
O capítulo analisa criticamente o programa de Filosofia para Crianças (FpC) criado pelo filósofo norte-americano Matthew Lipman, comumente apresentado como uma proposta de "inovação" pedagógica. O autor problematiza os limites e o caráter tradicional que essa abordagem esconde em seus modos de conceber a escola, o pensar e a própria infância.Em primeiro lugar, Kohan aponta que Lipman adota uma visão idealizada e iluminista da escola, ignorando seu papel disciplinador de fabricação de corpos dóceis e subjetividades conformadas. Nesse cenário, o professor é posicionado como um "pastor filosófico" ou modelo ideal que deve regular o diálogo e se "sacrificar" em função do desenvolvimento moral de seu rebanho. Além disso, o programa reproduz uma divisão tradicional entre os experts (criadores e supervisores das novelas e manuais) e os profanos (professores que apenas aplicam a técnica em sala de aula), o que engessa a autonomia docente.No que tange ao ato de perguntar, o autor critica o fato de FpC atrelar a investigação à metodologia pragmática de "resolução de problemas". Enquanto a filosofia autêntica se alimenta de problemas cuja intensidade é essencialmente insolúvel, a lógica de Lipman tenta fazer com que a situação problematizada deixe de sê-lo, limitando a abertura do perguntar. Do mesmo modo, FpC define o pensar como um conjunto de habilidades técnicas (skills) e estabelece uma hierarquia entre o "pensar de ordem superior" e o "pensar ordinário", o que acaba por basear-se na desigualdade das inteligências e criar uma espécie de "aristocracia do pensamento" próxima ao elitismo platônico.Por fim, Kohan argumenta que a concepção de infância em Lipman compartilha com a de Platão uma perspectiva desenvolvimentista e normativa. A infância é tratada como pura potência e possibilidade de um vir a ser futuro (tornar-se cidadãos razoáveis, tolerantes e democráticos), funcionando como o instrumental para a realização de sonhos políticos preestabelecidos pelos adultos. Dessa forma, em vez de acolher verdadeiramente a novidade, a descontinuidade e a alteridade radical trazidas pelo nascimento de um novo ser, o programa formador de Lipman visa, no fundo, à reprodução e instauração do mesmo