
Marselha tem quase nove vezes mais população do que Perpinhã e as duas cidades têm trajectórias muito diferentes na História de França. No entanto, esta eleição aproxima-as com disputas acesas por parte dos candidatos de extrema-direita e problemas partilhados como criminalidade, alojamento e pobreza. Louis Aliot é recandidato à Câmara de Perpinhã. Tem face a ele um candidato de direita, Bruno Nougayrède, e três candidaturas de esquerda, uma de Mathias Blanc, socialista que não recebeu o apoio do partido, Agnes Langevine, socialista com o apoio do PS e ainda Mickael Idrac, candidato da França Insubmissa. Na corrida está também uma lista do partido Luta dos Trabalhadores. Segundo as sondagens, na primeira volta, Louis Aliot deve conseguir posicionar-se entre os 43 ou 44%, algo considerado normal para um autarca que se estreou nas lides locais. No entanto, Louis Aliot vai a eleições com um potencial novo mandato já em risco. O candidato de extrema-direita foi condenado em Março de 2025 a três anos de inelegibilidade e 18 meses de prisão, de entre os quais 12 de pena suspensa, no caso dos assistentes parlamentares fantasma que o seu partido empregou durante uma década no Parlamento Europeu. Aliot está acusado de ter contratado um assistente com o qual trocou uma chamada telefónica e oito e-mails durante 11 meses. O autarca de Perpinhã não perdeu logo o seu mandato autárquico em 2025 porque fez um recurso, tal como Marine le Pen, e o resultado deve ser conhecido no dia 7 de Julho. Mesmo com estes problemas na justiça, Louis Aliot continua a recolher apoios e aliou-se mesmo a uma parte da direita da cidade. E como mostram as sondagens, também os seus eleitores parecem não se importar com a situação, como explica o politólogo Domique Sistach. “Ele tem realmente hipótese de ganhar novamente. No segundo mandato de um autarca eleito há quase automaticamente um bónus para cabeça de lista. Isto é muito específico às eleições autárquicas. E, acima de tudo, tal aconteceu em 2020, a esquerda está totalmente dividida e a direita está a ser absorvida pela extrema-direita, havendo assim poucos candidatos ou propostas ideológicas para uma oferta política que possa enfrentar a máquina Aliot. E no caso de Louis Aliot ser definitivamente condenado em recurso, estou convicto de que os eleitores da União Nacional não se importam, porque eles dizem que, de qualquer forma, o presidente da Câmara colocará alguém de sua confiança e a cidade será bem administrada. É como um cheque em branco”, explicou o académico. E tal como o próprio Louis Aliot já disse, e o seu colaborador próximo, Anthony Guerreiro repete, o líder da extrema-direita nunca estará muito longe. "Caso esse processo tenha como decisão final que Louis Aliot não possa ser presidente da Câmara, ele vai continuar a servir a cidade. Caso ele não possa exercer o mandato, se não for ele, será alguém da equipa dele e eles não podem tirar essa forma de ajudar, mesmo que seja nos bastidores. Louis Aliot vai ficar em Perpinhã, vai ajudar Perpinhã e vai continuar a servir a cidade porque ele gosta desta cidade, é uma cidade que ele respeita, respeita a sua história e é por isso que ele vai ajudar Perpinhã até ao fim", garantiu Anthony Guerreiro. Para quem intervém no meio social e da solidariedade, a cidade precisa nos próximos anos de um diálogo profundo de forma a recriar um entendimento e uma partilha que se perderam nas últimas décadas. Magalie Grand, que preside a associação Entrai’des Roussillon, gostava que as associações tivessem maior intervenção já que conhecem os problemas das pessoas da cidade. “Que a solidariedade não seja só uma palavra vã, esvaziada de conteúdo, que sejamos apoiados porque sem as associações cria-se um círculo vicioso na cidade. A questão da segurança é bastante urgente na cidade, mas as coisas poderiam ser muito piores se nós não estivéssemos aqui, as associações, para ajudar. Uma parte da delinquência surge porque as pessoas não têm nada para comer. Quem é que me diz que caso me faltasse comida, eu não faria a mesma coisa? Então as pessoas veem um modelo de sociedade que é baseado em ter e consumir mais, mas onde se faz muito pouco para ajudar o indivíduo. E nós, as associações, olhamos para o indivíduo e queremos fazer parte da vida da cidade, das discussões e tentar melhorar a vida das pessoas”, explicou. E como uma cidade não se faz sem jovens, o estudante de Sociologia, Hidad Ashraf, também gostava de ver uma mudança efectiva em Perpinhã. “Vamos começar com algumas coisas muito simples e muito básicas: a atractividade da própria região. Não há muito para manter os jovens aqui. É uma questão de ajudas muito simples. Por exemplo, no centro da cidade não temos onde comprar roupa, só vai a certas lojas quem tem carta de condução e nem todos têm carro. Em Paris ou noutras cidades, há muito mais mobilidade através dos transportes públicos, com comboios, eléctricos, autocarros. Aqui não há ajudas para os passes e os transportes terminam muito cedo. E isto são desigualdades. Também deveria ser alargada a oferta de cursos na universidade e precisamos de representantes eleitos que realmente nos representem e que não correspondam só ao estereótipo do homem branco. Precisamos de maior representação da diversidade cultural em Perpinhã”, disse. Com a extrema-direita em destaque, a direita a aliar-se à extrema-direita e a esquerda dividida, Perpinhã é um laboratório para as ideias da União Nacional, mas também um espelho do país, já que as sondagens mostram Marine Le Pen, ou o seu sucessor Jordan Bardella destacados, ficando apenas Jean-Luc Melenchon, líder da extrema-esquerda, em posição de combater pelas presidenciais de 2027. Nos últimos dias, as maiores figuras da política francesa passaram por Perpinhã e esta vinda não é por acaso. “Estamos a ver que a cidade de Perpinhã é um laboratório político, porque estamos a demonstrar na prática que não se trata apenas de sugar os votos das classes mais baixas que até aqui votavam à direita e à esquerda. Como podemos ver aqui em Perpinhã, os bairros de classe média, da classe trabalhadora, os bairros residenciais, votam da mesma forma que os bairros mais ricos e gentrificados do Leste da cidade. E sim, sendo uma cidade com assimetrias, representa de uma certa forma a França. Uma França mais pobre do que aquela que temos actualmente. Perpinhã é um laboratório para uma França mais pobre e mais dividida. Numa eleição nacional, há sempre três, quatro ou cinco cidades que serão os testes para as forças políticas e Perpinhã é uma delas”, considerou Dominique Sistach. Tempo então de partirmos para Marselha, mais uma das cidades teste destas autárquicas... Aqui, na segunda maior cidade de França, a luta trava-se entre a esquerda, no poder nos últimos seis anos, e a extrema-direita que sobe nas sondagens. Também aqui os temas como a segurança, habitação e pobreza são chave para os habitantes, no entanto, o duelo com a extrema-direita torna-se mais surpreendente já que Marselha sempre foi conhecida como uma cidade aberta ao Mundo e, sobretudo, uma cidade rebelde. Para Jorge Mendes, advogado franco-português e apoiante do actual presidente da Câmara e recandidato, Benoit Payan, a cidade tornou-se nos últimos anos um alvo da extrema-direita. “A segunda cidade francesa foi escolhida para esta luta, Benoit Payan não escolheu esta luta. Só que a direita aqui foi uma direita que não compreendeu que não podia imitar à extrema direita, senão não havia qualquer diferença entre as duas. E os eleitores iam preferir então não a cópia, mas o original, ou seja, a extrema-direita. E, portanto, de facto, esta eleição é uma eleição que vai ter uma segunda volta entre dois candidatos: entre o socialismo e a esquerda e a extrema direita. Claro que é um exemplo, especialmente a um ano da próxima eleição presidencial. Sabendo que falamos de 1 milhão de habitantes, é um exemplo do que se vai passar daqui a um ano nas presidenciais. Mas acho também que é uma sorte, não é? Também é uma sorte para ganhar esta luta. Acho que todos podem aderir a esta luta contra a extrema-direita, que nesta cidade que é tão cosmopolita, tão diversa, com uma história totalmente rebelde, de pessoas que vêm de vários países, seria totalmente impossível ter a extrema direita no poder na Câmara Municipal de Marselha. Acho que esta luta vai começar segunda-feira, depois da primeira volta que vai unir muitas pessoas de Marselha, mesmo se não votam à esquerda, porque a direita desapareceu. Portanto, essas pessoas de direita que são contra o racismo vão votar connosco. Tenho a certeza disso. Marselha, nos anos 80, foi a primeira, foi daqui que começou a marcha contra o racismo de Marselha, que eles começaram a andar até Paris contra o racismo. E tenho a certeza que vai recomeçar a mesma coisa na segunda-feira”, mostrou-se confiante Jorge Mendes. Mesmo numa cidade aberta, virada para o Mediterrâneo e cujo porto há mais de 2 mil anos serve de abrigo a quem atravessa tormentas, o diálogo inter-cultural está cada vez mais difícil, como relata Sandra Lima Rocha, franco-cabo-verdiana e presidente da associação Cap Vert l’Avenir que presta apoio aos cabo-verdianos instalados em Marselha. “O mais importante é voltar à atmosfera que existiu em Marselha. Porque em Marselha, seja nas relações entre judeus, muçulmanos ou cristãos, elas sempre foram muito boas. Quero dizer, nosso bispo em particular, Monsenhor Aveline, trabalha muito com o diálogo inter-religioso. Acho que o problema no momento é realmente a falta de diálogo entre as várias comunidades. E em Marselha, até agora, isso não tem sido muito perceptível. O mesmo acontece noutras cidades, sei que em Lyon há divisões muito grandes. Mas aqui nunca tinha acontecido”, declarou a líder associativa. Para Erwan Davoux, candidato às eleições de uma lista dissidente de direita, é necessário relembrar a todos os marselheses que independentemente das origens, todos são cidadãos da cidade. “Como em Marselha não houve uma boa governação, há políticas clientelistas que levaram as comunidades a voltarem-se umas contra as outras em vez de conversarem entre si. Não temos diversidade social suficiente, não temos diálogo inter-religioso suficiente, não temos diálogo suficiente entre todas as pessoas de Marselha, do norte e do sul. E como existe essa ideia de que nada muda, que independentemente das políticas, das eleições, não há nada que se mova, as pessoas fecham-se em suas comunidades e é isso que, obviamente, incentiva a extrema-direita. Porque a extrema-direita está a apostar na divisão social, na divisão comunitária.Portanto, precisamos colocar o interesse geral e o serviço público no centro do sistema, restaurar a diversidade social e dizer a todos que temos orgulho de pertencer a uma comunidade por sua cultura, sua tradição, sua história, mas somos, acima de tudo, marselheses e marselheses, e a origem não é o critério mais importante. A extrema direita também joga com um sentimento de insegurança. Isso é real em Marselha. Não se trata de um sentimento. Mas o que a extrema direita faz é estabelecer uma ligação directa entre a insegurança e os estrangeiros. Assim, ela fomenta o medo e a xenofobia entre muitos marselheses, que acabam por cair nessas ideias”, concluiu o candidato.