
Cerca de 24,5% das mulheres grávidas inquiridas em Quelimane disseram não ter ficado felizes quando souberam da gravidez, os dados são de um estudo do Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM). Entre adolescentes, a percentagem sobe para 42,2%. O estudo analisou 1.546 mulheres grávidas, acompanhadas entre 2023 e 2024 no distrito de Quelimane, província da Zambézia. O estudo sobre o estado emocional da mulher grávida foi liderado pelo demógrafo Ariel Nhacolo, investigador do Centro de Investigação em Saúde de Manhiça. Para Ariel Nhacolo o resultado mostra que a realidade das gravidezes em Quelimane é mais complexa do que a ideia de que a maternidade é sempre desejada. “É um número grande, muito alto”, mas os resultados são semelhantes aos encontrados noutros estudos realizados em países da África subsaariana. Entre as principais razões apresentadas pelas mulheres que não ficaram felizes estão a falta de planeamento da gravidez, com cerca de 30%, a gravidez não desejada, com 26,5%, e o medo das consequências, referido por 17%. A investigação, realizada entre 2023 e 2024, mostra que a proporção de mulheres infelizes com a gravidez chega aos 42% entre adolescentes dos 12 aos 19 anos. Para o investigador, o dado é particularmente preocupante porque esta faixa etária enfrenta também maiores riscos de saúde e interrupção dos estudos. “Em adolescentes de 12 a 19 anos, isso é preocupante porque é o grupo que tem mais problemas de saúde e, de facto, muitas deixam de estudar”, explica. A reacção do parceiro também parece ter um peso importante. Entre as mulheres que disseram que o parceiro ficou infeliz com a gravidez, 74% também se declararam infelizes. O investigador admite, contudo, uma limitação importante do estudo: os homens não foram entrevistados directamente. “O nosso estudo era sobre mulheres”, explica, reconhecendo que esta é uma lacuna que deverá ser considerada em futuras investigações. Para Ariel Nhacolo, a resposta passa por aproximar rapazes e raparigas dos serviços de saúde sexual e reprodutiva e reforçar o acesso ao planeamento familiar: “É preciso continuar a trabalhar num contexto em que se aproximem os dois lados, os rapazes e as meninas”. O investigador considera que ainda existe trabalho a fazer no acesso dos jovens à informação e aos serviços de planeamento familiar. Em Moçambique, existem programas destinados a aproximar os serviços de saúde sexual e reprodutiva dos adolescentes, incluindo através das escolas e unidades sanitárias. O estudo recomenda, assim, uma maior atenção às adolescentes e o reforço do diálogo sobre planeamento familiar, procurando reduzir as gravidezes não planeadas e garantir melhores condições para as mulheres viverem a gravidez e a maternidade.