
António Buscardini, director da agência de comunicação Buscardini Communications e director do portal Travel Tomorrow, dedicado à informação sobre a indústria do turismo, em entrevista à RFI, admite que as férias dos europeus vão ficar mais caras em 2026, também devido à instabilidade no Médio Oriente. Bem-vindos. Neste espaço de entrevista recebemos todos os meses um especialista em assuntos europeus, um protagonista político ou um representante de uma instituição em Bruxelas para nos ajudar a descodificar a actualidade europeia. Em vésperas das férias de verão, vamos falar sobre turismo na UE, das tendências do sector e das consequências da instabilidade geopolítica. O nosso convidado, António Buscardini, é director da agência de comunicação Buscardini Communications e diretor do portal Travel Tomorrow, dedicado à informação sobre a indústria do turismo. António, começo por lhe perguntar se as férias de verão dos europeus vão ser mais caras devido à instabilidade geopolítica em várias regiões do mundo, em particular no Médio Oriente, e também à consequente subida dos preços dos combustíveis. Como é que vê esta questão? Muito obrigado pelo convite. Certamente vão ser mais caras, em vários níveis. Em primeiro lugar, obviamente, houve uma redução de rotas. As rotas mais curtas, principalmente, desapareceram no continente europeu porque houve escolhas que tiveram de ser feitas pelas companhias aéreas. E, portanto, distâncias que os europeus estão habituados a percorrer não estão disponíveis neste momento. Isto é um primeiro obstáculo que depois acaba por condicionar tanto a escolha como o aumento inevitável dos preços. Este aumento, ou a escassez de combustível, tem um impacto total no turismo porque, quando pensamos no turismo, não é apenas o sector dos transportes ou o sector da hotelaria. São vários elementos, o que acaba por condicionar também o próprio preço dos bens que são fornecidos aos hotéis e a outros operadores. Portanto, as escolhas são mais reduzidas. Mas, apesar de tudo, segundo a European Travel Commission, que publicou um relatório há pouco tempo, a perspectiva continua a ser positiva, porque 2026, no início do ano, foi perspectivado como um ano melhor do que 2025, que já tinha sido um ano recorde. E os dados de junho continuam a apontar para um aumento do turismo europeu. Os europeus, desde a Covid-19, viajam muito dentro do continente europeu. Houve uma mudança de paradigma. E isso, a confirmar-se, é benéfico para as nossas economias, mas também reforça o papel de liderança que a Europa tem neste momento neste sector. E o facto de alguns destinos internacionais situados no Médio Oriente, como o Dubai ou Doha, terem sido afetacdos pela instabilidade regional, pode desviar turistas para a Europa? Isso pode ser uma oportunidade para a Europa? Não estou totalmente convencido disso. Grande parte das pessoas que viajam para o Médio Oriente, no contexto que estamos a discutir, pertencem a nichos específicos, são expatriados. Acaba por ser um tipo de turista que não corresponde ao turista tradicional. Está muito ligado aos negócios, ou à vida profissional que mantém no Médio Oriente. Acho que a questão passa sobretudo por escolhas internas. E, na verdade, o turismo não é um dado adquirido. Costumo dizer que nada garante que a experiência que um alemão teve em Portugal continue a ser positiva. Estamos todos os anos em competição, e essa competição faz-se sobretudo com os nossos vizinhos. Fala-se muito do overtourism, ou seja, de um turismo excessivamente concentrado em cidades como Lisboa. Mas vejamos os exemplos de Veneza ou Barcelona. Barcelona até abandonou a marca “Visit Barcelona”, precisamente porque quer transmitir a mensagem de que não pretende receber visitantes a qualquer custo. O problema do turismo, quando atinge níveis excessivos, é que as escolhas dos visitantes tendem a concentrar-se nos mesmos destinos e nos mesmos períodos. Por isso, quem pensa o turismo ao nível nacional e europeu tenta criar uma espécie de pedagogia para os viajantes, promovendo uma distribuição mais equilibrada ao longo do ano. Se olharmos para França, por exemplo, recebeu cerca de 100 milhões de visitantes no ano passado, mas 85% concentrou-se em Paris. É este o desequilíbrio que o sector do turismo enfrenta. E como pode a Europa reagir, sendo o turismo sobretudo uma área de competência nacional. Há aqui vários documentos estratégicos em cima da mesa para discussão entre os Estados-membros. O que pode a Europa acrescentar? Há aqui muita coisa a dizer. Em primeiro lugar, nesta nova Comissão von der Leyen, pela primeira vez temos um comissário dedicado ao turismo, responsável pelo turismo e também pelos transportes. O que faz muito sentido, porque são dois sectores interligados. Logo aí houve um reforço importante, porque, como disse bem, esta é uma competência dos Estados-membros, mas faz sentido pensar o turismo também ao nível europeu. Depois há vários instrumentos. Existem linhas de financiamento, sobretudo ligadas à ferrovia, onde a União Europeia tem competências importantes. Mas há também um movimento, tanto no Parlamento Europeu como na Comissão, para pensar o turismo de forma mais estratégica. No Parlamento Europeu foi recentemente aprovado um relatório elaborado pelo eurodeputado maltês Daniel Attard sobre turismo sustentável, que apresenta várias recomendações para a Comissão. Mas o mais importante é que, pela primeira vez, vamos ter uma estratégia europeia para o turismo. Essa estratégia deverá ser apresentada em setembro de 2026 e está neste momento a recolher contributos de vários sectores, como acontece com qualquer estratégia da Comissão. Desde think tanks, empresas que fazem lobbying, plataformas como a Airbnb ou a Booking, mas também representantes da restauração e das bebidas. O objectivo é criar um plano de longo prazo, com horizonte em 2030, para o turismo europeu. E, como conhecedor do sector, o que é que esse plano deveria conter? Antes de mais, é importante recordar que a Europa continua a ser, de longe, a líder mundial do turismo. Não há comparação possível. Os 27 Estados-membros recebem mais turistas do que qualquer outra região do mundo e geram também o maior volume de negócios neste sector. A questão não é apenas medir o peso económico do turismo. Dizemos muitas vezes que representa cerca de 10% ou 11% do PIB europeu. Em países como Portugal essa percentagem é ainda mais elevada. O principal desafio é encontrar um equilíbrio entre o overtourism, por um lado, e a continuação desta actividade económica, por outro. As pistas que estão a surgir apontam para a criação de mecanismos que permitam distribuir melhor os fluxos turísticos, para que não sejam apenas as grandes capitais ou destinos como Barcelona e Veneza a beneficiar. Também se discute a questão das taxas turísticas, porque cada cidade segue a sua própria política. Hoje existe, por exemplo, uma proposta em Veneza para aumentar significativamente a taxa de entrada. Começou por cinco euros, passou para dez e já se discute um valor mais elevado. Lisboa segue o seu próprio caminho. Barcelona também tomou decisões específicas. Não existe um plano coordenado a nível europeu e isso é algo que terá de ser debatido. Mas, para mim, a questão fundamental é outra: o que queremos para o turismo europeu? Queremos ser os maiores ou queremos ser os melhores? Eu diria que temos de conseguir ser as duas coisas. Somos já os maiores em número de visitantes, mas devemos continuar na vanguarda. O turismo moderno nasceu na Europa. A própria ideia de lazer, de viajar para conhecer o outro, tem raízes europeias. Por isso, devemos preservar aquilo que temos de melhor e encontrar um equilíbrio entre crescimento e protecção do património. É esse o verdadeiro alicerce de uma estratégia sustentável. O nosso programa é também ouvido no mundo lusófono, nomeadamente em África. Como vê o desenvolvimento de destinos como Cabo Verde e São Tomé e Príncipe? E qual é o potencial turístico do continente africano? São Tomé e Príncipe continua a ser um destino relativamente pouco conhecido no resto da Europa. No ano passado, a ministra do Turismo esteve em Bruxelas para apresentar o país junto das instituições europeias e dos profissionais do sector. Nós, portugueses, conhecemos bem São Tomé por razões históricas e culturais, mas muitos europeus ainda desconhecem o país. Tirando os portugueses, há poucos turistas europeus a visitar São Tomé. Existe uma certa imagem de turismo de aventura, de descoberta, de procura de algo diferente, mas continua a ser residual. Cabo Verde é uma realidade diferente. Está muito mais consolidado como destino turístico internacional. Algumas ilhas, como o Sal, desenvolveram-se bastante graças aos voos de baixo custo e programas bem definidos. Existe uma oferta estruturada e uma procura consolidada. Creio que Cabo Verde ainda tem margem para continuar a crescer. Mas um caso particularmente interessante é o de Angola. Trata-se de um país cuja economia esteve tradicionalmente muito ligada ao sector energético, mas que pela primeira vez começou a apostar no turismo. Há dois anos foi criado, pela primeira vez, um ministério dedicado ao turismo. Angola desdobrou-se para participar em grandes eventos internacionais do sector. Este ano, Angola foi o país convidado da ITB Berlin, uma das maiores feiras mundiais de turismo, o que é uma grande vitória. Poucos países conseguiram fazê-lo. Conseguiram, portanto, capitalizar essa oportunidade. E este mês, Luanda acolheu o Global Tourism Forum, com a participação do secretário-geral das Nações Unidas para o Turismo e de mais de mil representantes do sector. O país pretende desenvolver projetos turísticos, sobretudo no sul, ligados à natureza e aos safáris, mas também reforçar a oferta hoteleira. É interessante observar esta dinâmica porque demonstra uma vontade de diversificar a economia. O turismo acaba por estabelecer pontes únicas que geram oportunidades de negócio. Quem visita um país pela primeira vez apaixona-se, ou não, por esse país. Acho que é uma oportunidade única para África desenvolver a indústria do turismo.