
Profissionais de organizações de referência da Alemanha, dos Estados Unidos, do Reino Unido e do Brasil discutiram como fortalecer a conexão da audiência com as instituições de serviço público de comunicação no último painel de debates do 1º Congresso Internacional de Emissoras Públicas, sediado pela USP em maio. A professora da Escola de Comunicação da American University/EUA Patricia Aufderheide mediou o painel. Ela contou que as emissoras públicas locais nos Estados Unidos promovem sessões abertas de discussão de documentários sobre temas relevantes na comunidade para engajar o público em busca de soluções compartilhadas. A professora Patricia enfatizou que os serviços públicos utilizam a palavra “engajamento” em um sentido diferente das empresas comerciais, que a adotam no sentido de traçar estratégias para vender mais produtos para os usuários. “Esse não é o tipo de engajamento de que estamos falando hoje”, pontuou a professora. Patricia integra a corporação Independent Television Service (ITVS), que faz parte da estrutura da radiodifusão pública norte-americana. A ITVS produz documentários que são exibidos pela rede pública de televisão dos Estados Unidos, a Public Broadcasting Service (PBS). “Os cineastas que co-produzem com a ITVS produzem documentários para engajar o público e [incentivar] a participação democrática”, contou a professora. Também estava na conferência Erika Pulley-Hayes, gerente-geral da WAMU, emissora que compõe a rede pública de rádio dos Estados Unidos, a National Public Radio (NPR). A WAMU é a emissora líder de audiência na região de Washington/DC há 3 anos consecutivos. A WAMU passou a organizar eventos abertos para estreitar o vínculo com o público. “Fazemos muitas outras coisas além de transmitir. Uma das estratégias que implementamos há cerca de um ano foi realizar mais eventos com o público que queremos atrair. Temos um público muito fiel, que nos acompanha há décadas”, disse a gerente-geral da WAMU. Como diversas emissoras públicas locais dos Estados Unidos, a WAMU conta com um conselho consultivo comunitário, formado por ouvintes. Os membros do conselho comunitário se reúnem periodicamente na sede da emissora e dão sugestões sobre os programas para a direção. Na Alemanha, a Associação de Empresas Públicas de Radiodifusão (ARD) adotou estratégias para dar mais transparência ao trabalho da equipe nos últimos anos. A ARD tem se empenhado para estabelecer um diálogo mais direto com o público, contou a jornalista Anne Herrberg, correspondente da ARD na América do Sul. Anne disse que ela e diversos jornalistas da ARD participam de encontros com escolas e há vários canais para o público fazer contato com a equipe. “A gente está fazendo muitos programas também em diferentes lugares, indo para diferentes cidades e municípios. Assim, tentando mostrar que nós não somos jornalistas que ficam em um palácio e que falam sem escutar”, afirmou Anne. A ARD foi fundada logo após a Segunda Guerra Mundial, inspirada no modelo da organização pública britânica, a British Broadcasting Corporation (BBC). A organização alemã é atualmente uma das maiores empresas prestadoras de serviço público de comunicação da Europa e conta com um alto índice de confiança do público. O diretor de redação da BBC Brasil em Londres Caio Quero também participou do congresso e destacou o papel do serviço público para oferecer informações de qualidade com independência e autonomia. O jornalista argumentou que o serviço é fundamental especialmente para realizar coberturas jornalísticas em regiões onde as empresas privadas não têm interesse em investir. Caio Quero citou como exemplos a cobertura feita pelo Serviço Mundial da BBC sobre os conflitos em Gaza e no Sudão. ”O Serviço Mundial da BBC é um bom exemplo de como um veículo público pode ir além dos interesses comerciais, dos interesses simplesmente empresariais - que legitimamente os outros veículos têm. Mas algumas pessoas não têm a capacidade de pagar e, por isso, a gente tem que estar lá”, defendeu Caio Quero. O então diretor de programação da TV Cultura Eneas Carlos Pereira destacou o papel que as emissoras públicas precisam cumprir e colaborar para o bom funcionamento da democracia. E falou sobre os desafios para alcançar o público no atual ecossistema midiático. “A nossa obrigação, como profissionais da comunicação pública, é de repensarmos a forma como a gente chega ao grande público”, argumentou Pereira. O 1º Congresso Internacional de Emissoras Públicas foi realizado na USP nos dias 21 e 22 de maio de 2025. O evento contou com o apoio da Rede de Rádios Universitárias do Brasil (Rubra) e da Fundação Padre Anchieta (Rádio e TV Cultura). A gravação completa do congresso está disponível na página do evento. Sugestão de leitura sobre o tema: Serviço Público de Radiodifusão: um estudo de direito comparado Toby Mendel, Unesco, 2011 "Public broadcasting: why? how?" Conseil Mondial de La Radiotélévision, Unesco, 2001 1º Congresso Internacional de Emissoras Públicas. Gravação do evento no site da USP Jornal da USP Cobertura especial sobre o congresso Vozes de Londres: Memórias Brasileiras da BBC Livro de Laurindo Lalo Leal Filho, Editora Edusp, 2008.