
A cidade de Marselha está na moda. Numerosos rankings colocam-na nos lugares cimeiros das melhores cidades para viver e visitar na Europa, mas os habitantes locais continuam a confrontar-se com a realidade do dia a dia que inclui dificuldades na habitação, criminalidade e pobreza. Após 2.600 anos de história, Marselha continua rebelde, resistente e solidária. Em 2022, e depois da vitória da esquerda em Marselha 2020, apelidado de Primavera Marselhesa, Paris constata o estado das infra-estruturas em Marselha e põe em marcha um plano apoiado pelo Presidente Emmanuel Macron chamado Marselha em Grande. Este plano dá à cidade cinco mil milhões euros adicionais para investimento em escolas, transportes, segurança e habitação. Para isto contribuíram tragédias como os desmoronamentos de dois prédios da rue d’Aubagne em 2018, no centro da cidade, que fizeram oito mortos e deixaram dezenas de famílias na rua, mas também os ajustes de contas constantes entre gangues especialmente nos bairros Norte da cidade que levaram à morte de várias pessoas, incluindo adolescentes. Este foi um projecto que coincidiu com a realização dos Jogos Olímpicos em Paris, com as provas de vela e alguns jogos de futebol a serem realizados em Marselha. A prioridade para a utilização destes fundos foi desde logo as escolas, como conta Jorge Mendes, advogado franco-português instalado em Marselha e que apoia Benoit Payan, o candidato socialista. Mas com a revitalização da cidade, veio também um facto incontornável, Marselha está na moda. “Os bairros dessas escolas, também mudam com a nova escola, porque temos de relembrar que em 2020 as escolas aqui eram a vergonha da República. Era assim que se falava das escolas de Marselha. Nos jornais, na comunicação social, isso mudou. Claro que muda pouco a pouco, o projecto vai até 2039, portanto haverá muitos anos ainda pela frente. Estamos a falar de 460 escolas a refazer ou a construir totalmente. Portanto, as escolas mudaram e também houve um grande investimento no centro da cidade. Houve um investimento que permitiu à cidade de se abrir. Há esplanadas, há bares que abriram, há mais vida nocturna, há uma vida cultural, há saídas e há também uma moda. É preciso dizer que Marselha está na moda, em França e na Europa. É claro que isto também deu um sentimento de que é melhor viver aqui e isso é importante. Vê-se que as grandes avenidas mudaram, os apartamentos estão a ser reabilitados. O transporte mudou porque as linhas que existiam foram aumentadas. Portanto, são as mesmas linhas de metro e eléctrico, mas foram aumentadas. Está mais fácil hoje ir do norte ao centro já existe essa linha. Do Sul ao Norte também é possível ir de eléctrico do Sul ao Norte em 40 minutos. Mas isso é uma maravilha. Coisas que não existiam, portanto. As pessoas sentem que nada é como antes”, explicou. A partir de 2020, parisienses e os chamados nómadas digitais descobriram Marselha. Depois de anos de uma má reputação, que afastava habitantes das classes mais altas e investimento, Marselha brilha agora nos rankings de melhores destinos europeus. Depois dos gregos, dos romanos, dos visigodos, dos francos, dos italianos, dos corsos ou dos argelinos, chegaram agora os turistas à cidade. Se isto contribui para a revitalização especialmente do centro da cidade, há também um combate activo por parte da autarquia aos abusos cometidos no alojamento local que leva a que muitos marselheses não consigam alugar ou comprar casa na sua própria cidade. “Marselha tem a lei mais dura de França. É muito simples. Todos podem fazer Airbnb, alugar a casa se for a residência principal deles. E podem fazer 90 noites por ano, não mais. Há 6.000 pessoas que não respeitam a lei. E a Câmara Municipal está a atacar 6000 pessoas. Portanto, não é pouca coisa. Todas as semanas vamos a tribunal para fazer condenar as pessoas a uma multa de 100.000 € por apartamento. E é assim que se vai conseguir. É claro, sobre o porto, os cruzeiros, trata-se de uma economia para Marselha. É importante, mas temos de construir aqui hotéis, investir em hoteis e construir, como noutras cidades, um acolhimento turístico. E o Estado sobre isso também tem que vir ajudar. Sobre as grandes infraestruturas, fizemos um novo porto com os Jogos Olímpicos que houve em Marselha, mas parou aí. Então, sobre este novo porto, precisamos de hotéis, de bares, de tudo. Nós temos 57 quilómetros de mar em Marselha. Há quatro entradas de praia no centro da cidade. Isto tudo é preciso refazer. Portanto, há praias a construir, há hoteis a construir, há tudo a fazer e todos são bem vindos. Claro que é uma cidade específica, é uma cidade que foi criada por entidades estrangeiras que foram chegando como os italianos, os portugueses, os espanhóis, os argelinos, os marroquinos. E hoje a cidade tem essa especificidade. É uma cidade única. Nenhuma teve este acesso ao mar. Mas acho que também é o que faz a riqueza desta cidade. É a única em França. Se calhar nem na Europa”, disse o advogado. Este novo sopro em Marselha está também a atrair empresas e ajuda a fixar startups, argumentos utilizados por Franck Araújo, que dirige o Acelerador M, para convencer os CEO a escolherem a cidade. “As vantagens são várias. Uma delas é que há um porto. É uma cidade aberta no Mar Mediterrâneo. Essa é a primeira coisa. A segunda coisa é que também é um pólo universitário muito importante, com muitos pesquisadores. E outra coisa é também o facto de termos não sei quantos cabos agora porque já nem sei quantos são, mas temos aqueles cabos submarinos que nos ligam a mais de 3 mil mihões de pessoas. Isso faz com que Marselha seja um hub de telecomunicações e de dados, e sabemos muito bem que a economia de amanhã é uma economia baseada nos dados. Por isso é uma coisa. Só que há um facto também que foi relevante para levantar, pôr em pé essa cidade que estava mesmo até fins dos anos 90, está muito, muito empobrecida, muito criticada, etc. Foi a chegada do TGV em 2000, pôs Marselha a três horas e poucos minutos de Paris. Muito menos de Lyon e de várias outras cidades. Ora bem, há muitos parisienses e há muitas pessoas que moram nos arredores de Paris que decidiram vir para o Sul”, detalhou Franck Araújo. O Acelerador M já criou 250 postos de trabalho e atrai empresas dos dois lados do Mar Mediterrâneo. No entanto, e mesmo perante esta nova onda de interesse pela cidade, os problemas de Marselha persistem e é por isso que Bruna Ramos Alfama se lançou numa das listas candidatas à Câmara Municipal, a lista de Erwan Davoux, um dissidente de direita. “O essencial é ver as dificuldades de toda a gente aqui. Há drogas, há jovens que deixam os estudos aos 15, alguns mesmo aos 13 anos, temos de tentar que os jovens continuem a estudar e que tenham um futuro melhor e que todos tenhamos um trabalho digno. Eu estudei, em Portugal fiz gestão industrial e aqui não dão oportunidades”, declarou a candidata. O tráfico de droga continua a dominar os bairros Norte da cidade, tendo havido recentemente a detenção de cerca de 40 membros da máfia DZ, que lidera muitos dos pontos de tráfico na cidade. Em Novembro, uma morte em Marselha chocou a França. O irmão do activista Amine Kessaci, que lançou um livro a denunciar os meandros do tráfico de droga, foi morto por um atirador que passava de mota. Para combater a insegurança na cidade, aumentou o número de polícias municipais em Marselha, mas Jorge Mendes explica que há limitações em relação ao que a autarquia pode fazer. “É um problema da competência do Estado. Um presidente de Câmara Municipal não tem nenhum poder de polícia, judiciário, portanto, não tem a polícia na mão dele. Só tem a Polícia Municipal. Ou seja, que é normalmente a tranquilidade da segurança pública de todos os dias. Tudo o que é esse problema da insegurança de narcotráfico claro que é um problema de Estado e precisamos de reforço evidente. Mas acho que há aqui um acto simbólico. Amine Kessaci é o número três nesta desta campanha. E com um poder muito importante, que será o do acompanhamento das famílias das vítimas em bairros onde há tráfico de droga. E, portanto, ele vai ter aqui uma capacidade de acompanhamento social na luta contra o narcotráfico. Mas claro que o presidente Câmara Municipal não vai ter os poderes de meter um fim a esta guerra contra o tráfico de droga. É evidente", explicou Jorge Mendes. Mas, ao mesmo tempo, para quem vive nos bairros Norte e para quem é controlado constantemente pela polícia nacional ou municipal, a vida tornou-se mais difícil na cidade. Rachid, jovem acompanhado pela associação ARS, questiona se a polícia existe para proteger verdadeiramente a população. "Os jovens estão fartos de serem discriminados. Na verdade, estamos fartos porque, quando saímos à rua, são sempre os mesmo que são controlados e somos controlados todos os dias pela polícia, às vezes várias vezes por dia. É o nosso quotidiano. Esta é uma guerra deles, não é uma guerra nossa. A polícia devia proteger-nos, mas quando se cria uma força policial como fez Benoit Payan nos bairros do Norte é para quê? É para impedir as pessoas de saírem de lá. Claro que se a polícia vai para lá para fazer números, vai constatar infrações e impedir as pessoas de viver. E eles vão para lá para controlar árabes e negros. Quando eu era pequeno havia uma verdadeira polícia de proximidade, hoje a polícia municipal está armada. Antes falávamos de uma polícia que estava lá para nos proteger", argumentou Rachid. E a pobreza também não desapareceu. "Marselha não é a França. Quando vou a Bordéus eu vejo a França, quando vou a Bayonne eu vejo a França, quando vou a Biarritz, eu vejo a França. Quando eu digo isto é porque fui a esses sítios e não estou a falar dos imigrantes, porque só quem sofre muito deixa o seu país de origem para vir para aqui, e eu nunca serei contra imigrantes. O que eu quero dizer é que todas essas cidades têm trabalho, há menos problemas do que em Marselha. Nem todos os bairros são pobres, como acontece aqui em Marselha. Até no centro da cidade, as pessoas são pobres. Claro que Marselha é França, mas no que diz respeito à habitação, ao trabalho e às condições de vida, é como se vivêssemos noutro país", declarou o jovem. No combate de ideias destas eleições municipais, Alexandre Pastor, que fundou a associação Melting Pot, que visa dar ferramentas aos jovens para participarem na vida cívica, acredita que mesmo se as bases da sociedade estão a ser atacadas, os jovens e os cidadãos em geral podem ainda lutar por uma cidade mais justa. "Hoje estamos num ponto em que se ataca o Estado de Direito, em que atacamos a base da nossa sociedade. E isso claro que é assustador, mas eu acredito que há muitos jovens, com muitas ideias diferentes, e acho que nós ainda somos capazes de continuar a desenvolver e dar força à nossa Constituição, à nossa República, à nossa democracia, para que ela seja mais justa e mais contemporânea e que acompanhe o nossos tempo, sem que se torne autoritária, sem que ela reprima as minorias. E acho que há uma consciência crescente das desigualdades, seja em termos de género ou religiosas. Quando eu tinha onze ou quatorze anos, não tinha a consciência que os jovens têm hoje. As redes sociais também contribuíram muito, porque estamos cientes do que está a acontecer no mundo, enquanto antes era tudo mais lento. Para alguns jovens, o que realmente está a faltar é como analisar e receber essas informações", disse Alexandre Pastor. E, independentemente de quem ganhe nas eleições municipais e até mesmo nas eleições presidenciais em 2027, Sandra Lima Rocha, franco-cabo-verdiana e presidente da associação Cap Vert l’Avenir que presta apoio aos cabo-verdianos instalados em Marselha, assegura que Marselha será para sempre uma cidade rebelde. “Marselha é uma cidade que sempre foi rebelde, e, por isso, também foi precursora em muitas coisas. De facto, não aqui aceitamos o estado das coisas, então temos este feitio animado e juntamo-nos quando achamos que as coisas não estão bem. Eu costumo dizer que, quando se trata de Marselha, ou tu amas esta cidade ou vais-te embora. Porque não é possível viver nesta cidade sem estar comprometido com alguma causa ou interessado nalgum assunto quer seja futebol ou política, para nós é tudo ou nada. Mas, ao mesmo tempo, sempre conseguimos conversar um com o outro. E temos problemas, mas os nossos problemas não são entre comunidade, não são entre muçulmanos e judeus. Se virmos os ataques terroristas que houve em França, como em Paris ou Nice, Marselha não teve um grande ataque e eu não digo que não haja uma ameaça terrorista em Marselha, mas é algo que, por enquanto, não aconteceu, porque acho que há uma solidariedade em Marselha entre as comunidades, apesar de todos os problemas que existem. Há realmente algo nesta cidade que garante isso. Nós aqui não somos extremistas, só no nosso entusiasmo e isso toda a gente sabe”, concluiu.