
Três anos depois do ataque do Hamas de 7 de Outubro de 2023, Gaza continua devastada, a violência agrava-se na Cisjordânia e uma solução política continua distante. O jornalista e analista de política internacional Miguel Szymanski analisa as responsabilidades de Israel e do Hamas, o papel dos Estados Unidos e da Europa, a erosão do direito internacional e a forma como os media europeus têm coberto o conflito. RFI: Três anos depois do 7 de Outubro, como devemos falar simultaneamente do crime cometido pelo Hamas e da devastação infligida depois à população de Gaza? Miguel Szymanski: Em primeiro lugar, nesta data em que passam três anos sobre os atentados do Hamas, devemos pensar nas vítimas. Devemos pensar nas 1139 vítimas que o Hamas fez no seu ataque contra Israel. Devemos pensar nos mais de 200 jornalistas assassinados pelo exército israelita desde então, nas 20 mil crianças mortas pelo exército israelita e no total de mais de 70 mil palestinianos assassinados. Ou seja, as vítimas não podem ser somadas umas contra as outras, nem subtraídas. Mas a desproporção é flagrante. É a desproporção que distingue um atentado terrorista, o massacre de civis que foram os atentados do Hamas, de um genocídio e de uma subsequente limpeza étnica que se está a verificar na Cisjordânia, na Palestina. As esperanças foram por água abaixo, temos ainda uma guerra no Médio Oriente em curso. Depois dos ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o Irão, que são uma consequência directa desse fatídico 7 de Outubro de 2023. Isso é uma consequência directa porque, imediatamente após estes atentados, os Estados Unidos começaram a colocar o seu porta-aviões no local em que se tornava previsível um ataque contra o Irão, que era algo que Israel, sobretudo Netanyahu, já desejava há muito tempo. E, por falar em Netanyahu, é talvez bom lembrar que Israel vai ter eleições brevemente, agora em Outubro, e que o partido de Netanyahu, o Likud, tem a sua origem no Irgun, que era um movimento terrorista nos anos 40, que matou centenas de civis árabes, britânicos, crianças, mulheres, civis. Portanto, isto de olhar para os agrupamentos terroristas tem sempre uma perspectiva histórica. No momento, são movimentos terroristas. Assim era classificado aquilo que deu origem ao actual partido de Netanyahu. Era considerado terrorista pelos britânicos e por muitas organizações internacionais. E, na retrospectiva histórica, para os israelitas é um movimento de libertação, tal como na Palestina não se olha para o Hamas como um movimento terrorista. Os mortos são, no entanto, aquilo que mais nos tem de chocar, bem como os deslocados e a tentativa actual de Israel de fazer, assumidamente, uma limpeza étnica e de ter varrido da mesa sequer a ideia de reconhecer o Estado da Palestina. Nem o actual primeiro-ministro, nem o seu principal opositor em Israel têm sequer a ideia de aplicar o direito internacional que reconhece o Estado. Enquanto a tensão internacional permanece centrada em Gaza, continuam, na Cisjordânia, a expansão dos colonatos, as demolições, a violência dos colonos e a fragmentação territorial. Ainda existem condições materiais para um Estado palestiniano viável ou a solução de dois Estados tornou-se sobretudo uma fórmula diplomática para evitar discutir a realidade política que já existe entre o Mediterrâneo e o Jordão? Ambos os cenários são possíveis e dependem sobretudo da comunidade internacional, porque a comunidade internacional, a começar pela Europa e pelos Estados Unidos, teria, se quisesse, os meios necessários para forçar Israel a cumprir a solução de dois Estados. Israel não quer essa solução, claramente. Nem o principal partido no Governo, nem o principal partido da oposição querem esta solução. Mas Israel poderia ser obrigado a cumprir o direito internacional, como, por exemplo, se tenta fazer com a Rússia. Tenta-se que a Rússia cumpra o direito internacional e se retraia do território que invadiu na Ucrânia e, para isso, a União Europeia recorreu a mais de 20 pacotes de sanções. Outros tantos os Estados Unidos. Portanto, há meios de pressionar os países, com maior ou menor eficácia. Menor eficácia no caso da Rússia, porque é uma potência grande de mais e demasiado apoiada pela China, pela Índia, por vários outros países, pelo Brasil, pelos BRICS, pelo Sul Global. No caso de Israel, não. Israel está isolado e bastava que os Estados Unidos e a União Europeia quisessem obrigar Israel a cumprir o direito internacional para isso acontecer de imediato. De maneira que, se não acontece, ficamos pelo credo de boca de países como a França, o Reino Unido, a Irlanda, países que entretanto reconhecem a Palestina, incluindo Portugal. Ficamos com o credo na boca porque não se seguem as acções necessárias para impor esta solução. Israel, voluntariamente, não o fará. O direito internacional foi constantemente evocado pelas Nações Unidas, tribunais, governos, como dizia, e organizações humanitárias, mas revelou uma capacidade muito limitada para proteger civis. O que nos dizem estes três anos sobre a chamada ordem internacional baseada em regras? Poder-se-ia pensar que foi suspensa. Eu sou menos optimista e acho que está a ser activamente desmantelada, sobretudo por Israel. Mas, numa meta-análise, obviamente graças ao peso dos Estados Unidos. Os Estados Unidos estão a perseguir os juízes do Tribunal Penal Internacional, que é um tribunal penal que resultou de um acordo assinado pela totalidade dos países da União Europeia, mas que os Estados Unidos não reconhecem. Não só não reconhecem, como não assinaram o Tratado de Roma que o instituiu, como estão activamente a perseguir os juízes, a aplicar-lhes sanções e a dizer que não querem que aquele tribunal funcione. Foi esse tribunal que declarou que tanto Netanyahu como o seu ministro da Defesa na altura, Gallant, têm de responder por crimes de guerra perante o Tribunal Penal Internacional. Os Estados Unidos não o querem, como os Estados Unidos não querem que funcionem as outras organizações, como as próprias Nações Unidas. E, por isso, o Presidente dos Estados Unidos criou aquele Board of Peace, um conselho de paz que foi uma tentativa caricata de Donald Trump para criar uma estrutura paralela às Nações Unidas. Não funcionou, não irá funcionar. Mas o que funcionou foi o desmantelamento, e está a ser o desmantelamento, dessa ordem internacional baseada em regras, que os Estados Unidos querem absolutamente impedir. Talvez só voltarmos ao início da conversa, quando falámos no atentado do Hamas. Neste momento, temos familiares das vítimas deste atentado, israelitas, cidadãos israelitas, a acusar Netanyahu de não ter protegido os reféns, de ter sabido de antemão dos ataques do Hamas e de nada ter feito. Temos a imprensa israelita a dizer que Netanyahu não só foi informado de antemão, como foi, durante muitos anos, cúmplice do Hamas, que era indirectamente financiado para evitar sequer que tivessem de negociar uma solução para a Palestina. Porque, enquanto existia o Hamas, Netanyahu tinha um pretexto para dizer: eles são terroristas, portanto, nós não negociamos com terroristas. É por isso que não avançámos com a solução de um Estado palestiniano. Têm sido truques. E os truques vão mais longe. Como soubemos agora recentemente, por uma entrevista dada até pelo próprio ministro da Defesa, procurado por crimes de guerra, que disse que, no 7 de Outubro, foi aplicado o protocolo Hannibal. O protocolo Hannibal é um protocolo do exército israelita que diz que, para evitar que se façam reféns ou que sejam retidos militares israelitas, se dispara a matar contra palestinianos, aceitando que também serão mortos israelitas. Por isso, não se sabe quantos dos 1139 mortos na sequência do ataque do Hamas foram assassinados pelo Hamas. E quantos é que não foram assassinados por Israel? Que percentagem, ao abrigo deste protocolo assumido pelo próprio ex-ministro? Quem tem hoje legitimidade para decidir o futuro político dos palestinianos? Pode existir uma solução legítima, concebida principalmente por Israel, pelos Estados Unidos, pelos países árabes e pelas potências europeias, sem soberania palestiniana e sem uma representação política palestiniana democraticamente renovada? Nós sabemos, e ouvimos a explicação por parte da Ucrânia, que não é possível organizar eleições num clima de guerra. Com o clima de guerra na Ucrânia e, no caso da Palestina, com o grau de destruição na Faixa de Gaza e a situação em que vivem as pessoas na Cisjordânia, é praticamente impossível. Face às agressões permanentes, à terraplanagem, com milhares de pessoas ainda soterradas sob o entulho e os escombros em Gaza, e praticamente sem condições de vida minimamente dignas, é impossível organizar-se qualquer tipo de eleições neste momento na Palestina. E a comunidade internacional não está a cumprir o seu papel, que seria forçar, mais uma vez, repito, forçar Israel a cumprir as regras elementares do direito humanitário. Israel não o está a fazer. Assume que quer correr com os palestinianos do seu território. E eu não vejo, enquanto não houver pressão substancial, pelo menos da União Europeia, essa poderia mudar alguma coisa , uma solução. Tivemos, sim, este Verão passado, a China a cortar praticamente relações com Israel por outras razões. Relações comerciais na área tecnológica, porque Israel estava a exportar equipamentos para a China, que eram equipamentos de espionagem, que estavam camuflados, como os pagers, como os equipamentos electrónicos que distribuíram por centenas de famílias e que mataram centenas de civis porque explodiam nas mãos de quem os usava. Essas atitudes de Israel, de facto, têm isolado muito Israel na comunidade internacional. Mas continua a ser apoiado pela União Europeia e pelos Estados Unidos e, até que isso mude, a situação dos palestinianos permanecerá periclitante e num nível de condições de vida que são sub-humanas, e não poderá sequer pensar-se na constituição de um Estado. Por isso, os governantes europeus limitam-se a ter um discurso, enfim, correcto dentro do direito humanitário, mas sem tirarem minimamente as consequências necessárias. Existe uma ordem política que possa permitir hoje a israelitas e palestinianos viverem com iguais direitos e segurança? Quem, concretamente, está a impedir que isso seja possível? Em primeiro lugar, quem o está a impedir é o partido que está no Governo de Israel, o Likud, com os partidos com quem tem coligação, estes radicais extremistas, assumidamente genocidas, como Bezalel, o ministro das Finanças que também é ministro dos colonatos, Itamar Ben-Gvir, que é o ministro que também tem estado a proclamar a necessidade de se arranjar uma solução para correr com os palestinianos dos seus territórios. E depois prossegue, em Israel, para os partidos da oposição, que também não querem esta solução. Internamente, em Israel, ninguém quer uma solução de dois Estados. Se tirarmos, enfim, os jornalistas do Haaretz que é um jornal israelita com grande projecção internacional, mas que em Israel tem uma faixa de mercado de cerca de 3% a 4%, temos uma ínfima minoria dentro de Israel que reconhece os crimes de terrorismo de Estado de Israel e que os denuncia activamente. Mas é uma minoria ínfima dentro de Israel. E enquanto os EUA apoiarem Israel, e vemos o que estão a fazer, com interesses próprios no Irão, percebe-se que a continuação da guerra no Irão dá lucros fabulosos a Wall Street e às petrolíferas. Portanto, aquilo que começou como um erro continua como um negócio. E, enquanto essa for a bússola da geopolítica das grandes potências, como os Estados Unidos, não há uma solução que se possa prever para a Palestina, a não ser que nós, na Europa, que temos muita influência sobre Israel, façamos pressão. Mas aquilo que observamos é o contrário: é serem declarados como organizações terroristas, no Reino Unido, por exemplo, aqueles que querem defender os direitos dos palestinianos. Foram presos centenas e centenas de britânicos porque se manifestaram pela organização Acção Palestina, considerada terrorista. E, mais uma vez, temos esta classificação: quem é que é terrorista? Quem é que quer liberdade e quem é que luta pelos direitos humanos das suas populações, sejam elas na Palestina ou no Reino Unido? Criticou publicamente a cobertura mediática deste conflito. O que revelou a cobertura europeia do pós-7 de Outubro sobre o estado do jornalismo? É uma pergunta que se tornou pessoal para mim, porque eu era correspondente do jornal Welt, que é do maior grupo de imprensa europeu, o grupo Axel Springer. E a Welt é a maior televisão privada na Alemanha. Eu fui durante dez anos correspondente em Lisboa e demiti-me numa carta que enviei também publicamente a vários jornais na Alemanha, por causa do branqueamento sistemático que faziam dos crimes de Israel. E achei que não poderia continuar. Mas isto é só o meu caso pessoal, porque, se olharmos para todo este grupo, que é dono da televisão da qual eu me demiti, o grupo Axel Springer, que é também dono do Politico, o presidente deste grupo disse claramente que os jornalistas que quisessem criticar Israel podiam ir procurar empregos noutras publicações. Ou seja, quando me demiti, simplesmente antecipei por alguns meses aquilo que o presidente do grupo Axel Springer viria a dizer: que não se admitem críticas substanciais a Israel. Eu penso que isso diz bastante sobre o jornalismo. Tendo em conta que este grupo é actualmente o maior grupo de imprensa na União Europeia, diz bastante sobre o jornalismo.