Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Quando o visigodo Alarico saqueou Roma 66 anos antes da queda de seu Ășltimo imperador, Romulus Augustus â nome composto ironicamente pelos do primeiro imperador e do fundador de Roma â, SĂŁo JerĂŽnimo lamentou âa extinção da luz mais resplandecente de toda a Terraâ, quando âo ImpĂ©rio perdeu sua cabeçaâ e âo mundo pereceu em uma cidadeâ. Um sĂ©culo antes, LactĂąncio afirmava que o mundo pode acabar rĂĄpido, mas nĂŁo hĂĄ nada a temer enquanto a cidade de Roma permanecer intacta. Desde entĂŁo, as invasĂ”es bĂĄrbaras viraram o arquĂ©tipo da brutalização da vida civilizada, o âDeclĂnio e Queda do ImpĂ©rioâ, na fĂłrmula proverbial de Gibbon. PorĂ©m, como ele descreveu, o ImpĂ©rio sĂł caiu 1.000 anos depois em Constantinopla. Das letras e dos letrados resgatados de lĂĄ, a ItĂĄlia concebeu o Renascimento, dando Ă luz a modernidade, em que o espĂrito de Roma inspiraria desde as artes clĂĄssicas Ă s polĂticas republicanas, e hoje, como sempre, multidĂ”es de catĂłlicos sĂŁo lideradas Urbi et Orbi pelo bispo da Cidade Eterna. Para os iluministas inebriados de classicismo, a sua queda foi o mergulho na âIdade das Trevasâ. Mas nĂŁo seria a Idade MĂ©dia uma idade de luz? A engenhosidade arquitetĂŽnica de suas catedrais gĂłticas Ă© mais fulgurante que qualquer maquinação romana para copiar os gregos; seus cavaleiros se bateriam aos maiores centuriĂ”es; seus escolĂĄsticos inventaram a universidade; seus poetas, o romance, e, do menor deles, surgiu talvez o mais sĂŁo dos santos, Francisco. O Sacro ImpĂ©rio Romano-GermĂąnico, gestado numa noite de Natal pelo papa na basĂlica de SĂŁo Pedro com a coroação do rei franco Carlos Magno, imperou mil anos atĂ© ser esmagado sob a bota do imperador francĂȘs NapoleĂŁo. As Letras latinas sĂŁo belas, bĂĄrbaras, mas sua lĂngua morta sĂł frutifica barbarizada em pedaços nas nossas lĂnguas romĂąnicas. NĂŁo Ă© Ă RepĂșblica romana que a Inglaterra tributa seu parlamentarismo democrĂĄtico e sua monarquia constitucional, mas Ă s ligas tribais de celtas, anglos, saxĂ”es, bretĂ”es, normandos. A consciĂȘncia e a arte germĂąnicas sĂŁo povoadas dessas bestas loiras que Nietzsche amava: Thor, Siegfried, Artur, Parsifal, TristĂŁo, Isolda. Para Hegel, esse povo consumava a apoteose do EspĂrito Divino, inaugurando o impĂ©rio da verdade e da liberdade para o Universo. As igrejas protestantes, as naçÔes e Estados europeus, nosso Novo Mundo americano â alĂ©m dos eslavos, a RĂșssia, sua revolução, sua literatura, sua religiĂŁo ortodoxa herdada do ImpĂ©rio romano dos gregos em BizĂąncio junto com o mito messiĂąnico da Terceira Roma â, nada existiria como conhecemos nĂŁo fossem os bĂĄrbaros. Nem sĂł legiĂ”es de Conans, vĂąndalos e valquĂrias, nem cosmopolitas nĂłrdicos, eram muitas vezes tribos civilizadas fugindo de tribos bestiais, ora abatendo Roma, ora se abrigando nela, ora combatendo seus invasores. O que conquistaram afinal? A morte de uma esplĂȘndida civilização carcomida? Sua ressurreição pela barbĂĄrie? E o que revelam em nosso tempo de âinvasĂ”es verticais dos bĂĄrbarosâ e âtribos globaisâ e rebeliĂ”es das massas de imigrantes e refugiados â como o foram, aliĂĄs, os pais de Roma, bastardos selvagens como RĂŽmulo e Remo e hordas asiĂĄticas como os troianos de Eneias, o piedoso? Convidados Adrien Bayard: doutor em HistĂłria Medieval pela Universidade de Sorbonne em Paris. Marcelo CĂąndido: professor de HistĂłria Medieval na Universidade de SĂŁo Paulo Renato Viana Boy: professor de HistĂłria Antiga e Medieval na Universidade Federal da Fronteira do Sul. ReferĂȘncias The Early Slavs: Culture and Society in Early Medieval Eastern Europe de Paul Barford. Myth of Nations. The Medieval Origins of Europe de Patrick Geary. La Formation de lâEurope et les invasions barbares, vol. I : Des origines germaniques Ă lâavĂšnement de DioclĂ©tien de Ămilienne Demougeot. Die Goten de Wolfgang Giese. The New Cambridge Medieval History, Vol. 1: c. 500 â c. 700 ed. por Paul Fouracre. Barbarian Migrations and the Roman West, 376â568 de Guy Halsall. Romeâs Gothic Wars: from the third century to Alaric de Michael Kulikowski. Barbarian Tides: The Migration Age and the Later Roman Empire de Walter A. Goffart. Die UrsprĂŒnge Europas. Migration und Integration im frĂŒhen Mittelalter de Verena Postel. Romans and Barbarians de Edward A. Thompson. Les Invasions barbares de Pierre RichĂ© et Philippe Le MaĂźtre. Medieval Europe â A Short History de Judith M. Bennett e C. Warren Hollister Ilustração: A Batalha de Ludovisi. SarcĂłfago romano (c. 250-260 d.C.) Produção tĂ©cnica: AfrĂąnio Cruz. Gravação original 22 de outubro de 2018 O post As invasĂ”es bĂĄrbaras apareceu primeiro em Estado da Arte.