
Criadas ao longo do século XX, diversas emissoras públicas de rádio e de televisão acompanharam o avanço tecnológico e as mudanças de hábitos de ouvintes e telespectadores e expandiram a transmissão de programas para a internet e aplicativos de streaming. As principais organizações de serviço público do mundo criaram também perfis nas redes sociais, inauguraram canais digitais e mantêm sites para interagir com o público e se aproximar da audiência. O uso de ferramentas de inteligência artificial generativa é a questão mais recente no debate sobre o impacto das transformações tecnológicas no setor. Convidados do 1º Congresso Internacional de Emissoras Públicas debateram os novos desafios das organizações de serviço público de comunicação no ecossistema midiático digital. O debate foi mediado por Álvaro Bufarah Júnior, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e coordenador do Grupo de Trabalho de Rádio e Mídia Sonora da Intercom. Bufarah alertou sobre a necessidade de supervisão humana no uso de ferramentas de inteligência artificial (IA): “as ferramentas digitais podem ser muito úteis, pois nós podemos melhorar o texto, facilitar a edição, melhorar a interlocução com as redes sociais. Porém, qual é o ponto em que isso passa a ser um problema? No momento em que nós não checamos [as informações], no momento em que a IA alucina. Porque essas redes alucinam e nos dão informações equivocadas”. Também participou do congresso a chefe de Desenvolvimento de Mídia e Mídia em Emergências da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Mirta Lourenço. A representante da Unesco contou que diversas organizações de serviço público têm adotado ferramentas de IA de forma responsável e crítica; além disso, as empresas mantêm grupos de pesquisa em inteligência artificial para radiodifusão, treinamentos contínuos e compartilham lições e experiências aprendidas. Mirta Lourenço falou também sobre o cenário das emissoras públicas que atuam na América Latina, onde muitas dessas organizações estão subordinadas a autoridades do Estado e não têm autonomia editorial. Para a representante da Unesco, o compromisso das emissoras públicas se expandiu com as novas tecnologias digitais. Mirta argumentou que essas instituições públicas precisam garantir visibilidade para a diversidade de opiniões e também permitir que informações checadas e precisas alcancem o público. As emissoras públicas são aquelas que, ao trazer diversidade de opiniões, diversidade de conteúdo, informações confiáveis e precisas, informações aprofundadas aos cidadãos, permitem que a democracia funcione”, afirmou. Mirta acrescentou ainda que “o desafio mais crucial é nos ajudar a enfrentar os desafios democráticos e sociais que existem no mundo de hoje. Uma forma de enfrentá-los é falar com todos e alcançar a todos. O conteúdo tem que ser diversificado, mas também a estratégia de distribuição tem que ser diversificada”. Outro convidado do evento foi o ex-presidente do Serviço de Comunicação Audiovisual Nacional do Uruguai. Carlos Muñoz contou que as equipes do canal público de televisão e da estação pública de rádio passaram a trabalhar juntas em um processo de convergência na produção. “Nós usamos o conceito de produto audiovisual que funciona na rádio, que pode ser um podcast, pode ser um programa, o que for. Mas começamos a conceber a interação e a sinergia entre os três meios, com o digital como motor de produção. Isso barateou custos. A gestão foi muito mais eficiente, mais rápida, mais dinâmica”, disse Munõz. O chefe da redação brasileira da Rádio França Internacional (RFI), empresa pública do grupo France Médias Monde, também falou sobre a experiência da instituição pública no uso das novas tecnologias digitais. Élcio Ramalho compartilhou a informação de que a RFI está trabalhando para desenvolver uma plataforma própria de IA para ser usada na transformação de programas de televisão, por exemplo, em outros formatos multiplataformas. “O que está sendo discutido agora é criar um ambiente que seja seguro para que todos os jornalistas e os profissionais da empresa possam ter essas práticas de inteligência artificial. Quando a gente tem um programa de televisão, a gente vai cortar um minutinho para divulgar nas redes sociais. Isso a gente pode fazer com inteligência artificial. Existem programas para isso, mas tudo tem que ser feito dentro de um ambiente seguro. Existem regras dentro da União Europeia que as empresas de mídia pública devem obedecer e respeitar”, disse Élcio. Quem fechou os debates do painel foi o editor público da rede de televisão pública dos Estados Unidos, Public Broadcasting Service (PBS). Ricardo Sandoval-Palos defendeu que as organizações precisam construir laços de confiança com o público. Para ele, é preciso manter uma postura de abertura e transparência ao lidar com as preocupações, perguntas e reclamações que os telespectadores trazem sobre a radiodifusão pública. Sandoval-Palos sugeriu descobrir quais os pontos que podem pôr em risco a confiança do público e contou que é em torno disso que ele organiza as colunas que publica periodicamente. O editor público disse ainda que organiza frequentes reuniões abertas para dialogar diretamente com telespectadores da PBS. “Eu procuraria descobrir quais são os pontos que podem pôr em risco nossa confiança. E é em torno disso que eu organizo as minhas colunas e, em seguida, faço audiências públicas em locais específicos em todo o país para interagir diretamente com o nosso público e falar sobre essas questões relacionadas à confiança. Não tanto para dizer a eles o que fazemos e como fazemos, mas para interagir com eles e perguntar ao público, o que vocês precisam? O que não estão recebendo de nós como seu provedor de notícia? Essa é uma parte importante [para a manutenção] da confiança”, concluiu Sandoval-Palos, da PBS. O 1º Congresso Internacional de Emissoras Públicas foi realizado na USP nos dias 21 e 22 de maio de 2025 no campus do Butantã. O evento contou com o apoio da Rede de Rádios Universitárias do Brasil (Rubra) e da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da Rádio e da TV Cultura de São Paulo. A gravação completa do evento está disponível no site do 1º Congresso Internacional de Emissoras Públicas. O Jornal da USP elaborou uma cobertura especial sobre o evento. Sugestão de leitura sobre o tema: Serviço Público de Radiodifusão: um estudo de direito comparado Toby Mendel, Unesco, 2011 "Public broadcasting: why? how?" Conseil Mondial de La Radiotélévision, Unesco, 2001 1º Congresso Internacional de Emissoras Públicas Gravação do evento no site da USP Jornal da USP Cobertura especial sobre o congresso