Na coluna desta quarta-feira (03), Atílio Bari compartilha sua perplexidade diante dos acontecimentos que marcam a vida pública brasileira. Entre crises na política, na economia, na segurança, na saúde e na educação, prevalece a sensação de que “tudo que deveria ser sólido vai se desmanchando no ar”. O resultado seria uma espécie de anestesia coletiva diante de escândalos, injustiças e desvios, enquanto a maior parte da população segue tentando sobreviver entre dívidas, promessas de renda fácil e expectativas cada vez mais modestas. A reflexão conduz à obra “Ascensão e queda da cidade de Mahagonny”, escrita pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht em 1930. Na peça, um grupo funda uma cidade onde praticamente tudo é permitido, exceto uma coisa: não ter dinheiro. “Lá não existe a justiça, não existe a solidariedade, não existe o bem comum.” Ao longo da trama, são revelados crimes graves cometidos por pessoas que possuem recursos financeiros, enquanto a pobreza se transforma no único delito imperdoável. A indiferença coletiva diante dessas distorções é um dos elementos centrais da crítica social. Ao relacionar a ficção de Brecht com a realidade brasileira, o autor afirma ter a impressão de que “os condutores dessa carruagem chamada Terra Brasilis viram uma placa indicando o rumo para Mahagonny, e apontaram os cavalos nessa direção”. Ao final, ele recomenda a leitura da obra, lembrando que a história não trata apenas da ascensão de uma cidade, mas também de sua queda.