
Homilia do domingo de Pentecostes 2024 Começo esta homilia com um trecho da Declaração Ecumênica das Igrejas Cristãs (1968), baseada em um conhecido texto patristico: «Sem o Espírito Santo, Deus fica longe; Cristo pertence ao passado; o Evangelho é letra morta; a Igreja, apenas uma organização; a autoridade, um domínio; a missão, uma propaganda; o culto, uma evocação; o agir cristão, uma moral de escravos. Mas, com o Espírito Santo, o cosmos eleva-se e geme na infância do Reino; Cristo ressuscita e é alento de vida; a Igreja é comunhão trinitária; a autoridade é serviço; a missão é Pentecostes; o culto é memorial e antecipação; o agir humano torna-se realidade divina». Pentecostes já era uma festa do antigo Israel que celebrava a colheita e a promulgação da Lei realizada por Moisés no Sinai. O sentido originário da festa é a ação de graças, o júbilo por Deus revelar-se na criação e na sua lei. Nos Atos dos Apóstolos, ouvimos: “Quando chegou o dia de Pentecostes, os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar. Subitamente, fez-se ouvir, vindo do Céu, um rumor semelhante a forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam.” Os Apóstolos, como Moisés antes de receber os dez mandamentos, são envolvidos por rajadas de vento, trovões e línguas de fogo. Todos ficam repletos do Espírito Santo, e começa a nova criação: povos de diversas línguas divididas se entendem; as maravilhas do reino de Deus começam a ser experimentadas em abundância, reconhecem que Jesus está vivo; nasce a Igreja repleta e fecunda de ministérios. No Evangelho, lemos que Jesus, no primeiro dia da semana, revela-se aos discípulos ressuscitado, após comunicar a paz, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, serão retidos». Deus se revela no sopro suave do Espírito. O medo da condenação é vencido pela certeza do perdão. No sopro, na mesma brisa leve que Elias encontrou no monte, a comunidade, cheia de medo e incertezas, acolhe a missão de continuar as obras e o ministério de Jesus no meio do mundo. Papa Bento XVI ensinava sobre a suavidade da manifestação do Espírito em Pentecostes: “Não sobressai talvez assim a humilde figura de Jesus como a verdadeira revelação na qual Deus se manifesta a nós e nos fala? Não são, porventura, a humildade e a bondade de Jesus a verdadeira epifania de Deus? Elias, no Monte Carmelo, tinha procurado combater o afastamento de Deus com o fogo e com a espada, matando os profetas de Baal. Mas, desta forma, não pôde restabelecer a fé. No Oreb, ele deve aprender que Deus não está no vento, no terremoto, no fogo; Elias deve aprender a compreender a voz leve de Deus e, assim, a reconhecer antecipadamente que venceu o pecado não com a força, mas com a sua Paixão; aquele que, com o seu sofrimento, nos doou o poder do perdão. Esta é a forma com a qual Cristo vence.” O Espírito vem nos recordar, neste domingo, que a força humana, os rumores, os gritos e as agitações não evangelizam, não promovem a fé. A fé nasce do mover suave do Espírito no coração da humanidade. Quando o Espírito vem, oferece aragem no calor, aquece o coração frio, cura o corpo doente, enche de alegria o coração dos pobres, serve de descanso às nossas lutas pelo evangelho. Irmãos, é o Espírito de Deus que forma a Igreja, tenhamos a coragem de nos abandonar à sua condução e à sua santidade.