
Os jovens adultos constituem uma parte importante da população de Marselha, mas também a mais afectada pelos problemas da cidade como a dificuldade em encontrar casa, a limitação dos transportes públicos e ainda a pobreza. Face a estes problemas, os jovens parecem afastados da vida política, com a abstenção a crescer, mas estão atentos aos candidatos e às suas propostas, esperando agora acção no terreno. Em França, mais de metade dos jovens não vota. Uma realidade que oscila consoante o tipo de eleição, mas, por exemplo, nas eleições legislativas de 2022, quase 70% dos jovens entre os 18 e os 24 anos decidiram abster-se. Este é um fenómeno que ocorre em todo o território francês, mas em Marselha, onde os jovens acumulam problemas como a dificuldade de encontrar casa, uma taxa de desemprego elevado e uma precariedade sistémica, as eleições municipais não estão no topo das prioridades. Rachid, um jovem marselhês, explicou à RFI as razões deste desinteresse. “Já viu algum dos candidatos a Marselha a falar sobre os jovens? Eles estão apenas a tomar conta dos seus próprios interesses e nós, os jovens, sofremos. Somos uma geração que já entendeu que é preciso trabalhar para economizar. É só isso que nos vai salvar, porque sem trabalho não temos casa nem recursos, nem umas calças de ganga a 10 euros podemos comprar. Percebemos muito rápido que no fim da escola, quando acabamos os nossos estudos, estamos por nossa conta. E mesmo se tivermos um contrato, vimos dos bairros Norte de Marselha, outros vêm de África, outros da Líbia, outros do Afeganistão, e não vemos qualquer mudança. O que queríamos é que trabalhássemos todos juntos. Vocês, os jornalistas, nós, os jovens, os políticos, de forma a avançar. Por exemplo, avançar habitação e, depois, aqui não é como diz o Macron, não atravessamos a estrada e encontramos um trabalho, muitos de nós trabalhamos fora da cidade de Marselha”, explicou Rachid. Rachid é acompanhado há sete anos pela ARS, uma associação em Marselha que apoia cerca de 60 jovens no processo de readaptação social, especialmente entre os 18 e os 25 anos. A ajuda vai desde alojamento, até mostrar como se preenche a primeira declaração de impostos. Mas mais do que isso, a ARS permite a estes jovens, muitos vindos dos bairros mais pobres de Marselha ou imigrantes que chegaram ainda menores de idade à cidade, de não ficarem sozinhos, como explica Kingoma, também acompanhado pela ARS. “Quando cheguei, não sabia bem o que era a ARS. Estava um pouco perdido em relação a como fazer os meus papéis. Aos poucos, fui descobrindo todas as actividades aqui e encontrei o meu caminho, porque me envolvi aqui na associação e comecei a sentir-me capaz de ver as coisas com mais clareza e a projectar como será a minha vida depois. Nós vivemos muitas dificuldades aqui e eu estava a falar com um amigo no outro dia sobre como vamos fazer depois, porque aqui temos alojamento durante algum tempo, mas temos de ser nós a fazer esforços para nos prepararmos psicologicamente para a próxima fase da nossa vida e isso não é fácil”, disse o jovem. Marselha está dividida em 16 bairros, havendo uma distinção muito forte entre os bairros do Sul, mais ricos e onde vive a população mais abastada, e os bairros do Norte, onde nalguns quase 40% dos habitantes vivem abaixo do limiar da pobreza. Para os jovens de Marselha, a política é feita longe das ruas que percorrem todos os dias e há um grande sentimento de abandono. “Eu não me interesso por aí além pela política, mas às vezes é preciso ser político para progredir na vida, porque as pessoas que votam somos nós, somos nós os cidadãos, caso contrário, eles falam e nós só ouvimos, mas nós temos que ser ouvidos. Só que às vezes parece que eles vivem num mundo paralelo, como se nós vivêssemos em Marselha e eles noutra cidade qualquer. Eles não veem a realidade das coisas. Não é a mesma coisa alguém que está fechado num escritório o dia todo e alguém que circula na cidade. Por isso, nós sentimo-nos abandonados. E não é que não nos esforcemos para encontrar trabalho, mas não é a mesma coisa”, indicou Rachid. Para dar mais informação aos jovens sobre as eleições e também mais poder de decisão em momentos chave como as eleições municipais que se aproximam, Alexandre Pastor, também marselhês, criou em 2022 a associação Melting Pot que tem como missão dar as ferramentas cívicas necessárias para que os jovens sintam que a sua intervenção na cidade e no país conta. “Partimos da observação de que a abstenção só aumenta a cada eleição, seja ela local, nacional ou europeia. Achamos que há dois motivos para isso: a desconfiança dos jovens em relação às instituições e aos representantes eleitos e, acima de tudo, a falta de conhecimento dessas instituições. Porque sempre que conversei com jovens da minha idade ou mais jovens, eles não sabiam a diferença entre o conselho distrital, o conselho regional, a câmara municipal e, portanto, tudo se confunde. Quando eu era mais jovem, se eu não entendia alguma coisa, era difícil envolver-me ou interessar-me por isso. Por isso, na associação partimos da premissa de que dando a todos um nível básico de informações e todos ficamos em pé de igualdade, de modo a que todos pudéssemos dizer: OK, agora eu entendi, então posso envolver-me ou não, e assim lutar contra a abstenção”, detalhou Alexandre Pastor. Rachid, tal como a maior parte dos jovens acompanhados pela ARS, trabalha, mas é muito difícil para estes jovens encontrar casa devido ao aumento das rendas na cidade e são também muitas vezes discriminados devido à cor da pele e ao facto de não terem famílias que ajudem nas garantias pedidas pelos senhorios. Quanto ao trabalho, muitos só encontram emprego fora do centro da cidade em sectores precários. Franck Araújo dirige o Acelerador M, um acelerador de startups no centro da cidade e admite que a criação de empregos em Marselha é difícil, sobretudo porque as empresas precisam de capital disponível quando querem crescer na cidade. “Claro que a taxa de desemprego é a mais importante aqui do que noutros sítios do território metropolitano. Mas fazendo a média do território não é assim tão diferente em relação a outras regiões francesas. Mas pronto, a situação é essa. Em Marselha é verdade que é mais complicado porque há uma espécie de separação entre sul e norte da cidade. Não se passa a mesma coisa a sul e a norte da cidade. No entanto, o que precisariam as startups para se fixarem aqui? Primeiro, temos falta de capital de risco. Precisam de pessoas bem formadas. Isso também há aqui e noutros sítios. Porque hoje é muito fácil recrutar. Agora, o gás, o dinheiro e as participações e os mercados não estão aqui. Não estão cá. Não estão em Marselha, nem aqui na região. Então é worldwide. Ou então em Paris ou em Berlim, ou então em Londres, ou então na América do Norte e por aí fora. E então torna-se muito difícil conseguir metê-las cá”, detalhou. Também os transportes tornam difícil os trajectos diários. Alguns dos jovens da associação contaram à RFI que demoram entre duas a três horas para chegar ao trabalho, acabando muitas vezes por voltar a pé quando se trata de empregos no sector da restauração já que os turnos acabam tarde. Jorge Mendes, advogado que apoia o actual autarca e recandidato à sua eleição, o socialista Benoit Payan, reconhece que os transportes são um grande problema da cidade, mas que, até agora, não dependiam só do autarca, já que os subsídios vêm de outras instâncias regionais, muitas vezes lideradas por forças políticas antagónicas. “De facto, o problema dos transportes em Marselha é uma vergonha. A segunda cidade francesa tem um metro que acaba às 21:30, tem uma população jovem e é preciso quarenta quilómetros para vir do Norte da cidade até ao centro da cidade. São quarenta quilómetros, portanto é preciso ver o que é uma cidade desta dimensão, com duas linhas de metro e com poucos autocarros de dia e que param à meia noite. Claro que é uma situação que nunca se vê numa cidade cosmopolita e moderna em França, mas Marselha sofre disso. É uma competência de metrópole. Mas é preciso saber que esta campanha eleitoral não é só uma campanha de presidência da Câmara Municipal. Quem ganhará a Marselha vai também ganhar a metrópole e, portanto, vai recuperar a competência dos transportes. O Estado permitiu, de facto, agora investimento estes três últimos anos para o transporte. Mas o que é que foi feito? Foi feito um eléctrico e que tem exactamente a mesma linha que o metro, portanto é só um metro. Os jovens não conseguem sair dos bairros onde eles estão, não conseguem vir trabalhar para o centro da cidade, onde há trabalho e também não conseguem sair à noite porque não consegue voltar para casa, não consegue ter acesso à cultura. É uma situação que não se deve admitir numa cidade como Marselha”, disse o advogado. Para além do problema dos horários dos transportes, muitos jovens da ARS que precisam destes meios de locomoção para começar a sua vida profissional, vêm os seus salários penhorados devido a multas por no primeiro mês em que vão trabalhar não terem dinheiro para comprar o passe dos transportes. Muitos candidatos prometem a gratuidade dos transportes até aos 26 anos de forma a resolver esta questão. Mesmo se Rachid diz que a política está longe do seu quotidiano, este jovem marselhês diz votar em branco e conhece os percurso dos vários candidatos. Pede é acção concreta para a vida de todos os marselheses. “Nós dizemos fora a quem não vier fazer coisas concretas por nós. Isto aqui não é o cinema. Eu voto em branco porque essa é a minha escolha, porque desde que estou em Marselha, não vejo nenhuma mudança, só vejo os interesses das pessoas. Se eu vir uma ideia sincera, eu vou votar por essa pessoa. Vamos falar sobre os três principais candidatos. Ora, não posso votar Martine Vassal porque ela reduziu as ajudas às crianças e reduziu os transportes e temos enfermeiras que têm que voltar a pé dos hospitais de madrugada. Não vou votar Benoit Payan porque ele dividiu os bairros do norte e não quer ver a metade que não lhe convém. Quanto a Delogu, posso até estar de acordo com ele em 30% do que ele diz”, detalhou. Propositadamente, ou não, Rachid deixou de fora a extrema-direita na sua análise. Estima-se que o duelo da segunda volta se faça entre Benoit Payan e o candidato da União Nacional, partido de Marine Le Pen, Franck Allisio. Para Alexandre Pastor, os jovens não estão fora da política, estão a questioná-la cada vez mais e de forma diferente do que foi feito no passado. A associação Melting Pot já formou mais de 7 mil jovens em diferentes ateliers em escolas e associações, e Alexandre Pastor assegura que esta é uma geração “eminentemente política”. “Esta geração está a questionar o sistema, eles questionam tudo o que está a acontecer e, portanto, ousam fazer perguntas. A minha geração, ou a geração até um pouco antes da minha, e a geração dos nossos pais, pensa: é assim que as coisas são e isso não vai mudar. Hoje, a nova geração está ciente de que estão a crescer numa sociedade em que lhes são ensinados trabalhos e que daqui a dez anos, esses trabalhos nem vão existir e, portanto, estão a questionar tudo de forma a prepararem-se para a mudança da sociedade e evoluir ao seu próprio ritmo também. Então, sim, para mim, é uma geração que é eminentemente política, que está comprometida. A sua maneira de se envolver no bem comum está a evoluir porque é preciso acompanhar os tempos, mas eles estão conscientes. O que falta é um pouco de conhecimento institucional, conhecimento do sistema que faz com que eles não tenham acesso a certas informações e certos assuntos. Mas a base política ou ideológica está lá. Há ideias, mas às vezes falta a confiança de dizer sim, sou capaz e quero ir até lá e falar sobre determinado tema”, explicou Alexandre Pastor. Por viverem a cidade em toda a sua complexidade, os jovens da ARS também têm ideias para o futuro. Rachid diz que a aposta tem de estar na educação, especialmente para quem aos 18 anos quer começar a trabalhar e tenta ser independente. “Se eu fosse presidente da Câmara, eu apostaria na educação. Uma formação de três ou quatro meses logo a seguir ao ensino secundário para ver o que é que as pessoas gostariam mesmo de fazer. E não acumular estágios em áreas diferentes dos nossos interesses. Havendo um projecto educativo concreto, essa formação daria logo acesso a um trabalho a sério. Mas quando acabamos a trabalhar no MacDonald’s, mesmo quando temos algumas formação, e vemos que há pessoas lá que são muito inteligentes e fazemos o mesmo trabalho, questionamos mesmo para que é que serve a escola”, concluiu.