
Nos dias 15 e 22 de Março, os franceses vão às urnas para as eleições municipais. Há seis anos, e após várias tentativas, Louis Aliot tornou-se presidente da Câmara de Perpinhã. Os seus partidários defendem que a cidade está mais segura e mais limpa, enquanto os seus opositores denunciam uma cidade abandonada e a tentativa de imprimir na cidade uma ideologia de extrema-direita. Em 2020, as eleições autárquicas em França aconteceram em circunstâncias extraordinárias devido à pandemia de covid-19. Esta é uma eleição com duas voltas, em que passam à segunda volta os candidatos que conseguem mais de 10% dos votos. Ou seja, entre as duas voltas há acordos, mais ou menos surpreendentes, de forma a permitir vitórias mais alargadas ou duelos entre múltiplas linhas políticas. Ora em 2020, a primeira volta aconteceu no dia 15 de Março, já envolta em polémica devido ao perigo da pandemia, e logo no dia 17 de Março, a França decidiu iniciar um confinamento muito rigoroso que durou até à Primavera. Logo, a segunda volta só aconteceu em Junho desse ano. As eleições foram então marcadas por uma grande abstenção. Em Perpinhã, mais de 60% da população não votou na primeira volta e cerca de 52% também se absteve na segunda, o que para Kevin Courtois, membro da representação local da organização SOS Racismo, explica o resultado da extrema-direita. “Acho que a eleição de Louis Aliot em 2020 ocorreu num contexto muito especial. Em primeiro lugar, havia a Covid-19 na época, que era uma questão importante e complicada naquele momento. E ele venceu porque havia um sistema em vigor há muito tempo com o antigo autarca, Jean-Marc Pujol. E, de facto, as pessoas votaram contra Jean-Marc Pujol porque isso deveria significar o fim de um reinado, o fim da estagnação e de um período sem projectos estruturantes para a cidade. Por isso, as pessoas preferiram votar contra Jean-Marc Pujol. Essa é a tragédia desta história”, lamentou o activista. No entanto, há duas décadas que Louis Aliot, originário de Toulouse, tentava ganhar destaque em Perpignan, tendo já concorrido em eleições autárquicas passadas. Aliot é actualmente vice-presidente da União Nacional e já foi deputado, assim como deputado europeu. Foi também uma figura próxima de Jean-Marie Le Pen, tendo desempenhado funções como seu secretário. Esta proximidade à cúpula do partido e o investimento feito localmente, fez com que a sua eleição em 2020 não fosse uma surpresa para o politólogo Dominique Sistach. “Não foi uma surpresa porque Louis Aliot estava a tentar ganhar Perpinhã há vários anos e as suas raízes na cidade estavam cada vez mais profundas. E, acima de tudo, não foi uma surpresa devido à falta de resposta da direita e da esquerda aos problemas da cidade. Em outras palavras, não foi tanto Louis Aliot que conquistou esta cidade, mas esta cidade ofereceu-se a Louis Aliot. É a lógica inversa e um forte declínio da direita e da esquerda em Perpinhã que levou ao sucesso de Aliot”, detalhou Dominique Sistach. Ao implementar-se na cidade, Louis Aliot começou a ganhar apoiantes. Anthony Guerreiro é um jovem franco-português que apoiou o homem forte da extrema-direita desde o início. “Comecei a apoiar Louis Aliot devido a um interesse pessoal na política, mas também porque os meus pais têm um restaurante e Louis Aliot não conseguia encontrar nenhum comércio para organizar uma conferência de imprensa e os primeiros a dizer sim foram os meus pais. As pessoas não se queriam associar a ele porque ele tem uma etiqueta de extrema direita. Como para os meus pais todos são iguais e temos que ajudar todos, eu comecei a entrar nesse mundo da política muito jovem, a ver o Louis Aliot e depois a aprender essas coisas”, explicou Anthony Guerreiro, que trabalha com o autarca. Se a União Nacional, antigo Frente Nacional, foi marcada por declarações extremas ligadas ao racismo, xenofobia ou antisemismo proferidas por Jean-Marie Le Pen durante décadas, a passagem de testemunho para a filha, Marine Le Pen, levou a uma suavização do discurso. Um dos arquitectos desta normalização do partido foi exactamente Louis Aliot. “Pode-se dizer que ele é mais um homem de direita num partido de extrema-direita. Esse é um ponto positivo, podemos dizer assim, mas claro que ele sempre foi um homem de extrema direita. Ele foi secretário particular de Jean-Marie Le Pen e sempre foi membro de um partido cujo principal objetivo é excluir os estrangeiros. Portanto, ele é um personagem bastante complexo na política e, de qualquer forma, um de seus pontos fortes é que ele pode falar tão bem com a extrema-direita, da qual ele faz parte, quanto com a direita republicana e tradicional”, analisou o politólogo. Para a organização SOS Racismo, o mandato de Louis Aliot não trouxe nada de positivo à cidade. As idas frequentes até Paris, a cerca de cinco horas de comboio, e a dificuldade em combater a pobreza e a desigualdade na cidade levam Kevin Courtois, que figura numa das listas de esquerda que concorrem à Câmara Municipal, a afirmar que Perpinhã precisa de um plano Marshall. “Sim, as diferenças entre ricos e pobres aumentaram na cidade. É quase como se a cidade não tivesse tido ninguém a dirigi-la porque o presidente da Câmara nunca cá está. E as suas acções são o resultado da sua inacção. E assim, é claro, Perpinhã afunda-se. Temos o bairro de Bas-Vernet, um dos mais pobres da Europa, temos índices de desigualdade enormes nesta cidade. Precisamos de uma espécie de Plano Marshall para a cidade. O que nós precisamos fazer é produzir riqueza e ter uma acção municipal efectiva, para que os negócios se instalem aqui, é preciso dinamismo. E essa é a melhor forma de combater a insegurança que aumenta na cidade, tendo lojas e uma economia dinâmica”, defendeu. Para Anthony Guerreiro, cuja família está instalada em Perpinhã há duas gerações, a mudança na cidade desde 2020 é óbvia, desde logo passando pela limpeza da cidade, mas também a segurança, já que Louis Aliot aumentou para 200 o número de polícias municipais - uma polícia de proximidade, sem as mesmas competências do que a polícia nacional, usada por muitos autarcas para reforçar o cumprimento de regras nas cidades, já que cabe ao Estado central a distribuição da polícia nacional e da polícia militar no território. “Aqui, nestes seis anos de cidade, mudaram muitas coisas já, como a segurança, ele aumentou o número de polícias municipais. Ele fez seis esquadras de polícia abertas 24 por dia. Isso antigamente não tinha. Para uma vila de 120.000 habitantes é muito importante. Ele fez a mediateca. Até a nível de limpeza, ele investiu mais de um milhão para renovar o material todo, porque estava tudo avariado. Meteu mais empregos para o centro, vilas, os bares fora. Ele ajudou muito também a nível nacional, porque ele é conhecido e tem o poder de mudar as coisas”, explicou. Após seis anos a viver sob o jugo da extrema-direita, a SOS Racismo contesta o facto que mais polícia signifique mais segurança, até porque os dados mostram um aumento de 10% da delinquência na cidade, especialmente no que diz respeito ao tráfico de droga. Deste mandato, para Kevin Courtois, ficam as tentativas de estender à cidade a ideologia da extrema-direita. “Observámos vários indicadores de extrema-direita, mesmo se como presidente da Câmara não há grande balanço a fazer. Foi organizado um festival chamado ‘Primavera da Liberdade de Expressão’ que trouxe à cidade várias figuras nacionais de extrema-direita e isso foi financiado com o nosso dinheiro. Também tentou dar o nome de uma praça da cidade de Pierre Sergent, um ex-membro do departamento de Oise, responsável por actos terroristas na França e por mais de 50 mortes, portanto são ataques que visam perturbar da ordem pública e isso poderia gerar uma ofensa à sensibilidade da memória viva, ou seja, às pessoas que foram vítimas desse homem, desses actos terroristas”, declarou. Pierre Sergent nasceu em Perpinhã começou por integrar a resistência francesa durante a II Guerra Mundial, mas integrou depois a guerra da Argélia tendo-se depois desvinculado do Exército francês e integrando organizações subversivas que defendiam a manutenção da Argélia sob domínio francês e que levaram a cabo vários actos terroristas. Outra mudança na cidade, foi a mudança da sua divisa. Devido à proximidade geográfica, à língua e à partilha de tradições com a vizinha Catalunha, Perpinhã era conhecida como a catalã. Desde a chegada de Louis Aliot, o autarca decidiu que a cidade deveria passar a ser designada como a radiante. Para Kevin Courtois este é também um sinal da vontade da extrema-direita de apagar a histórica multicultural de Perpinhã. “É profundamente chocante porque Perpinhã, a radiante, foi construída sobre nada. Ao passo que Perpinhã, a catalã, faz parte de uma memória e história compartilhadas. E tudo isto custou dinheiro, porque houve um investimento na mudança da imagem e do logotipo da cidade. Quer dizer, é uma loucura. Temos os bairros mais pobres de França. Acho que esse dinheiro poderia ser usado de outra forma”, defendeu o activista. Para Dominique Sistach houve várias tentativas de acção simbólica de extrema-direita, mas que não foram eficazes. “Em Perpinhã, isso não foi feito em grande escala, porque cada vez que a União Nacional tem o poder, tenta levar a cabo uma ação simbólica a favor ou em linha com a ideologia extremista. Foi feita essa tentativa da Praça Pierre Sergent,um ativista de extrema-direita e o tribunal administrativo pediu que fosse retirado. Portanto, houve uma acção, mas ela foi imediatamente frustrada pelo que chamamos as instituições republicanas, logo, falamos de acções não tão fortes como costumava ser quando o partido era dirigido por Jean-Marie Le Pen. Mas essa acção ainda está presente e ainda tem alguma eficácia”, concluiu.