cambridge de Shakespeare), ed. por Emma Smith. âHamletâ, entrevista para o programa In Our Time da rĂĄdio BBC 4. Discovering Hamlet, documentĂĄrio de Lyndy Saville. Falando de Shakespeare e Shakespeare: o que as obras contam, de Barbara Heliodora. âHamletâ, The Play Podcast. âHamletâ, podcast Shakespeare for All. Hamlet e a filosofia, de Pedro SĂŒssekind. Ilustração: gerada por IA. O post Hamlet apareceu primeiro em Estado da Arte.