
MÚSICA NO BRASIL HOLANDÊS --- Escreve o padre Manoel Calado no seu “Valeroso Lucideno” que no jardim que o governador Maurício de Nassau construiu junto à sua "casa de prazer", referindo-se ao Palácio de Friburgo: "algumas casas de jogos, e entretenimentos, aonde iam as damas, e seus afeiçoados a passar as festas no verão, e a ter seus regalos, e a fazer merendas, e beberetes, como se usa na Holanda, com seus acordes instrumentos". Percebe-se, pelo trecho acima, que no Brasil Holandês a música não se prestou exclusivamente a incitar soldados ao combate ou a festas cívicas e solenidades oficiais com hinos patrióticos – como o “Wilhelmus van Nassau” de Philippe de Marnix (1538-1598), que os corneteiros tocaram na partida de Maurício de Nassau em 1644 – mas também para divertimento. Como seriam essas reuniões patrocinadas pelo conde? Não devem ter sido muito diferentes das que nos revelam as pinturas de Dirck Hals, Pieter Codde, Joost Droogsloot e outros, onde se tocava, dançava e cantava ao som das composições de, provavelmente, Cornelius Schuyt (1557-1616), Jan Tollins (1550-1603) ou do maior de todos, Jan Sweelinck (1562-1627), autor de mais de 250 obras para voz, como "Minha vida de jovem tem um fim"; ou ainda baladas populares como “Apesar dos tempos agora serem tristes”, de Jan van Winterlroy, ou “Choro por minha bem-amada adorada”, de Souliaert. Entre os 46 nomes dos que participavam da mesa do conde no Palácio de Friburgo, conforme relações publicadas por F. Caland de Navorscher, constavam um mestre de canto e seis trombeteiros. Como na Holanda, ao mestre do canto no Brasil nassoviano cabia a organização e a direção da orquestra em apresentações, e a composição de arranjos vocais e instrumentistas. Vale registrar ainda que o cientista Georg Marcgraf também era cantor e instrumentista. Tudo isso demonstra que ao lado de seus pintores e cientistas Nassau também se cercou de músicos e de música quando no Brasil. --- Fontes: (1) CALADO, M. O Valeroso Lucideno etc. Belo Horizonte: Itatiaia/Edusp, 1987; (2) LEITE, J. R. T. Arte & Arquitetura no Brasil Holandês. Recife: Cepe, 2014; (3) MELLO, J. A. G. Tempo dos Flamengos. 2ª ed. Recife: Governo de Pernambuco, 1978; (4) NIEUFOF, J. Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil. São Paulo: Martins, 1942. --- Imagens: (1) Interior com Conjunto Musical (óleo sobre tela de Joost Corneliszoon Droogsloot, 1645); (2) Um Animado Conjunto Musical (óleo sobre tela de Dirck Hals, 1639); (3) Palácio de Friburgo da Cidade Maurícia (detalhe de FRIBVRGVM, gravura de Frans Post, c. 1643).