
Assinala-se o Outubro Rosa, um mês dedicado à prevenção do cancro da mama, que continua a representar um importante problema de saúde pública em Moçambique. Leia Liquidão, presidente da Associação Moçambicana Outubro Rosa, refere que o cancro da mama é a segunda causa de morte entre as mulheres no país e afirma que o diagnóstico tardio é um dos principais responsáveis por esta realidade. Em Moçambique, o cancro da mama continua a ser uma das principais causas de morte entre as mulheres. Qual é a situação actual? Em Moçambique, segundo as últimas estatísticas, o cancro da mama continua a ser a segunda maior causa de morte entre as mulheres, depois do cancro do colo do útero. Isto leva-nos a afirmar, com mais certeza, que ainda há muito trabalho a fazer no que diz respeito à prevenção, à consciencialização e à importância do diagnóstico precoce desta doença. De acordo com as estatísticas o cancro da mama atinge cerca de 2 mil mulheres, cerca de 800 acabam por morrer. Esta continua a ser uma grande preocupação para nós, activistas, para os profissionais de saúde e para a sociedade em geral. É importante percebermos que, quanto mais cedo identificarmos a doença, melhor. Quais são os factores de risco? Em que idades é que esta doença se manifesta com maior frequência? Há algum tempo, esta era uma doença que se associava sobretudo a mulheres adultas ou de idade avançada. Contudo, hoje em dia, não se verifica apenas ssa situação: Quero dizer com isto que existem vários casos de cancro da mama diagnosticados em mulheres jovens que não apresentam nenhum factor de risco conhecido. São, supostamente, pessoas que levam uma vida saudável e têm uma alimentação regrada. Os factores de risco continuam a ser mencionados, porque fazem parte do trabalho de consciencialização, mas já não são, por si só, determinantes para estabelecer se uma pessoa terá ou não cancro da mama. O que é que ainda leva as mulheres e os homens a não procurarem uma consulta ou a não fazerem a palpação da mama? Em primeiro lugar, o tabu. Estamos a falar de uma sociedade moçambicana que, na sua maioria, é tradicionalista. A ideia de tocar na própria mama, nomeadamente através da palpação regular, continua a ser um tabu. Depois, temos a falta de conhecimento. A informação tem circulado, sim, através das redes sociais, dos canais televisivos, da rádio e de vários outros meios de comunicação. Mas temos de nos lembrar de que uma boa parte da população moçambicana vive em zonas semi-urbanas ou rurais e não tem acesso a esta informação. Além disso, ainda temos algumas insuficiências no sistema de saúde, onde, por vezes, as primeiras suspeitas são encaradas com ligeireza, o que acaba por levar as pessoas a desvalorizar a situação. Também acompanhamos casos em que houve um diagnóstico incorrecto. Inicialmente, parecia não ser nada, mas, tempos depois, meses depois, a pessoa descobriu que, afinal, era cancro da mama. Podemos, por isso, apontar como principais razões a falta de conhecimento, a ausência de um sistema regular e estruturado de diagnóstico e, por vezes, algum desleixo da nossa parte, enquanto sociedade, no que diz respeito à incorporação do auto-exame e da preocupação com a saúde no nosso quotidiano. Muitas pessoas ainda não consideram estes cuidados importantes e vão adiando: «Ai, vou fazer depois». Não incorporam este hábito no seu dia-a-dia. É precisamente para esta questão que temos o dever de chamar a atenção. É importante encararmos a palpação da mama como uma forma de contribuir para o diagnóstico precoce do cancro da mama. Qual é a importância do diagnóstico precoce? Quanto mais cedo descobrirmos o cancro, maiores são as hipóteses de cura. Há também menos probabilidades de a pessoa ter de ser submetida a uma cirurgia de remoção da mama ou a tratamentos ainda mais agressivos, como acontece nos casos em que o cancro é descoberto numa fase avançada. Muitas vezes, quando a doença já se encontra numa fase avançado, há pouco que se possa fazer. Nesses casos, a pessoa poderá ter de passar por tratamentos como a quimioterapia e a radioterapia, pela remoção da mama e por todo um conjunto de procedimentos destinados aos casos mais graves de cancro da mama. Qual é a taxa de sucesso nos casos em que a doença é detectada precocemente? Não temos estatísticas registadas, mas acompanhamos muitos casos de sucesso a nível da associação. Temos acompanhado vários casos de pacientes que descobriram a doença precocemente e conseguiram levar uma vida saudável. Temos, inclusive, na associação, o caso de uma sobrevivente de cancro que descobriu a doença muito cedo e não teve de passar pela remoção da mama. Teve apenas de se submeter a tratamento, porque cada caso é um caso. Ainda assim, os casos que acompanhamos com maior frequência são os de pacientes internadas em hospitais para receber tratamento, bem como os de mulheres em regime ambulatório, que se deslocam ao hospital para fazer quimioterapia. Infelizmente, muitas delas tiveram de passar pela remoção da mama, em situações de doença mais avançada. O cancro da mama também pode ocorrer nos homens. Como é feito o diagnóstico nestes casos? Em Moçambique, temos muito poucos casos de cancro da mama em homens. A nível da associação, acompanhámos apenas um caso. Não temos muitos registos desta doença entre a população masculina. Em Maputo, especificamente, não dispomos de dados suficientes para dar uma resposta mais exacta. Enquanto associação, não acompanhámos de perto muitos casos, mas o processo de diagnóstico passa pela realização dos exames necessários, de acordo com os sintomas apresentados, tal como acontece nos casos de cancro da mama nas mulheres. Referiu que, muitas vezes, as mulheres têm de retirar a mama. Como é feito o acompanhamento destas mulheres depois da cirurgia? Como regressam ao trabalho e como é a sua vida em casa? Acho que este é um dos grandes desafios, mas também tem sido uma das partes mais bonitas deste processo, porque a associação presta apoio psicossocial a estas sobreviventes. Procuramos colocá-las em contacto com outras mulheres que já passaram pelo processo de tratamento e que hoje conseguem levar uma vida relativamente normal. Temos ainda um aspecto importante: contamos com várias parcerias com organizações que fornecem próteses mamárias, por exemplo, para mulheres que foram submetidas a uma cirurgia de remoção da mama. Com estas próteses, conseguem voltar a usar as suas roupas como faziam normalmente antes da doença, recuperando um pouco da sua auto-estima. Respondendo à questão sobre a vida destas mulheres, é difícil, é complicado. Trata-se de uma nova realidade que exige tempo para ser assimilada. Quando uma pessoa perde uma parte do corpo, deixa de se olhar da mesma maneira. É aqui que nós, enquanto associação, procuramos prestar apoio psicossocial, tanto individualmente como através de grupos de terapia. Nestes grupos, em contacto com outras sobreviventes, as mulheres conseguem perceber que é possível, sim, ter uma vida relativamente normal e construir uma nova vida. O que falta fazer em Moçambique para que as mulheres procurem mais os serviços de saúde e para que tanto as mulheres como os homens estejam mais atentos a esta doença? A divulgação da informação e a melhoria dos serviços de atendimento dos casos de suspeita de cancro da mama são, certamente, duas prioridades. Estes dois aspectos continuam a ser o nosso calcanhar de Aquiles, se me permite a expressão. Temos de continuar a trabalhar sem cessar, não apenas em Outubro, mas também nos restantes meses do ano. Naturalmente, podemos aproveitar o Outubro Rosa para intensificar um pouco mais esse trabalho. É fundamental divulgar informação em zonas cada vez mais abrangentes e garantir serviços de saúde de qualidade, pelo menos ao nível dos hospitais próximos de cada uma destas comunidades, de modo a assegurar um diagnóstico rigoroso e mais fiável.