Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Quando o jovem francĂȘs Alexis de Tocqueville viajou aos Estados Unidos, em 1831, o Antigo Regime estava em decomposição, mas a rigor nĂŁo havia democracias no mundo. Mesmo os governantes americanos eram eleitos por uma elite diminuta. Filho de uma aristocracia moribunda, visionĂĄrio de uma democracia embrionĂĄria, Tocqueville nĂŁo amava, nem odiava, nem uma nem outra, e pĂŽde julgĂĄ-las com um olhar desapaixonado. Nem apologista da democracia, nem seu crĂtico reacionĂĄrio, na AmĂ©rica ele viu a marcha irresistĂvel do igualitarismo moldando nĂŁo sĂł as leis e instituiçÔes, mas os costumes e a alma coletiva, para o bem, mas tambĂ©m para o mal. Entre os riscos que a democracia trazia em seu ventre, ele diagnosticou os males do individualismo e do materialismo; do conformismo e da apatia polĂtica, de um lado, e do fanatismo sectĂĄrio e da tirania da maioria, de outro; do atomismo social e do monismo estatal. âDesejo imaginar sob quais novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundoâ, disse Tocqueville, âe vejo uma inumerĂĄvel multidĂŁo de homens semelhantes e iguais, que sem descanso giram em torno de si mesmos, a fim de se proporcionarem pequenos e vulgares prazeres com que enchem a alma; cada um, isolando-se parte Ă parte, como que estranho ao destino dos demais. ⊠Acima de todos, eleva-se um poder imenso e tutelar, Ășnico a encarregar-se de lhes assegurar seus gozos e velar sobre sua sorte. Ă absoluto, detalhado, regular, previdente e suave. Seria semelhante ao poder paternal se, como este, tivesse por objeto preparar os homens para sua idade viril, mas, pelo contrĂĄrio, procura apenas fixĂĄ-los irrevogavelmente na infĂąncia. ⊠Se pudesse, lhes suprimiria inteiramente atĂ© a preocupação de pensar e a dificuldade de viver!â Mas Tocqueville foi salvo do ceticismo por sua fĂ© polĂtica na liberdade, e do pessimismo por sua fĂ© religiosa no cristianismo. Com o mesmo vigor com que denunciou as patologias da democracia, apontou os seus remĂ©dios: a participação em associaçÔes civis, a imprensa livre, a vitalidade das instituiçÔes locais, a descentralização do poder, a educação cĂvica e sobretudo o freio ao egoĂsmo e motor do altruĂsmo que Ă© a religiĂŁo. Duzentos anos depois, mais da metade dos paĂses do planeta sĂŁo democrĂĄticos e mesmo regimes autocrĂĄticos como a China ou a RĂșssia prestam a homenagem do vĂcio Ă virtude e hipocritamente se proclamam âdemocraciasâ. A obra prima de Tocqueville, a Democracia na AmĂ©rica, teve um valor inestimĂĄvel para compreender a histĂłria passada das democracias. Mas poderĂĄ ainda nos ajudar a decifrar o presente, e, talvez, salvar o futuro? Convidados LĂvia Franco: professora de CiĂȘncia PolĂtica da Universidade CatĂłlica Portuguesa. Roberta Soromenho: professora de CiĂȘncia PolĂtica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rodrigo do Lemos: professor de LĂngua e Literatura Francesa da Universidade Federal Fluminense. ReferĂȘncias As etapas do pensamento sociolĂłgico (Les Ătapes de la PensĂ©e Sociologique), de Raymond Aron. Alexis de Tocqueville: a historiografia como ciĂȘncia da polĂtica, de Marcelo Gantus Jasmin. âA Democracia na AmĂ©ricaâ, em As Grandes Obras PolĂticas (Histoire de la pensĂ©e politique), de Jean-Jacques Chevalier. Os desafios da escrita PolĂtica, de Claude Lefort. O Liberalismo: Antigo e Moderno e O Argumento Liberal, de JosĂ© Guilherme Merquior. HistĂłria Intelectual do Liberalismo (Histoire intellectuelle du libĂ©ralisme) e Tocqueville et la nature de la dĂ©mocratie, de Pierre Manent. Curso de ExtensĂŁo 200 anos de Sociologia (UFJF/SBS) â MĂłdulo I â Alexis de Tocqueville com Roberta Soromenho Nicolete. Curso â200 anos de Sociologiaâ â MĂłdulo I | Alexis de Tocqueville, com Marcelo Jasmim (PUC-Rio). The Cambridge Companion to Tocqueville, editado por Cheryl Welch. âTocqueville: Democracy in Americaâ, entrevista do programa In Our Time, da Radio BBC 4. Quando a polĂtica caminha na escuridĂŁo â interesse e virtude nâA Democracia na AmĂ©rica de Tocqueville, de R.K.S. Nicolete. âAlexis de Tocqueville, âDe la dĂ©mocratie en AmĂ©riqueââ (4 episĂłdios); âTocqueville Ă la dĂ©couverte de la dĂ©mocratieâ; âTocqueville, Ă©ducateurâ e âAlexis de Tocqueville (1805-1859) ou Comment terminer la RĂ©volution?â Programas da Radio France Culture. âThe Strange Liberalism of Alexis de Tocquevilleâ. History of Political Thought, II, de Roger Boesche. âTocquevilleâs âSacred Arkââ, de Aurelian Craiutu, em Araucaria 21 (42), 2019. French Political Thought From Montesquieu To Tocqueville â Liberty In A Levelled Society?, de Annalien de Djin. âNaissance dÂŽun paradigme: tocqueville et le voyage en AmĂ©rique [1825-1831]â, de François Furet. Em Annales 39 (2), 1984. Tocqueville et les langages de la dĂ©mocratie, de Laurence Guellec. Alexis de Tocqueville, de AndrĂ© Jardin. Tocqueville and the two democracies, Jean-Claude Lamberti. Lâidee rĂ©publicaine em France: essai dÂŽhistorie critique, de Claude Nicolet. Liberty, Equality, Democracy, de Eduardo Nolla. Tocqueville between two worlds. The making of a political and theoretical life, de Sheldon Wolin. New French Thought: Political Philosophy, de Mark Lilla. Ilustração: EstĂĄtua da Liberdade em construção. Paris, 1883 (domĂnio pĂșblico). O post âA Democracia na AmĂ©ricaâ de Tocqueville apareceu primeiro em Estado da Arte.