Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts No ano de 793 depois de Cristo, os cĂ©us do litoral norte da Inglaterra se encheram de relĂąmpagos, tornados e dragĂ”es, entĂŁo se seguiu uma grande fome, e finalmente âhorrendas incursĂ”es de pagĂŁos destruĂram a igreja de Deus na ilha de Lindisfarne com roubos e massacres ferozesâ. Foi assim, ao menos segundo as crĂŽnicas anglo-saxĂŁs, que os vikings inauguraram trĂȘs sĂ©culos de invasĂ”es, conquistas e colonizaçÔes. AtĂ© hoje os vemos como guerreiros super-masculinos navegando em navios em forma de dragĂŁo com capacetes com chifres, peles de animais e machados reluzentes em busca de saques, assaltos, pilhagens, estupros, sequestros, chacinas, escravizaçÔes. Assim como nossa sociedade mantĂ©m uma relação ambĂgua com a violĂȘncia, somos a um tempo atraĂdos e repelidos pelos vikings. Simpatizamos com suas vĂtimas, mas admiramos sua força, coragem e virilidade, e, de um modo geral, prevalece a imagem positiva da jovialidade, ousadia, aventura e exploração. Com efeito, os vikings batalharam da Inglaterra e França atĂ© Portugal e Espanha; navegaram por rios do BĂĄltico ao Mar Negro; comercializaram em Constantinopla e BagdĂĄ, conectando-se com a China e a Ăndia atravĂ©s da Rota da Seda; colonizaram a IslĂąndia; e exploraram a AmĂ©rica 500 anos antes de Colombo. Eles aterrorizaram os povos medievais, mas tambĂ©m catalizaram grandes transformaçÔes culturais, religiosas e polĂticas. A destruição criativa detonada na EscandinĂĄvia teve um carĂĄter caleidoscĂłpico. Considere Cnut, o Grande, que foi rei da Dinamarca, Noruega, Inglaterra e parte da SuĂ©cia. Ou Harald Hardrada (literalmente, âo DurĂŁoâ), filho do rei da Noruega; meio-irmĂŁo de Olaf, o Santo; genro de Yaroslav, o SĂĄbio, da RĂșssia; cunhado dos reis da Hungria e da França; exilado, pirata, poeta, mercenĂĄrio, general do ImpĂ©rio Bizantino, que lutou no mediterrĂąneo, reconquistou seu trono e quase subjugou a Inglaterra. Aos poucos, os chefes tribais escandinavos foram se tornaram sĂșditos de reis e fiĂ©is da Igreja universal. Quando os conquistadores foram conquistados pela fĂ© de monges e freiras, a era viking acabou e nasceram os reinos da Dinamarca, SuĂ©cia e Noruega. Mas seus descendentes na Normandia conquistaram a Inglaterra e a SicĂlia; e suas dinastias em Kiev inauguraram aquela que se tornaria a maior nação do planeta: a RĂșssia. E a mistura de masculinidade, aventura e coragem em suas sagas e mitos continuam a energizar nosso imaginĂĄrio, das Ăłperas de Wagner aos romances de Tolkien, de filmes a sĂ©ries e videogames. Como os vikings se tornaram o primeiro povo prĂ©-moderno a matar e morrer nos quatro continentes? O que a sua jovialidade expansiva tem a ver com a introversĂŁo torturante de um Hamlet ou um Kierkegaard? E como os descendentes desses bĂĄrbaros ferozes construĂram naçÔes que hoje sĂŁo modelos exemplares de regimes social-democratas igualitĂĄrios, civilizados e pacĂficos? Convidados HĂ©lio Pires: pesquisador do Instituto de Estudos Medievais da Universidade Nova de Lisboa e autor de No Tempo dos Vikings. Lukas Grzybowski: professor de HistĂłria Medieval da Universidade Estadual de Londrina e autor de The Christianization of Scandinavia in the Viking Era. Santiago Barreiro: professor de HistĂłria Medieval da Universidade de Buenos Aires e tradutor das sagas nĂłrdicas. ReferĂȘncias âVikingsâ em HistĂłria da Civilização. Vol. IV. A Idade da FĂ© (The Story of Civilization), de Will Durant. Vikings: A histĂłria definitiva dos povos do norte (Children of Ash and Elm: a history of the Vikings, de Neil Price. Mitos do norte pagĂŁo: Os deuses dos nĂłrdicos, de Christopher Abram. Os Mitos NĂłrdicos: Um guia para os deuses e herĂłis, de Carolyne Larrington. O livro da mitologia nĂłrdica, de John Lindow. The Cambridge History of Scandinavia. Vol. 1. From Prehistory to 1520, ed. por Knut Helle. âVikingsâ em Medieval Europe. A Short History, de J.M. Bennett e W.C. Hollister. The Vikings, de Else Roesdahl. The Viking World, org. por S. Brink e N. Price. The Vikings. A Very Short History, de Julian D. Richards. The Age of Vikings, de Anders Winroth. The Norsemen in the Viking Age, de Eric Christiansen. The Vikings in History de F. Donald Logan. The Cambridge Introduction to the Old Norse-Icelandic Saga, de M. Clunies-Ross. Eso no estaba en mi libro de Historia de los vikingos, de Losquino Garcia. The Hammer and the Cross, de Robert Ferguson. A History of the Vikings, de Gwyn Jones. Ancient Scandinavia. An Archeological History from First Humans to the Vikings, de Douglas T. Price. The Routledge Research Companion to the Medieval Icelandic Sagas, ed. por A. Jakobsson e S. Jakobsson. A Companion to Old Norse-Icelandic Literature and Culture, ed. por Rory McTurk The Rise of the Scandinavian Kingdoms from the Vikings to the Reformation, de Sverre Bagge. Scandinavia in the Age of Vikings, de JĂłn Viðar Sigurðsson e Thea Kveiland. Scandinavia in the Middle Ages 900-1550: Between Two Oceans, de Kirsi Salonen e Kurt Villads Jensen. A History of the Vikings, de T.D. Kendrick. Nordens historia: en europeisk region under 1200 Ă„r. de Harald Gustafsson. Ilustração: Drakkars vikings criados por InteligĂȘncia Artificial. O post Os Vikings apareceu primeiro em Estado da Arte.