
A França tem vivido um verão inédito, com uma sucessão de cinco ondas de calor que se traduziram por 52 dias com temperaturas próximas ou acima dos 40 graus em praticamente todo o território. Segundo a agência nacional 'Météo-France', 2026 é desde já considerado -de longe- o ano com mais dias de altas temperaturas desde 1947, altura em que se começou a recolher esses dados. Isto traduz-se por uma estiagem generalizada com consequências nomeadamente para a agricultura. Há dias, o governo francês disse que iria anunciar em Setembro um plano de ajuda para os agricultores que foram colocados sob pressão nestas últimas semanas e cujos rendimentos estão a ser afectados. Num âmbito mais geral, o acesso à água potável é mais raro, com o caudal dos rios a baixar. Esta semana, 93 distritos foram submetidos a restrições na utilização da água, sendo que na semana passada, 40 mil pessoas chegaram inclusivamente a conhecer cortes no seu fornecimento. Uma situação perante a qual se torna mais premente a questão do abastecimento em água nas próximas semanas, com todas as consequências que isto acarreta, tanto no sector da agricultura, como no sector dos transportes, da energia ou ainda em termos ambientais. Questões que abordamos com Richard Tavares, consultor de projectos na Agência Europeia de Investigação (REA). RFI: Qual é a principal consequência destas sucessivas ondas de calor aqui em França? Richard Tavares: A consequência principal é sobretudo a retenção da água a nível dos aquíferos e dos dos cursos de água a nível superficial. A ocorrência das diferentes ondas de calor desde Maio afectam sobretudo a retenção da água, que normalmente em período primaveril, era mais acumulada, quer ao nível da superfície, mas também ao nível subterrâneo, nos solos. E estas ondas de calor excepcionais têm provocado sobretudo a evaporação da água a nível do solo. O período da Primavera já é um período, por exemplo, a nível agrícola, em que a actividade é bastante intensa. A remoção das camadas superficiais do solo aumenta ainda a evaporação da água, mas também a nível da vegetação, através da evapotranspiração que recebe um esforço ou um incentivo ainda maior. Ajuda ainda mais a libertar esta água que normalmente é retida. E depois há menos quantidade de água. RFI: E, portanto. Isto tem consequências a vários níveis. O nível mais óbvio é, designadamente a agricultura. É previsível que haja falta de alimento daqui uns tempos, por conta de más colheitas? Richard Tavares: Exactamente, é uma consequência directa destas ondas de calor. Actualmente, por exemplo, já se vê na produção quer dos cereais, quer de fruta e legumes, quer em França, quer noutros países europeus, por exemplo, os países vizinhos, a Bélgica, Itália e Espanha. Tanto a quantidade como o tamanho, por exemplo, da fruta e dos legumes têm reduzido visivelmente. O que tem logo um impacto tanto no consumidor, como no produtor, porque há menos quantidade de produto e o preço vai aumentar. Já existem alguns produtos em que tem havido aumentos, mas nos próximos meses será ainda maior o impacto, quer para o consumidor quer para o produtor, porque viu parte da sua produção reduzir significativamente. RFI: Isto poderá ter também o efeito de encorajar ainda mais os agricultores a usarem químicos na produção agrícola? Richard Tavares: Eu pessoalmente, não diria que existe esse efeito directo do aumento de químicos, porque a própria produção é afectada por falta de água. A introdução de determinados químicos iria afectar a qualidade, por exemplo, do cereal ou das plantas. A produção de químicos poderia ajudar, mas tinha que ser compensada também por um aumento da rega, o que não acredito que a nível de agricultores poderiam ter este aumento, porque a quantidade de água tem reduzido significativamente. RFI: Isto também, como disse, tem efeito sobre a produção de cereais, o que significa que isto também recai sobre o gado. Richard Tavares: Através de dados que recolhi recentemente através do Ministério da Agricultura francês, a quebra dos rendimentos a nível do sector agrícola e alimentar tem sido de 20 a 40%. Já em culturas actuais, quer do milho, girassol, horticultura, o que tem, além do impacto na própria produção industrial, o alimento, por exemplo, para o gado ou para a pecuária. Mas claro que depois a pecuária também será directamente afectada. RFI: Outra das consequências da falta de água tem a ver com o sector do transporte de mercadorias por via fluvial. Como é que estamos nesse aspecto? Richard Tavares: Começa a ser crítico, por exemplo, a nível dos cursos de água normais. O ofício francês da biodiversidade verificou que, a nível, por exemplo, do fluxo de água de rios, cerca de 43% das estações da rede de monitorização detectaram cursos de água já praticamente com seca total. Se isto já acontece nos pequenos rios, nos grandes cursos de água, por exemplo, o Reno, já estão a ser afectados. A nível de França já existe um impacto no transporte de material e de, por exemplo, a mesma a nível de cereais, um impacto directo não apenas para a distribuição, mas também para o contexto de serviços e de produtos que serão vendidos depois, mais tarde, em França. Não sei quais são os valores exactos, mas no transporte internacional, França, Alemanha e os países vizinhos, já existe uma redução drástica, incluindo, por exemplo, a Bélgica. O que implica para as empresas de transportes terem de ver rotas alternativas. A grande maioria é sobretudo o transporte através de camiões, o que tem logo um impacto não apenas económico, mas também na emissão de gases com efeito de estufa. RFI: O facto de baixar o nível dos rios e inclusivamente a água dos rios estar mais quente, faz com que também a produção de electricidade tenha vindo a baixar, dado que houve uma série de reactores que tiveram que suspender as suas actividades devido à falta de água ou outros motivos, como por exemplo -algo surpreendente- a chegada massiva de alforrecas que vinham perturbar a actividade. Richard Tavares: Alguns dos dados mais recentes da EDF e da Autoridade de Segurança Nuclear Francesa, de facto indicaram que três dos reactores já foram afectados. Tendo em conta que em França 70% da produção de electricidade é através de centrais nucleares, há um impacto directo não apenas a nível nacional, mas também a nível internacional. Portanto, o facto de o nível da água baixar ou mesmo a temperatura da água ser bem mais alta do que o normal, impede directamente o funcionamento parcial ou total dos diferentes reactores e da própria central. Existem casos, quer em França, quer noutros países europeus, por exemplo, a Hungria. Existe um impacto directo, o que tem consequências, infelizmente, directamente para o consumidor, no mercado de produção e de venda de electricidade, que é parcialmente pública e privada. O preço da produção de electricidade vai certamente aumentar, mas também a venda de electricidade francesa para os países vizinhos vai ter um impacto. Muitos dos países vizinhos, por exemplo, Espanha, Itália e mesmo Alemanha, compram electricidade francesa, sobretudo para o consumo nas horas de pico, e a redução desta produção tem logo impactos a nível europeu. Esperemos que não haja um 'blackout', como aconteceu em Portugal e em Espanha (em 2025), mas se a situação continuar, teremos que reduzir fortemente o consumo de electricidade. RFI: Relativamente ainda a todas estas consequências da falta de de água, a mais evidente é que há uma parte substancial da França que vê o acesso á água condicionado. Richard Tavares: Exactamente. Por exemplo, basta ver actualmente a plataforma digital do Ministério da Transição Ecológica. Em praticamente todos os distritos metropolitanos estão em alerta. Pelos dados que eu vi, 99 a 67 estão em nível máximo de crise, o que é um reflexo de obrigatoriedade de reduzir drasticamente o consumo de água. Por exemplo, em França, várias dezenas de conselhos já não têm água potável contínua nas torneiras, o que implica sistemas alternativos de distribuição de água ou através de camiões cisterna ou através de água engarrafada, o que é um impacto directo não apenas nas actividades de lazer, que essas serão obrigatoriamente cortadas ou reduzidas ao máximo, por exemplo, piscinas, rega de espaços públicos ou actividades de lazer. Mas há um impacto directo no consumo nas casas das pessoas. O que já é visível em muitas regiões. RFI: Não podíamos também deixar de mencionar o impacto ambiental da falta de água e, sobretudo, quando ela ainda existe, está mais quente. Portanto, isto significa também que há toda uma biodiversidade que fica desequilibrada, senão mesmo destruída. Richard Tavares: Exactamente. Aliando o período de seca com os graves incêndios florestais que tem havido em França e mesmo noutros países europeus, o impacto no ambiente e na biodiversidade local já é visível: o aumento quer da temperatura do ar ou da água. Já se referiu, por exemplo, o surgimento de alforrecas em cursos de água que não era normal, mas o surgimento e o aumento da população de espécies invasivas é cada vez maior a nível europeu. Não tenho dados específicos, mas a percentagem de espécies invasivas nos diferentes ecossistemas tem tido um 'boom' significativo, muito aliado aos eventos de temperatura extrema e pelas alterações climáticas. RFI: Tem alguns exemplos de espécies invasivas que estão agora a chegar massivamente, por exemplo, nos rios franceses ou mesmo no mar? Richard Tavares: Basta ver determinadas espécies de peixes que, por exemplo, as pessoas mantinham em aquários e que libertam acidentalmente ou voluntariamente em cursos de água. O mesmo acontece, por exemplo, com determinadas espécies de tartarugas que, até há uns anos atrás, tartarugas tropicais eram mais consideradas como animais de estimação que estariam em casa e foram libertadas. A nível de cursos de água, a população tem aumentado e há um impacto directo, quer nas populações autóctones que não estavam de todo preparadas para esta concorrência e mesmo outras espécies das quais eles se alimentam. Existem também muitos casos de plantas, quer plantas aquíferas, quer em zonas, por exemplo, de espaços naturais, onde existe um aumento significativo a nível europeu. Existem vários projectos europeus em curso que a nível da comunidade científica estão a investigar este impacto que é cada vez maior. Os resultados dos projectos estão a sair de uma forma contínua, alguns estão em andamento e é importante para o Observatório Europeu da Biodiversidade para tentar combater cada vez mais este tipo de espécies. RFI: Doravante, o verão aqui na Europa e em particular aqui em França, vai ser o 'inferno' que tem sido este ano? Richard Tavares: Infelizmente, a tendência não é muito optimista. O efeito directo das alterações climáticas e do contínuo aumento das emissões de gases com efeito de estufa, infelizmente, a tendência é de haver cada vez mais verões de eventos de temperaturas extremas. A própria temperatura média anual vai aumentar. E, ao contrário, os invernos poderão ter cada vez mais eventos de, por exemplo, temperaturas bastante baixas e de eventos, eu não diria tempestades invernais, mas de temperaturas mais baixas do que o normal. Mas é a tendência, infelizmente, que a comunidade cientifica já tem mostrado, quer através de modelos, quer através da monitorização nestes últimos anos. Mas as autoridades ainda estão muito aquém de tomar acções e decisões neste sentido. RFI: A seu ver, o que é que é preciso fazer, pelo menos aqui em França, para mitigar os efeitos destas mudanças que estão a chegar a um ritmo e com uma intensidade muito maiores do que se estava à espera? Richard Tavares: Eu diria que é sobretudo uma mudança de comportamentos e da forma da sociedade encarar o problema das alterações climáticas. Sobretudo um uso mais sóbrio da electricidade. Porque aumentando a electricidade ao nível em que estamos actualmente, não será apenas as centrais ou energias renováveis que vão conseguir cobrir este aumento. Existem países, por exemplo, como na Alemanha, onde centrais de carvão já tiveram de ser reactivadas, o que aumenta a produção. A mudança, sobretudo de comportamentos, a redução de veículos automóveis térmicos que, apesar das novas medidas da passagem ao eléctrico, ainda estamos a caminho. É uma consciencialização, por exemplo, de redução de ar condicionado a nível das habitações. Claro que as pessoas querem ter o conforto térmico, mas seria importante apostar em formas mais ecológicas e ambientalmente amigas para reduzir a quantidade de emissão de gases com efeito de estufa.